Internacional

Eleições ao som das armas

Cerca de 37 milhões de habitantes da Ucrânia irão escolher neste domingo 450 deputados, metade dos quais são eleitos em círculos uninominais e outra em círculos maioritários. Aos lugares nestes últimos concorrem 29 partidos e alianças, mas apenas sete ou oito deverão superar a barreira dos 5% dos votos, necessária para eleger deputados.

As sondagens dão claramente o primeiro lugar nos círculos maioritários ao Bloco Petro Porochenko, dirigido pelo actual Presidente da Ucrânia, que poderá garantir entre 27 e 32% dos votos.

No início da campanha, os estudos de opinião pública davam o segundo lugar ao Partido Radical de Oleg Lashko, força política de extrema-direita populista, mas as previsões colocam-no agora abaixo do terceiro lugar com cerca de 10%.

Em contrapartida, subiu significativamente a popularidade da Frente Popular de Arseni Iatseniuk, primeiro-ministro, e Alexander Turchinov, presidente do Parlamento, que poderá ficar em segundo lugar com mais de 10% dos votos.

Os partidos Batkivschina (Pátria), da antiga primeira-ministra Iulia Timochenko, e Posição Cívica, do antigo ministro da Defesa Anatoli Gritzenko, deverão também superar a barreira dos 5%.

Quanto aos partidos de extrema-direita nacionalista: Sbovoda (Liberdade) e Pravoi Sektor (Sector de Direita) poderão eleger deputados apenas nos círculos uninominais.

O que restou do Partido das Regiões, do ex-Presidente Ianukovich, estão representados por duas forças políticas: Forte Ucrânia, de Serguei Tigipko, antigo ministro da Economia, e o Bloco da Oposição, podendo apenas o primeiro ficar acima da linha dos 5%. Parte significativa do eleitorado destas duas forças políticas, bem como do Partido Comunista, que também não deverá eleger ninguém nos círculos maioritários, encontra-se nas regiões separatistas de Donetsk e Lugansk, onde o escrutínio não irá ter lugar.

Coligação à vista

“Nenhum dos partidos, incluindo o do Presidente Porochenko, terá maioria na Rada. Ele provavelmente irá aliar-se aos actuais primeiro-ministro e presidente do Parlamento para governar o país com alguma estabilidade”, declarou ao SOL, por telefone, de Kiev, Vladimir Dolin, analista político.

Porém, essa coligação terá grandes desafios pela frente, nomeadamente no que respeita ao separatismo no Leste do país. Segundo o analista, “muito depende da Rússia. A Ucrânia não saiu derrotada da luta contra os separatistas, não obstante o apoio maciço do Kremlin. Moscovo falhou na sua guerra-relâmpago”.

Todavia, Kiev necessita de ajuda da União Europeia nos mais diversos sectores. “A Ucrânia necessita de armas, as tropas de treino militar, o país de garantia da inviolabilidade das fronteiras, apoio diplomático e, claro, financeiro”, sublinha Vladimir Dolin.

Kiev precisa urgentemente de 4 a 5 mil milhões de dólares para pagar a factura do gás que deve à Rússia e garantir o fornecimento desse combustível durante o Inverno. Sem Bruxelas, os ucranianos serão abandonados à sua sorte, neste caso, à vontade da Rússia.

Nas palavras, o Kremlin afirma estar interessado na estabilização do país vizinho, mas na prática parece esperar que as autoridades de Kiev falhem e sejam derrubadas pela onda de descontentamento da população.