Internacional

Dilma: a vencedora que começou como favorita e passou por derrotada

Dilma Rousseff foi hoje eleita a 37.ª Presidente da República Federativa do Brasil. Desde de 2010 no Palácio do Planalto, a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT) foi reeleita com 51,54% dos votos contra os 48,46% somados por Aécio Neves, candidato do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB). Naquela que é considerada a eleição mais disputada desde 1989, ano das primeiras eleições após a redemocratização do Brasil, a polarização acabou por dominar o confronto entre dois adversários que propunham dois destinos quase antagónicos para o país, deixando abertas divisões históricas da sociedade brasileira como Norte/Sul do país e a velha dicotomia rico vs. pobre.  


Se em Julho a sucessora de Luiz Inácio Lula da Silva tentava a reeleição logo na primeira volta - e as sondagens davam-lhe alguma margem de manobra para pensar neste cenário -, a meio de Agosto, mais exactamente no dia 13, a morte de Eduardo Campos, então candidato do PSB, num acidente aéreo em Santos, obrigou à redefinição das metas e do calendário eleitoral dos petistas. Dilma adaptou a sua estratégia, montada por João Santana, temido profissional do marketing político brasileiro, à medida que forças exteriores ameaçavam a reeleição. 

Marina Silva foi uma destas forças. A candidata que ocupou o lugar de Eduardo Campos na lista do PSB, é de má memória para Dilma Rousseff. Em 2010, ano em que correu pelo Partido Verde, a ambientalista obrigou a sua ex-colega do governo Lula a disputar o segundo turno das eleições presidenciais com José Serra, do PSDB. Quatro anos mais tarde, a história viria a repetir-se. Com a agravante de Marina Silva, até bem perto da primeira volta deste ano, ser apontada como a séria candidata a derrotar Dilma Rousseff nas urnas, quando tudo indicava que Aécio Neves já estaria fora de jogo. 

A campanha fez-se de viragens, sobretudo nas sondagens. Dilma teve de encaixar momentos em que passou de candidata favorita a derrotada. Tal como aconteceu uma semana depois da morte de Campos, e já com Marina Silva apresentada como sua substituta. A ambientalista somava então mais intenções de voto do que a candidata à reeleição no segundo turno. Nada disso, porém, fez enfraquecer o discurso de Dilma, que apostou na descontrução da sua adversária e no ataque: questionou as suas capacidades para liderar o país e acusou-a de querer acabar com os programas sociais para brasileiros em extrema pobreza, como o ‘Bolsa Família’, criado por Lula da Silva. Marina reagiu e acusou o PT de praticar um “marketing selvagem”, mas não terá sido suficiente para evitar que fosse ultrapassada por Dilma e por Aécio nas sondagens, neste último caso já à boca das urnas. 

No dia 5 de Outubro, chegou a confirmação: Dilma, que somou 41,59% dos votos, iria disputar o segundo turno com Aécio, que ficou em segundo lugar com 33,5%. A partir daí, e consolidada a velha polarização da política brasileira, entre PT e PSDB, os dois candidatos disputariam cada um dos 36 milhões de eleitores que votaram nos candidatos excluídos do segundo turno e que votaram branco ou nulo. Pela frente, viria mais uma campanha agressiva do PT contra o seu adversário que subia de tom à medida que o tucano começava a liderar as sondagens e que a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) se incendiava face à possível derrota do PT. 

Ao sentir a reeleição ameaçada, a candidata hoje reeleita questionou a herança do seu adversário em Minas Gerais (Aécio Neves foi governador daquele estado) e comparou os resultados do seu governo aos de Fernando Henrique Cardoso quando era acusada de má gestão do país, numa reedição da dicotomia “nós contra eles”. Isto, enquanto eram denunciados escândalos de corrupção na Petrobras, como o revelado na última semana pela revista Veja, que publicou o depoimento de um intermediário da transferência de dinheiro da petrolífera estatal para financiar campanhas do PT e dos partidos aliados. Segundo Alberto Yousseff, Dilma e Lula não só sabiam do esquema como tiraram proveito dele.

Desentendimentos com Lula da Silva?

Lula foi uma figura omnipresente durante a campanha. Ora ao lado de sua sucessora, ora em comícios pelo país sem a candidata presidencial, o ex-Presidente do Brasil tentou esvaziar de sentido notícias que davam conta de uma alegada ruptura entre os dois. Mas se é verdade que Lula nunca desmobilizou publicamente, internamente a coisa não sucedeu do mesmo modo. Segundo o Estado de São Paulo, logo a seguir à primeira volta, e com a derrota de Dilma no estado de São Paulo, Lula terá dito aos companheiros de partido que “enquanto a gente está aqui discutindo, aposto que eles (Dilma e a equipa coordenadora da sua campanha) estão lá, em Brasília, fechando a agenda de segunda, terça, quarta, quinta e sexta, sem ouvir ninguém, sem combinar com os russos”, reclamou na sede do Instituto a que dá nome, em São Paulo. 

Dilma viu-se obrigada a gerir as expectativas dos que pediam o regresso de Lula, que ganhou maior projecção depois de Marina Silva ocupar o lugar de Campos e com a derrota de Dilma a pairar sobre a sede do PT. O movimento ‘Volta, Lula’ terá sido criado dentro do próprio partido por insatisfeitos com a política e a gestão da candidata. Até bem perto das eleições, e respeitando o prazo do Tribunal Superior Eleitoral para as alterações às listas candidatas, foi criada na internet uma página com um relógio que fazia a contagem decrescente para o fim deste prazo. O objectivo era pressionar Lula da Silva a saltar para o lugar da mulher que tinha ajudado a eleger em 2010 para evitar a derrota que todos previam mas que acabou por não se confirmar. 

Também durante a campanha, os indicadores macro-económicos pairaram sobre a candidatura de Presidente do Brasil. A inflação na casa dos 6%, o Real mais fraco que o Dólar e a previsão de crescimento da sétima economia mundial (0,3% em 2014, de acordo com o FMI, quando em 2010 o país crescia a 7,5%) fragilizaram a retórica da candidata que era acusada de ter abandonado o tripé macro-económico nos quatro anos da sua governação: meta da inflação, superávit fiscal e câmbio flutuante. Dilma foi ainda criticada por, “em vez de recuar nas medidas de incentivo ao consumo e ao investimento que haviam sido tomadas para contornar a crise global a crise global de 2008,  (decidir) pôr o pé no acelerador”, segundo a Piauí, num longo perfil de Dilma Rousseff onde lembra que Dilma “baixou as taxas de juros dos bancos estatais para obrigar as instituições privadas a fazer o mesmo” por considerar que “um pouquinho de inflação não faz mal a ninguém”. 

A candidata respondia que enfrentou a crise sem baixar salários, sem aumentar os juros e sem despedir trabalhadores, recordando que o Brasil tem uma taxa de quase pleno emprego, não obstante as críticas de que a promoção de uma expansão económica baseada no endividamento seria um risco. Dilma, que usou muitas vezes a Europa para demonstrar aquilo que não quer no seu Brasil, numa crítica às políticas de austeridade, disse ainda que nunca deixaria de incutir os pobres no Orçamento do Brasil, contrariamente ao que acusava o PSDB e o seu adversário de querer fazer se vencesse as eleições. No final, e já próxima de recta final da campanha para o primeiro turno, a Presidente reconheceu a necessidade de alguns ajustamentos na economia brasileira e adiantou ainda que Guido Mantega, o seu ministro da Fazenda, não voltaria a ser convidado para ser titular da pasta num possível segundo governo liderado por si. 

Imprensa internacional contra a reeleição

Mas as críticas não chegaram só de dentro. A revista The Economist defendeu o voto em Aécio, com havia feito em 2010 ao defender o voto em Serra. Num artigo intitulado “Por que o Brasil precisa de mudança”, a britânica afirmou que face à promessa por cumprir de crescimento económico, “era de se esperar que os brasileiros dispensassem Dilma já no primeiro turno”. Também a CNN se posicionou contra a reeleição de Dilma e a favor da eleição de Aécio. Num artigo intitulado “Por que o Brasil quer Dilma fora do poder” publicado na sua página na internet, a rede de televisão americana escrevia que “os brasileiros estão tomando conta das ruas novamente, desta vez para pedir que os eleitores não votem na presidente Dilma Rousseff”. A CNN responsabiliza ainda Dilma e a sua equipa económica pelo “resultado pífio da economia”, pelo “intervencionismo excessivo” e pela “alta inflação”. 

O The Guardian, num artigo dedicado à geopolítica ensaiou as consequências para o mundo, caos vencesse Dilma ou Aécio. O jornal escrevia que a “eleição no Brasil é um ponto de viragem na geopolítica” e deixava a pergunta: “Será que a super potência do Sul vai voltar a ser um rebanho dos Estados Unidos da América ou pode Dilma Rousseff lutar contra os seus rivais e continuar a liderar a América Latina rumo a uma maior autonomia?”. 

Internamente, os desafios para o próximo mandato de Dilma estão identificados à partida: será pressionada a dar um novo rumo à economia brasileira, que não cresce há dois semestres consecutivos, estando em recessão técnica e a avançar para uma reforma política, face ao esgotamento dos partidos políticos sinalizados durante esta campanha, segundo politólogos com análises publicadas nos jornais brasileiros. O fim da reeleição, muito discutido durante a campanha eleitoral, também deverá permanecer na agenda. A negociação, porém, será mais dificultada face a um líder da oposição que sai fortalecido destas eleições. Além disso, o PT perdeu 18 cadeiras na Câmara dos Deputados, enquanto o PSDB ganhou 11 e o Partido Socialista Brasileiro, que tinha Marina Silva como candidata a Presidente, ganhou 10 parlamentares. 

ricardo.rego@sol.pt