Sociedade

O berço das independências

Na Faculdade de Letras, Aida e duas amigas – ela de Moçambique, as outras de Angola – eram conhecidas como “as ultramarinas”. Arrepiaram caminho até à distante e estranha metrópole no mesmo barco e forjaram uma amizade que as une até hoje, quase meio século após o encerramento da Casa dos Estudantes do Império (CEI). Para Aida, filha de brancos a residir na então Lourenço Marques, actual Maputo, a CEI só seria uma realidade alguns anos após chegar a Lisboa: primeiro ambientou-se a uma cidade mais fria, onde “a mulher ainda era um ser raro”, mas que lhe abriu a porta para as lutas de libertação. E até para o amor.

Em 1957, com 17 anos, Aida Faria descobre um mundo novo ao qual não faltam constrangimentos. “Uma rapariga não diz ou não faz ou não anda ou não veste e não anda sem meias e tem de andar com cinto...”, enumera. “Em Moçambique convivíamos rapazes e raparigas perfeitamente em pé de igualdade. Em Lisboa não”. Ainda assim, a cor da pele – branca – e as raízes lusas dos pais facilitam a integração. E algumas campainhas vão soando, como quando em 1958 passa no lisboeta Camões e vê a multidão da reunião de campanha de Humberto Delgado, candidato opositor do regime do Estado Novo, que viria a ser derrotado nas urnas.

É pela mão de um cabo-verdiano, colega e treinador de basquetebol – a sportinguista Aida integra uma equipa feminina de basquetebol de Letras com as duas amigas –, que entra na CEI. A irmã, mais velha, já lhe tinha falado em Moçambique dos bailes dos anos 40: “Naquela altura só se devia dançar valsas e polkas [risos]”. Não é a Casa que encontra já no início dos anos 60. 

Fundada em Outubro de 1944, tinha sede em Lisboa na Avenida Duque d’Ávila, ao Saldanha (é logo aberta uma delegação em Coimbra; em 1959 abre outra no Porto), num prédio que apenas guarda como memória do passado uma placa no chão. Com um salão de festas no segundo andar, o primeiro alberga a cantina (a partir de 1948) e a mansarda é para a biblioteca. Também ali vai funcionar um posto clínico.

Do império para a independência 

Subsidiada pelos Ministérios da Educação e das Colónias, a Casa, como lhe chamam os antigos associados, cria-se como espaço social e de convívio dos estudantes das colónias, que em Portugal prosseguem os estudos superiores. A provar o carácter imperial – que logo começa a sofrer drásticas alterações –, o primeiro presidente da Casa é Alberto Mano de Mesquita, sobrinho do governador de Angola. A apadrinhar o projecto, o então comissário nacional da Mocidade Portuguesa, Marcello Caetano: o primeiro presidente honorário da CEI foi também o último presidente do Conselho do Estado Novo, derrubado pela Revolução de Abril de 1974.

“É curioso que a Casa tinha acabado de ser criada e já havia pessoas hostis à política colonial”, lembra Aida. O nascimento da CEI corresponde ao fim da II Guerra Mundial, “que criou no seio das colónias uma adesão (de gente urbana, não do interior) à vitória dos Aliados, que em nome da liberdade e da democracia tinham vencido os nazis. É uma data-charneira, não só nas colónias portuguesas, mas no mundo”.

Por exemplo, já em 1944, na CEI de Coimbra, um jovem de nome António Agostinho Neto surgia em relatórios da polícia política como ligado a comunistas. Mal sabia a PIDE que este seria o primeiro Presidente de Angola independente. Tal como Sócrates Dáskalos, nascido no Huambo, filho de um grego e de uma portuguesa, “um dos fundadores da Casa, que já em 1947/48 é um grande defensor da independência”. O futuro dirigente do MPLA, escritor e governador da província de Benguela, fazia parte de um grupo que “muito rapidamente percebeu que ser do Ultramar não era a mesma coisa que ser metropolitano”.

Em 1946, a maioria dos membros dos corpos gerentes da CEI de Lisboa e de Coimbra integravam listas do oposicionista Movimento de Unidade Democrática, aderindo depois ao MUD Juvenil. Quatro anos depois, os estudantes da Índia portuguesa da CEI recusam alinhar com o regime na assinatura de um documento a condenar as políticas do primeiro-ministro indiano Nehru. 

A revisão constitucional de 1951 troca ‘colónias’ por ‘províncias ultramarinas’ – sob pressão internacional e com os ventos independentistas de mudança, Portugal continua a existir do Minho a Timor: deixa de ser um ‘império’ para ter um ‘ultramar’. “Mas a designação de Casa dos Estudantes do Império manteve-se até ao final, muito a contragosto do Ministério [rebaptizado do Ultramar]”, nota a historiadora Cláudia Castelo.

Aida ainda não estava na CEI, onde só viria a ser sócia em 1962, embora começasse a frequentar a Casa um ano antes, a convite do treinador cabo-verdiano: “Ia haver uma grande farra na semana de recepção aos caloiros. Lá fomos, achámos graça. Acabámos as três por arranjar lá maridos”, lembra. Ali se tornou Aida Freudenthal, futura historiadora, casando-se com o também sócio Percy Freudenthal, que viria a ser director da secção de Estudos Ultramarinos. 

Cultura e política 

O punho cerrado do regime fez-se notar com a imposição de uma comissão administrativa, que entre 1952 e 1957 gere a CEI de Lisboa (e a partir de 1955 a delegação de Coimbra), interrompendo as eleições na Casa, que já tinha editado Linha do Horizonte (1951), do cabo-verdiano Aguinaldo Fonseca, e Godido (1952), do moçambicano João Dias (ambos na lista de autores que o SOL reedita a partir de 31 de Outubro). “Naquela altura estes livros ainda não iam à censura, eram considerados uma produção interna da associação. O Ministério não estaria distraído, mas foi permitindo até porque lhe convinha: assim percebia por que caminho iam aqueles jovens”, explica Aida.

“Uma nova direcção da Casa ‘libertada’”, já com a comissão administrativa suspensa, “surge a partir de 1957, com eleições livres e um novo dinamismo”, de que são prova encontros, colóquios, bailes. Serão publicados mais livros com a chancela da CEI, para vender junto dos sócios, mas que têm ainda outro destino, de venda clandestina, para escapar à PIDE: “Como as edições eram pequenas – creio que não ultrapassavam umas centenas – rapidamente se distribuíam e cada associado ficava com um ou dois livros. Às vezes mandavam para as colónias”.

É o nascer de uma literatura que tem o africano como protagonista. Também o boletim Mensagem era periodicamente publicado com contributos que chegavam de Angola e Moçambique. “Ainda no outro dia o Luandino [Vieira, sócio da CEI, escritor e um dos rostos da luta pela independência de Angola] me estava a dizer isto. Muitos textos eram enviados de Maputo ou Luanda, de pessoas que publicavam lá, em jornais ou pequenas revistas, sobretudo poemas de cunho muito protestatário. A Casa foi o veículo dessa nova consciência cultural, política e de identidade”, remata Aida Freudenthal. 

A PIDE andava à espreita

Apesar de o objectivo inicial da Casa, segundo os arquitectos do regime, estar a ser deturpado com o despertar de uma consciência anticolonialista, a CEI serviu para “recrutar vários funcionários estatais e alguns desempenharam funções de relevo no Ministério do Ultramar em Lisboa”. A seu favor, o Estado tinha as bolsas que concedia a alguns estudantes: “Isso já era criar um compromisso. Subentendia-se que esses indivíduos, se fossem de muita confiança da Mocidade Portuguesa, eram captados para serem funcionários”.

E a PIDE andava à espreita. Havia agentes nos cafés que rodeavam a casa, como o velho Rialva, onde os pides se denunciavam como “os tipos distraídos a olhar para o ar”. E, no interior da Casa, “suspeitava-se” da existência de informadores ou mesmo de pides. Uma comissão administrativa volta a impor rédea curta à CEI em Dezembro de 1960, após a distribuição de um panfleto com uma ‘Mensagem ao Povo Português’, que exige o direito à autodeterminação das colónias – apesar dos apelos da polícia política para encerrar a associação, o Governo mantém a Casa de portas abertas, mas fecha a delegação do Porto em Janeiro.

Da guerra à grande fuga

No início de 1961 a guerra é já uma realidade em Angola. Seguir-se-ão as outras colónias. A CEI sente a incongruência e a inevitabilidade de uma fractura. Dá-se a grande fuga em Junho, com cerca de 100 estudantes, alguns já com família, que se escapam de Portugal (muitos graças às redes dos comunistas), mas também houve outros exílios: “As fugas são uma declaração de rejeição à guerra e aquela fuga foi a mais visível porque foi notícia”. A comissão administrativa é exonerada em Julho, ficando a Casa entregue à sua sorte: no ano seguinte, a CEI associa-se à greve estudantil e ao luto académico, o que origina uma incursão da PIDE nas instalações, apreendendo material, ficheiros e detendo membros da direcção. Com a torneira de fundos estatais fechada, a Casa tem dificuldades em sobreviver – e muitos dos seus associados já partiram para se juntar à guerra de descolonização.

O encerramento da Casa dos Estudantes do Império, ao fim de 21 anos de actividade, acontece a 6 de Setembro de 1965, com o pretexto da descoberta de alegadas ligações da CEI ao Partido Comunista. O cerco fecha-se, a PIDE invade as instalações. “A maior parte dos sócios tinha ido de férias, outros ficaram quietos porque tinha havido prisões, alguns sócios ainda estavam presos. Foi despejado o que havia dentro da Casa, até mobílias”, resume Aida. Ela própria já tinha deixado Lisboa, rumo a Luanda, em Agosto.

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