Vida

O que levou uma mãe a lutar pela eutanásia da filha

Pela primeira vez, uma mãe britânica que recebeu autorização do Supremo Tribunal britânico para eutanasiar a filha falou à imprensa. O caso tem alimentado um acesso e sensível debate no Reino Unido e além-fronteiras.

Nancy Fitzmaurice nasceu em Julho de 2002 com um quadro de hidrocefalia, meningite e septicemia. Todos estes problemas deixaram-na incapaz de andar, falar ou até mesmo comer autonomamente. Ou seja, totalmente dependente de outros.

A bebé precisava de cuidados 24 horas por dia e encontrava-se em dor permanente.

Em Agosto, os pais conseguiram convencer um juiz do Supremo Tribunal a autorizá-los a pôr fim ao sofrimento da filha. Duas semanas depois, Nancy, com 12 anos, morreu no hospital, rodeada da família.

A mãe, Charlotte Fitzmaurice, explica agora ao jornal inglês Express que era “insuportável” ver a filha naquele estado: “Vou viver para sempre com culpa mas sei que fiz tudo o que podia pela Nancy. Ela está em paz”. Charlotte acrescentou que decisões desta matéria devem ser tomadas pelos pais e pelos médicos, e não por juízes.

Todo este drama começou ainda Charlotte estava grávida, com uma infecção bacteriana. Pouco tempo antes do parto, foi avisada que devido à infecção era provável que a sua filha nascesse com graves problemas de saúde.

Depois do nascimento, os médicos deram a Nancy quatros meses de vida. “Aos seis meses, diagnosticaram-lhe epilepsia e tinha convulsões diariamente”, recorda a mãe, licenciada em enfermagem, carreira que abandonou para cuidar da filha.

Os danos cerebrais sofridos por Nancy eram extremamente graves, sendo que o seu desenvolvimento cognitivo era, aos 12 anos, o de um bebé de seis meses. “Coisas simples como ouvir os pássaros ou ouvir crianças a brincar punham-na a sorrir. Ela adorava Michael Bublé”, recorda Charlotte, de 36 anos.

Em Maio de 2012, Nancy contraiu uma infecção após uma operação aos rins que a tornou imune a analgésicos à base de morfina e ketamina, essenciais para suportar as dores diariamente.

“Ela gritava e contorcia-se o tempo todo. Não ser capaz de aliviar o seu sofrimento foi demais. Já não era a minha filha, era apenas uma ‘carapaça’”. Foi precisamente depois de um fim-de-semana ‘aos gritos’ que Charlotte decidiu que não iria continuar a fazer a filha passar por tamanho sofrimento.

O hospital onde Nancy estava internada representou Charlotte e o pai da filha, David Wise, em tribunal. O casal argumentou que a criança tinha direito a uma morte célere e sem dores e, pela primeira vez, a justiça britânica decidiu a favor da morte de uma criança que não sofria de uma doença terminal e que respirava por si só.

“Eu só queria que a minha filha morresse com dignidade, enquanto lhe segurava a mão”, afirma Charlotte.

Depois do óbito, os pais de Nancy estabeleceram um fundo, a que deram o nome da filha, para ajudar os pais a pagarem pelos funerais dos seus filhos.

rita.porto@sol.pt