Sociedade

Aeroportos sem planos para o ébola

Os aeroportos nacionais não têm planos de contingência para enfrentar o ébola. Comissários de bordo, hospedeiras e funcionários estão preocupados com a falta de formação e informação para lidar com casos suspeitos e já pediram mais esclarecimentos por considerarem que esta é uma situação de alto risco.

Segundo confirmou o SOL junto de fonte da ANA, a empresa que gere os seis aeroportos do país, a Direcção-Geral de Saúde (DGS) ainda não deu instruções para que sejam definidos os circuitos que eventuais doentes devem percorrer ou as salas a ser usadas para isolar passageiros com sintomas suspeitos. 

“Neste momento não temos plano de contingência nem temos nada preparado, porque não recebemos quaisquer instruções nesse sentido da DGS”, adianta fonte da empresa, acrescentando que até agora só tiveram indicação para distribuir folhetos informativos aos viajantes de voos directos dos 15 países africanos classificados de alto risco.

Mais dúvidas do que certezas

Toda esta situação levou os funcionários que dão assistência em escala, o pessoal de limpeza e os operadores de bagagem ou do check in, entre outros, a exigir mais explicações sobre a doença. E, através do sindicato que os representa, até já pediram uma reunião à DGS e ao Instituto Nacional de Aviação Civil. 

“Estamos preocupados com o ébola, porque continuamos com mais dúvidas do que certezas”, lamenta ao SOL Armando Costa, do Sindicato dos Trabalhadores da Aviação Civil, recordando que a DGS, na sequência de uma reunião, a 9 de Setembro com os funcionários do aeroporto de Lisboa, tinha garantido que daria em breve informação mais detalhada. “Deram-nos explicações gerais sobre a doença e as suas formas de contágio e depois prometeram dar-nos folhetos com informação adequada a cada grupo profissional. Mas até agora nada”, avisa o dirigente sindical.

No aeroporto Sá Carneiro, no Porto, só na semana passada é que os funcionários tiveram uma sessão de esclarecimento da DGS, onde foi visível as muitas dúvidas dos trabalhadores, contou ao SOL um funcionário da ANA no Porto.

Também o sindicato que representa os inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) se queixa da falta de informação que se agravou depois do alerta feito pelo Colégio de Saúde Pública da Ordem dos Médicos, que num parecer refere existir alto risco de contágio no país e ser necessário dar formação ao pessoal que controla a entrada de passageiros. Perante isto, o pessoal do SEF pediu, entretanto, uma reunião aquele organismo da Ordem dos Médicos.

 “Estamos na primeira linha de contacto com muitos passageiros que chegam ao aeroporto e isso traz riscos elevados”, defende Acácio Pereira, dirigente do Sindicato da Carreira de Investigação e Fiscalização do SEF, considerando que continuam com dúvidas sobre como podem proteger-se da infecção: “Temos uma protecção mínima, um vidro com um buraco, mas podemos apanhar perdigotos e mexemos em documentos que podem ter sido transportados na boca”. 

Aumentar vigilância em terra

Já o pessoal de cabina, da TAP e de outras companhias aéreas, alerta para a necessidade de as autoridades apostarem na detecção de passageiros com sintomas em terra. “Perante casos suspeitos temos de isolar os passageiros. Mas como?”, questiona Rui Valle de Carvalho, presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil, alertando que é “muito difícil garantir o isolamento” por não existir a bordo um local para esse efeito, a não ser a casa de banho. A mesma opinião têm os pilotos. Segundo Jaime Prieto, presidente do sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, apesar de estes profissionais estarem protegidos no cockpit, consideram que uma “vigilância apertada em terra” pode evitar contágios das tripulações, que segundo orientações das companhias aéreas devem proteger-se com máscaras e luvas. 

A DGS garante estar a preparar novas medidas para os aeroportos. Ao SOL a subdirectora-geral da Saúde Graça Freitas adianta que “há um plano que está a ser revisto e prevê que as respostas sejam accionadas à medida que o cenário da doença se agrava”. A responsável admite que vai ser dada mais informação aos trabalhadores aeroportuários, mas desvaloriza o perigo para estes profissionais, considerando que “o risco está no contacto próximo com pessoas com sintomas”, e os profissionais de saúde são os trabalhadores mais expostos.

joana.f.costa@sol.pt