Internacional

Alta tensão entre Londres e Berlim

"David Cameron e o Partido Conservador põem sempre os interesses britânicos em primeiro lugar" disse esta manhã à BBC George Osborne, o ministro das Finanças inglês. Esta foi a resposta de Londres às notícias vindas de Berlim, de que Angela Merkel perdeu a paciência face às exigências reformistas do Governo conservador do Reino Unido e no último Conselho Europeu terá avisado Cameron que desistirá de lutar pela permanência de Londres na União Europeia caso este insista em limitar a livre circulação de pessoas na região. 

A notícia foi avançada no fim-de-semana pela Der Spiegel, que cita fontes do gabinete de Merkel e do Ministério dos Negócios Estrangeiros para relatar a conversa bilateral que os dois líderes tiveram em Bruxelas, à margem do último Conselho Europeu: “Caso Cameron insista com o seu plano, a chanceler Angela Merkel deixará de se empenhar em manter o Reino Unido na UE”.

Também esta manhã, o porta-voz da Chanceler não veio deitar água na fervura da polémica, muito pelo contrário. "Esta não é uma questão entre a Alemanha e o Reino Unido, mas entre o Reino Unido e todos os seus parceiros europeus". 

David Cameron, que já prometeu para 2017 um referendo à filiação europeia do país caso o seu Partido Conservador vença as legislativas do próximo ano, fará um discurso sobre a imigração até ao Natal mas já por diversas vezes deixou claro que o tema “estará bem no centro da estratégia de renegociação com a Europa”.

Esta manhã George Osborne confirmou que o fenómeno apelidado de ‘turismo social’ – a imigração de comunitários desempregados para países onde a ajuda estatal é superior – tem criado “grande insatisfação” na sociedade britânica. Mas apesar de considerar “especulativa” a história da Der Spiegel, Osborne deixou garantias de que o Reino Unido partirá para a renegociação do estatuto com Bruxelas de uma “forma calma e racional”.

E para que não ficassem dúvidas sobre a posição do seu Governo, reiterou que os conservadores agirão "sempre de acordo com os interesses do país e da sua  economia".

Na conversa que terá mantido com Cameron na semana passada, Merkel terá dito que uma insistência britânica sobre a livre circulação de pessoas será “o ponto de não retorno” na questão da permanência do país na UE. 

A radicalização do discurso de Cameron sobre o tema é atribuída ao crescimento do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP nas siglas originais), que com o seu forte discurso anti-Europa e anti-imigração já venceu as últimas eleições europeias e ameaça roubar votos à direita nas próximas legislativas.

Defensor da permanência do Reino Unido na UE, Cameron enfrenta a pressão de vários dirigentes do seu partido que partilham o eurocepticismo do UKIP e temem perder os seus cargos nas urnas

O debate interno mantém-se intenso, apesar de já ter ultrapassado há muito as fronteiras da Grã-Bretanha: “Se é para termos um mercado único, se queremos competir com norte-americanos e chineses, tem de haver livre circulação de trabalhadores”, defendeu o deputado conservador e antigo ministro da Justiça Kenneth Clarke em declarações feitas à BBC no domingo.

A recente escolha de Jean-Claude Juncker para presidente da Comissão foi outro momento de tensão entre os britânicos e a maioria dos países da UE: o Reino-Unido votou contra o novo presidente da Comissão, apenas suportado pela Hungria. "Cameron destrói alianças, em vez de as construir" foi, na altura, o comentário do líder Trabalhista, Ed Miliband.

nuno.e.lima@sol.pt