Desporto

Sara Moreira: uma estreia a abrir na maratona

Soube que estava grávida em Março de 2013 e manteve uma actividade física mínima – bicicleta, natação e caminhadas – até ao fim da gravidez, mas aos seis meses de gestação deixou de correr a conselho médico. Desde a notícia mais desejada que já havia reduzido de dois para um treino diário, em ritmo moderado.   

Esteve quatro meses sem calçar os ténis de corrida para se tornar mãe de primeira viagem, a 1 de Novembro do ano passado, e ao voltar, depois de ter engordado 13 quilos, enfrentou pequenas lesões que a condicionaram. Não foi a tempo de arrecadar uma medalha no Campeonato da Europa realizado em Agosto passado – quinta nos 10.000 metros e sexta nos 5.000m.

Sara Moreira vivia esta pequena desilusão na carreira quando aceitou o convite para a maratona de Nova Iorque, uma das mais prestigiadas. Aos 29 anos parecia cedo para atacar a maior distância do atletismo, que consagrou Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos de 1984 e Rosa Mota nos de 1988.

“Eu era daquelas que dizia para as minhas colegas: ‘Maratona, eu? Nem pensar! Meu Deus, tantos quilómetros!”, conta ao SOL a atleta de Roriz, concelho de Santo Tirso, que no domingo fez história ao ser terceira classificada na cidade que nunca dorme, onde só ganham as melhores do mundo.

Ao completar os 42 quilómetros de prova em 2h26m00s, só atrás das quenianas Mary Keitany e Jemima Sumgong, Sara Moreira realizou o segundo melhor tempo de sempre de uma portuguesa em estreia absoluta na maratona. Só Jessica Augusto fez melhor à primeira tentativa, quando em 2011 gastou 2h24m32s em Londres.

Mas o percurso inglês é bem mais rápido e propício a grandes marcas do que o norte-americano. “Em Nova Iorque não há zonas totalmente planas. Ou estamos a subir ou a descer”, observa Sara, adiantando que os organizadores lhe disseram que, não fosse o vento ter soprado quase sempre desfavorável ao sentido da corrida, poderia ter acabado com um registo na casa das duas horas e 23 minutos.

A portuguesa diz querer acreditar que tivesse sido assim, mas não esconde a surpresa. Isto porque o recorde nacional, na posse de Rosa Mota há 29 anos, situa-se nas 2h23m29s (Chicago, 1985). 

“Também podia ter corrido num percurso mais fácil e com vento favorável e não ter tido um dia tão bom. Tenho de fazer pelo menos outra maratona, provavelmente em 2015, para perceber se isto é uma qualidade inata ou se esta correu bem e a próxima poderá não correr”, comenta, com as dúvidas de alguém que pode ter descoberto uma nova vocação e está desejoso de a confirmar.

Durante a corrida de Nova Iorque, para a qual só teve dois meses de preparação específica e “com cargas suaves” para não forçar logo na estreia, Sara não sentiu dores. Só ansiedade e frio. “Nunca tirei as luvas e fizeram-me muito jeito. Aos 15 ou 20 quilómetros ainda ia com as mãos frias”, conta, antes de descrever a fase mais difícil, quando se isolou no terceiro lugar à passagem dos 36 km: “Pensei que não ia conseguir o pódio e aí tive de me mentalizar: ‘Calma, Sara, tu estás bem, se estás cansada as outras também estão”.

Teste aos limites

Adoptou a estratégia de contar de cinco em cinco quilómetros para não se assustar com os 42 que tinha de percorrer – “O meu medo era perceber o que é que eu ia fazer durante tantos quilómetros” –, deu por si a pensar no filho Guilherme, que na véspera tinha completado um ano, e distraiu-se com as pessoas à volta. “Sara go, Sara go” – ouviu várias vezes. Um dia em cheio, com direito a descrição completa no diário pessoal, para mais tarde recordar. 

De tal forma que a campeã europeia dos 3.000 metros em pista coberta admite que este resultado “vai alterar completamente” os seus planos, que passavam pela aposta nos 10.000 metros nos Jogos Olímpicos de 2016. No Mundial do próximo ano é certo que vai alinhar nessa distância, mas para os Jogos do Rio só vai decidir após correr outra maratona.

“É uma distância mítica e com o passar dos anos uma pessoa começa a fazer distâncias cada vez maiores e a querer testar os limites. A minha primeira correu bem e agora vamos ver o que vai dar”, sublinha. 

Enquanto não tira-teimas, Sara assume o desafio de lutar pela Taça dos Campeões Europeus na próxima época, ao serviço do Sporting, clube com o qual se comprometeu recentemente. Recebeu uma proposta do Benfica, mas diz ter optado pelo emblema de Alvalade pelo aliciante de poder juntar o seu nome a outras “grandes referências” do atletismo. “Quero ser mais uma”.

rui.antunes@sol.pt