Internacional

Campaoré já era, transição a caminho

Com o Parlamento em chamas, familiares atacados e uma estátua sua derrubada na capital Uagadugu – foi assim que chegou ao fim o reinado de 27 anos de Blaise Compaoré no Burquina Faso, a primeira vítima subsariana de uma revolução popular inspirada nas manifestações que há três anos sacudiram o Norte do continente.


O antigo militar, que chegou à presidência através de um golpe de Estado em 1987, preparava-se para prolongar indefinidamente a sua hegemonia através de uma lei que abolia o limite de dois mandatos presidenciais, em vigor desde 2005.

Campaoré ainda tentou acalmar a população, ao prometer adiar a votação sobre o tema. Mas a resposta dos burquinenses foi clara: na quinta-feira, dia 30, passaram as barreiras policiais que defendiam o Parlamento e deixaram parte do edifício em chamas antes de invadirem as instalações das estações públicas de rádio e TV. Horas depois, após ataques a residências de familiares e colaboradores próximos, Compaoré abandonou o poder e refugiou-se na vizinha Costa do Marfim.

Num Estado empobrecido, onde 60% dos 17 milhões de habitantes não conheceram outro Presidente além de Campaoré, o Exército impôs de imediato o recolher obrigatório e assumiu a liderança do Governo para “evitar a anarquia”.

Palavras do coronel Isaac Zida, antigo número 2 do regimento de segurança presidencial, que assumiu a liderança do Governo provisório. “Não estamos aqui para ficar no poder mas sim para ajudar o país a sair desta situação”, garantiu Zida na segunda-feira, já depois de o Exército ter usado a força para acabar com a ocupação dos meios de comunicação estatais. Um manifestante foi morto no domingo mas a oposição diz que a revolução fez mais de 30 mortos numa semana.

A mesma oposição – um grupo de 34 grupos políticos e civis – lembra que “a vitória da revolta popular pertence ao povo e como tal o Governo de transição pertence-lhe legitimamente e não pode ser confiscado pelos militares”. Opinião idêntica têm as organizações internacionais que monitorizam a situação: o representante da ONU para a África Ocidental, Mohamed Ibn Chambas, disse querer “evitar impôr sanções ao Burquina Faso” mas lembra que um regime militar terá “consequências muito claras”; o Conselho de Segurança e Paz da União Africana exigiu “a devolução do poder às autoridades civis” e impõs “um prazo de duas semanas para a transferência de poder”.

Com a mediação dos Presidentes do Gana, Nigéria e Senegal, exército e oposição civil chegaram a acordo para a “formação de um Governo provisório”, que deverá “organizar eleições presidenciais e legislativas em Novembro de 2015”. O único ponto onde não houve consenso foi sobre a figura civil que liderará esse Governo, dizendo o comunicado que este deve ser “designado urgentemente”.

nuno.e.lima@sol.pt