Internacional

Um quarto de século depois, nasce um novo muro entre a Europa e a Rússia

“O mundo está à beira de uma nova Guerra Fria, alguns dizem que ela já começou”, afirmou este sábado em Berlim Mikhail Gorbachov, antigo líder da União Soviética que assistiu no Kremlin ao fim do conflito. A referência tinha como alvo as tensas relações entre Moscovo e as potências ocidentais em torno da Ucrânia, mas no terreno também já se vêem semelhanças.  

Duas linhas de defesa foram planeadas, com o objectivo principal de prevenir a infiltração do adversário em território ucraniano EPA/ALEXANDER ERMOCHENKO

As obras do “Projecto Muro” começaram em Setembro, por ordem do Petro Porochenko, Presidente da Ucrânia. “Duas linhas de defesa foram planeadas, com o objectivo principal de prevenir a infiltração do adversário em território ucraniano”, anunciava o comunicado do grupo antiterrorista do Exército, expondo pela enésima vez a cumplicidade entre o Governo russo e os movimentos separatistas de Lugansk e Donetsk, originados após a revolução popular em Kiev que derrubou o ex-Presidente e pró-moscovita, Viktor Ianukovich.

Para já, os trabalhos iniciaram-se na região de Carcóvia, junto à fronteira com a Rússia mas afastada do epicentro da violência que tem reinado nas zonas separatistas. Ainda segundo o comunicado, os planos iniciais incluem a construção de “um muro de 60 quilómetros, milhares de quilómetros de valas para soldados, veículos de combate e linhas de comunicação e quatro mil trincheiras para soldados”.

O texto não expõe o objectivo de fortificar os 2.295 quilómetros de fronteira que o país tem com a Rússia, que o Kiev Post diz nunca terem sido demarcados, mas a nova liderança política de Kiev, cuja principal promessa é a de reformar o país para o aproximar da União Europeia, não faz questão de o esconder. “Ninguém nos dará um regime de livre circulação se não houver fronteira com a Rússia”, defende o primeiro-ministro Arseni Iatseniuk, para quem o novo muro prova que a Ucrânia e a Rússia “não são uma Nação, com diz Putin e pensa o Kremlin”.

Iatseniuk adianta que Bruxelas já prometeu apoiar o projecto, avaliado em mais de 60 milhões de euros, com 14 milhões, segundo o Kiev Post. O norte-americano DailyBeast diz que o antigo pugilista Vitali Klitsckho, eleito autarca de Kiev depois de se ter tornado um herói da revolução, apelou à angariação de fundos num evento recente em Berlim, um “pedido pouco habitual que levantou alguns sobrolhos”.

nuno.e.lima@sol.pt