Opiniao

Revolução no petróleo e no gás

Com a fiscalidade verde a gasolina e o gasóleo subirão em Portugal alguns cêntimos por litro. Uma desgraça? Não exageremos. Se é preciso reduzir as emissões de CO2, os combustíveis terão de encarecer. Por outro lado, mas em sentido contrário, cai o preço do petróleo bruto e, em menor escala, o do gás natural. O barril de crude anda hoje pelos 85 dólares, depois de ter chegado aos 145 em 2008. E a Goldman Sachs prevê que em 2015 o barril baixe para cerca de 70 dólares, apesar da instabilidade no Iraque, na Líbia, na Ucrânia, etc.

Para nós, a descida do câmbio do euro face ao dólar trava um pouco o embaratecimento do petróleo, que é transaccionado em dólares. Um pequeno inconveniente numa descida do euro que, em termos globais, é benéfica para a economia portuguesa. Mas nem a fiscalidade verde nem o câmbio do euro devem encobrir algo mais importante: a revolução em curso no mercado petrolífero mundial.

 Graças ao investimento nas energias renováveis (eólicas, nomeadamente) Portugal está hoje menos dependente do petróleo, todo ele importado, assim como o gás natural. Mas essa dependência é ainda grande, pelo que a descida do custo do crude terá enorme e positiva influência na nossa economia, em particular nas contas externas.

O petróleo desce de preço por um mau motivo, o abrandamento da economia mundial. A actual procura de petróleo no mercado está ao nível mais baixo desde 2009. Também existe um motivo positivo, embora menos importante, para a retracção da procura: melhorou a eficácia na utilização de energia; por exemplo, um automóvel gasta agora, em média, menos 25% de combustível do que gastava há dez anos.

Mas a principal razão da queda do preço do crude é o que se passa nos Estados Unidos. Graças ao aperfeiçoamento das técnicas de fracking (extracção de petróleo e gás fracturando rochas de xisto) os EUA aumentaram 40% a sua produção nos últimos sete anos. Em 2013 produziram mais petróleo do que a Arábia Saudita, prevendo-se que deixem em breve de o importar.

O fracking tem riscos ecológicos, como contaminar lençóis subterrâneos de água com produtos químicos. Por isso alguns Estados americanos proíbem-no, o mesmo acontecendo com a França. Mas é possível que o desenvolvimento da técnica reduza esses riscos.

De qualquer forma, está em curso uma mudança de fundo no mercado de gás e petróleo, com importantes repercussões geopolíticas. Para certos países produtores o actual nível de preços é demasiado baixo para compensar a extracção petrolífera. É o caso da Venezuela, do Irão, da Nigéria e, a médio prazo, da Rússia.

A própria OPEP, que impôs os 'choques petrolíferos' de 1973 e 1979, poderá fragmentar-se. Só a Arábia Saudita, que recusa baixar a sua produção e até desceu preços para alguns compradores, consegue aguentar anos com o barril abaixo dos 85 dólares, graças às reservas de que dispõe.

Os beneficiários desta revolução são, naturalmente, os países consumidores, como Portugal. Mas evitem-se optimismos ilusórios. O fracking nos EUA só dá lucro com o barril a pelo menos 70 dólares. Se descer abaixo disso a produção americana sofrerá um recuo. Como acontecerá nos países produtores e nas zonas onde a extracção é mais cara. Nessa altura, o petróleo e o gás voltarão a encarecer. O mercado funciona e os preços evoluem, não são fixos.