Sociedade

Escuteiros negam encobrimento de abusos sexuais

O Corpo Nacional de Escutas (CNE) veio hoje negar que tenha escondido dos pais dos escuteiros que frequentam o Agrupamento de Belém os abusos sexuais de que foi acusado um dos seus dirigentes. João Martins, de 31 anos, foi detido pela Polícia Judiciária em Setembro, numa operação internacional contra a pornografia infantil coordenada pela Europol, por ter no seu computador milhares de imagens pornográficas de crianças, entre as quais meninas com idades entre os quatro e os 10 anos. O alegado abusador sexual acabou por se suicidar na prisão da PJ, no dia 20 de Outubro.

Em comunicado, o movimento escutista admite a possibilidade de existirem casos de abusos entre as crianças que frequentam o grupo que era dirigido por João Martins. Mas sublinha que, “até ao momento a Polícia Judiciária nunca confirmou a existência de vítimas entre os nossos associados”. Entre o material apreendido, também não estarão imagens das crianças com quem o dirigente lidava no agrupamento há já vários anos. João Martins estava preso preventivamente por ser suspeito de praticar abusos sexuais e de participar na difusão de pornografia infantil na internet. No seu computador, terão sido encontrados ficheiros em que o próprio surgia a abusar de menores.

O CNE desmente ainda as informações veiculadas hoje pelo Correio da Manhã, segundo o qual a organização escutista tinha escondido dos pais a situação. Apesar de ter tido conhecimento da situação alguns dias após a detenção do suspeito, os pais só foram oficialmente informados durante este fim-de-semana, numa reunião com as chefias escutistas. Nesse encontro, foram disponibilizados os contactos das autoridades policiais e os pais foram aconselhados a dirigir à Polícia Judiciária todas as dúvidas e informações que considerassem pertinentes.

PJ terá dito que comunicação aos pais perturbaria a investigação

“No próprio dia em que teve conhecimento da detenção do suspeito, a chefia do Corpo Nacional de Escutas entrou em contacto com a Polícia Judiciária, expressando a total disponibilidade do CNE e dos seus responsáveis para colaborar com as autoridades competentes em tudo o que fosse necessário para o esclarecimento da verdade”, afirma o CNE em comunicado. 

Na sequência deste contacto, prosseguem os escuteiros, “a Polícia Judiciária proibiu de forma peremptória a emissão de qualquer tipo de declaração ou informação sobre este assunto, alegando que seriam as próprias autoridades a estabelecer contactos com terceiros, fossem eles vítimas, famílias, comunicação social ou outros.” Os dirigentes escutistas acrescentam que pediram com insistência à PJ para reunir com os pais dos elementos, que entretanto foram sabendo algumas informações, mas a Polícia terá dito que tal diligência “poderia colocar em causa a investigação no seu todo e afectar as vítimas”.

Segundo apurou o SOL, a notícia apanhou de surpresa todos os elementos do agrupamento, que há vários anos conviviam com João Martins, considerado por todos como acima de qualquer suspeita. O rapaz de 31 anos terá desaparecido repentinamente de casa sem que os seus familiares e amigos mais próximos tenham percebido porquê. Só depois de contactarem as autoridades policiais perceberam que João Martins estava preso preventivamente.

O dirigente escutista trabalhava há vários anos com crianças, e não apenas no âmbito do escutismo. Era também monitor de campos de férias da Associação de Protecção à Infância da Ajuda, e responsável por actividades extracurriculares em escolas do ensino básico da zona. Era visto como uma pessoa agradável, extrovertida e com quem as crianças tinham uma forte ligação de confiança.

Igreja reitera confiança no CNE mas diz que “não se pode fechar os olhos” a casos como este

Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, disse hoje que mantém a confiança nos dirigentes do Corpo Nacional de Escutas, movimento de jovens que está ligado à Igreja Católica. Confrontado pelos jornalistas com as notícias sobre este caso, o responsável disse ainda que “não se pode fechar os olhos” a casos como estes.

“Tenho inteira confiança no CNE e na sua Junta Central [órgão executivo responsável pela gestão da associação]. Se há movimento que acompanhe os seus adultos, que tenha política de formação bem organizada, é o escutismo católico, e eu sei isto até por experiência própria. Posso garantir-vos isso, e tenho confiança que o CNE é uma realidade com a qual a sociedade portuguesa pode contar”, defendeu o também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

rita.carvalho@sol.pt