Cultura

Paulo Gonzo: ‘Fico mais nervoso em salas muito pequenas’

Há um ano lançou Duetos. Agora Paulo Gonzo sobe ao palco para tocar o álbum ao vivo, acompanhado por todos os músicos que nele participam. Ana Carolina, Anselmo Ralph, Fafá de Belém, Tito Paris, Matias Damásio, Jorge Palma ou Mario Biondi são apenas alguns dos nomes. A 14, no Meo Arena, em Lisboa, e a 15, no Multiusos de Guimarães.

Paulo Gonzo faz-se acompanhar de uma dezena de músicos nos seus próximos espectáculos Miguel Silva

Vai ter agora dois grandes concertos: a 14 sobe ao palco do Meo Arena, a 15 ao do Multiusos de Guimarães. E em ambos faz-se acompanhar dos artistas que cantam consigo no seu álbum Duetos. Como surgiu a ideia para estes espectáculos? 

Estava em tournée – que ainda continuo –, quando a ideia surgiu, penso que em Julho. Foi um convite repentino. Hesitei um pouco, esperei um dia, reflecti, e disse que sim, pensando que ia ser um espectáculo único e irrepetível. O balanço relativamente ao disco era positivo, estava, e está, a vender, e nos espectáculos ao vivo ia tocando alguns temas do Duetos e o resultado era óptimo. É um álbum de sucesso, as pessoas gostam muito dele.

Vêm músicos de vários países para subir ao palco consigo: Ana Carolina do Brasil, Carlos Rivera do México, Tito Paris de Cabo Verde, Mario Biondi de Itália... A logística não pode ser fácil. 

É enorme. É um espectáculo especial, com muito trabalho pelo meio. Mas só o faria se viessem todos os intérpretes. Ou o faria com todos ou não o faria. O que faz com que a responsabilidade seja acrescida. A logística teve que começar logo com os convites e a garantia de que poderiam cá estar todos nesta data. As pessoas têm a sua vida, os seus espectáculos, os seus afazeres. Vêm todos de países diferentes: Brasil, Angola, Itália, Cabo Verde, Espanha, Inglaterra, México. Felizmente foi confirmada por todos a sua presença. O que me deixou muito agradado, mas com mais responsabilidades. Há um plano de ensaios rigoroso. Quero que tudo corra musicalmente muito bem. É engraçado porque vêm de culturas diferentes, com músicas diferentes, sons diferentes, vozes diferentes. É um grande desafio que me deixa ansioso. 

Com quem já tocou ao vivo e com quem será uma estreia? 

Já toquei com a India Martinez, o Tito Paris, o Anselmo Ralph, o Matias Damásio, a Fafá, a Ana Carolina, o Jorge Palma… Só me falta a Tammy Payne, o Mario Biondi e o Carlos Rivera. Quero tentar, mesmo num espaço grande, até porque o espectáculo é sentado, fazer daquilo uma festa minha, privada, para a qual convido uns amigos, como se os fosse apresentar à minha família em Portugal.

Encara estes músicos como seus amigos?

Sim. Cada caso é um caso, e cada tema é um êxito. Há uma responsabilidade acrescida para que eles se sintam à vontade musicalmente comigo, com a minha banda, com os arranjos que fiz. O que me faz tremer um pouco.

No álbum gravou com todos ao vivo ou há estreias a cantar em conjunto?

Há estreias. Com a Fafá, o Anselmo, o Jorge Palma e o Tito Paris gravámos em Lisboa. Com a India Martinez em Madrid. Para a Ana Carolina fiz os arranjos cá, mas com a internet estamos à distância de um clique. Com o Mário Biondi foi fantástico, escolhi o tema, dei-lhe opções, e perguntei-lhe como dividir as partes em que eu e ele íamos cantar…. Resultou muito bem. Com o Rivera foi também ao longe, mas sempre em contacto permanente. 

São muitos músicos e estilos diferentes. O que une tudo isto?

Há um elemento que está no meio e que sou eu, uma espécie de cordão umbilical entre todos eles. Era esse o desafio quando gravei este disco de duetos tão díspares. Queria ver até onde podia ir. Creio que não me saí mal. No espectáculo vou intercalar músicas minhas com músicas deles, preparar a cama para cada um. 

O Meo Arena é a maior sala do país. Já lá tocou?

Já, várias vezes, mas não sozinho. A sala multiusos, que já fiz com a Ana Carolina, é mais acolhedora, leva menos gente. Estou em crer que vai estar cheia. No Arena a sala é mais ampla. Mas desenhei com os meus engenheiros um palco muito cosy. Arranjei uma maneira de pôr as pessoas à vontade desde o princípio. Mas estou com os nervos à flor da pele. 

Ainda fica nervoso por subir ao palco?

Fica-se sempre. Há uma ansiedade natural quando se vai estar em frente a uns milhares de pessoas que pagam bilhete para nos ouvir. É uma grande responsabilidade. Mas assim que piso o palco é irreversível. Antes disso, há ali uns dez minutos em que fico com uma espécie de black out, em que podem falar comigo que não oiço nada. A partir da primeira música tudo passa. 

Também dá concertos em salas pequenas. São registos muito diferentes?

Dou e adoro. São diferentes mas a responsabilidade é a mesma. Aliás, fico mais nervoso em salas muito pequenas. A pedido da Santa Casa da Misericórdia ando, há dois anos, a fazer os Centros de Dia. Fiz um há oito dias, tenho outro em Dezembro, que será o último deste ano. Aí toco para um público que não tem nada que ver com o meu, mas que é muito exigente. Estou perante um público com mais sabedoria e experiência que eu. A menina mais nova tem uns 80 anos. Tenho que fazer um esforço enorme e ter jogo de cintura. Mas saio de lá sempre muito gratificado, canto blues e tudo. É um horário em que não estou habituado a cantar, entre o almoço e o lanche. Dão-me beijinhos e prendinhas, corre sempre tudo muito bem. Tem que se ter sentido de humor e gostar de pessoas. Há uns meses apanhei, num centro de dia em Campolide, um casal que se tinha casado dois meses antes. Tinham 80 anos. Toquei a marcha nupcial e tudo. 

Num mesmo mês pode dar um concerto no Meo Arena, num centro de dia e num bar. Prefere algum destes registos? 

Não, gosto de tudo. Sou muito bipolar. Tenho um humor muito apurado e é isso que me faz viver. Basta ter jogo de cintura e gostar do que se faz. Gosto de música e gosto de pessoas. Num multiusos sei o que vai acontecer, tenho tudo programado, as pessoas estão sentadas, pagam bilhete e vão ali. Num centro de dia estou sem rede. Assim como tocando no bar Funky uma noite de blues. Vamo-nos adaptando. 

Já tem um novo álbum pensado?

Ainda não. Normalmente faço as coisas sob pressão. Há uns meses que a Sony me falou de um novo disco de originais, mas ainda estava a meio da minha tour e a preparar estes concertos. E também já me perguntaram por um novo disco de duetos. Ainda não sei. Está tudo em cima da mesa. Agora a minha preocupação, de noite e de dia, é este espectáculo.

rita.s.freire@sol.pt