Opiniao

Miguel Macedo: um Ministro talentoso que merecia outra sorte!

1.    Já escrevemos aqui no SOL e noutro lugar que consideramos Miguel Macedo um político de elevada qualidade. Sensato, prudente, cordial – mas, ao mesmo tempo, com criatividade para procurar soluções para os mais diversos (e complexos) problemas, com inteligência prática e tacto político. Para além de ter uma experiência acumulada e um conhecimento da vida política e partidária portuguesa muito importante – e bastante útil para contribuir para o nosso bem colectivo. É, pois, com muita pena que soubemos ontem que Miguel Macedo, após uma reflexão pessoal e não obstante a insistência em contrário de Pedro Passos Coelho, anunciou a sua demissão. 

2.    Mais uma vez, Migue Macedo revelou o seu enorme sentido de Estado, a sua nobreza de carácter, a sua honestidade à prova de bala – enfim, revelou que é um patriota: coloca os interesses da Nação acima dos seus interesses pessoais. Mas seria a saída de Miguel Macedo inevitável? 

3.    Num mundo perfeito, e sem distorções, a saída de Miguel Macedo não seria um imperativo de ordem política. Porquê? Por uma razão muito simples: não há qualquer ligação objectiva entre os factos objecto de investigação (no âmbito de suspeitas de prática de ilícitos criminais relacionados com a concessão de vistos gold) e o exercício de funções, públicas ou privadas, por Miguel Macedo. Dir-se-á: alguns dos suspeitos são amigos pessoais de Miguel Macedo. E depois? Cada um de nós é responsável pelos actos praticados pelos nossos amigos? Imagine o leitor que amanhã um amigo seu é condenado, por exemplo, pela prática do crime de fraude fiscal. O leitor também responderá pelo crime, apenas e só pela circunstância de ser amigo do condenado? Claro que não! 

4.    Nem tão pouco o ter uma sociedade, cujo objecto social não tinha nada que ver com os vistos gold, com um parente de um dos suspeitos é um indício de responsabilidade criminal! O ter uma parceria, em determinado momento histórico com alguém não significa que haja uma homologia absoluta de destinos e percursos de vida. Miguel Macedo foi para Ministro – a sua ex-sócia seguiu a sua vida. E quanto ao director do SEF? O director do SEF não foi escolhido por Miguel Macedo – foi escolhido por António Costa, em 2005!

5.    Note-se que António Costa não criticou o Governo pelo escândalo relacionado com os vistos gold, não colocou sequer em causa o mérito da medida legislativa que foi a criação de um privilégio para aqueles que escolherem Portugal como destino dos seus investimentos – muito menos levantou suspeitas sobre a idoneidade ou a honestidade de Miguel Macedo. Logo, António Costa sabia – e sabe – que o interesse superior de Portugal imporia a manutenção de Miguel Macedo como Ministro da Administração Interna. 

6.    Isto dito, temos que convir que não vivemos num mundo ideal. Ora, Miguel Macedo ficou, política e objectivamente, fragilizado quando alguns jornais fizeram correr a notícia de que Miguel Macedo tinha sido detido. O que não deixa de ser um facto deveras bizarro: então alguma comunicação social faz correr, com tamanha leviandade, que um Ministro do Governo de Portugal tinha sido detido pelas autoridades policiais para interrogatório? Quem fez correr esta notícia? E os jornalistas – que costumam ser bastante sérios e credíveis no seu trabalho – não consideraram relevante confirmar a veracidade desta notícia? E assim se destruiu um Ministro. Um bom Ministro. 

7.    Por último, convém realçar que Miguel Macedo marcou uma diferença muito importante entre o PSD e o PS. Se fosse o PS – por exemplo, um Ministro de José Sócrates ou o próprio José Sócrates - , o Ministro ficaria, permaneceria ainda com mais poderes – e começaria já ao ataque aos comentadores, aos jornais, às polícias, aos juízes. Este caso mais não seria do que uma cabala urdida contra pelas magistraturas e os polícias. 

8.    Já o PSD, aceita o princípio da separação de poderes e assume, sem complexos, o combate à corrupção. E Miguel Macedo prefere não ser um factor de ruído ou de permanente distracção , em período político tão importante para Portugal. Os portugueses ficam a saber que, afinal, o PSD é mesmo muito diferente do PS. Os portugueses sabem que no PSD podem confiar – já no PS…enfim, sabem que quem bate no PS, leva.

joaolemosesteves@sol.pt