Vida

Um gestor das arábias

Gerir projectos no valor de 2.000 milhões de dólares não é brincadeira e, nos dias que correm, o mais provável é que estes investimentos faraónicos nasçam em geografias distantes. Foi o desafio de pôr de pé o maior centro comercial do Qatar e o primeiro outlet do país que levou o português Pedro Ribeiro, de 38 anos, à capital Doha. O gestor considera-se um “self-made man português”, que “nunca disse que não a um desafio” e que é “o primeiro a entrar e o último a sair”.

“Tive a sorte de ter as oportunidades certas nas alturas certas e tenho hoje em dia responsabilidades que colegas de profissão só costumam atingir numa fase mais avançada da idade, para aí aos 55 anos. Tenho de agradecer à minha mulher [Carla Ascenção, jornalista do Porto Canal] por me ter proporcionado as condições para abraçar estes desafios e ter tido a capacidade de trabalhar o dobro para conseguir impor-me”, explica ao SOL. Pedro Ribeiro abraçou os projectos no Qatar em Agosto de 2013, depois de abandonar o cargo de director-geral do Fórum Viseu e após um processo de selecção de quase meio ano, que envolveu sete entrevistas via Skype e três pessoais. “Acabei por receber oficialmente uma proposta que não tinha como recusar”, confessa.
Foi uma empresa de executive search (selecção de profissionais de topo), contratada pela dona dos projectos, a maior construtora do Qatar, que o escolheu: apesar de ainda jovem, já tinha no currículo um prémio do International Council of Shopping Centers (a maior associação empresarial mundial na área) e vasta experiência. Por isso, ter 32 directores a reportar directamente não lhe pôs um grande peso sobre os ombros, mesmo que nem tudo seja “um mar de rosas”: “É uma questão de organização, dividir responsabilidades e incentivar uma vasta equipa que partilha comigo cerca de 12 horas por dia”.

Sem férias aos 16 anos

A carreira de Pedro Ribeiro começou numa loja  Levi Strauss em Coimbra, onde os pais - com quem residia na Figueira da Foz - iam fazer compras. Em meados dos anos 1990, tratava-se do “centro da moda em Coimbra” e Pedro já costumava trabalhar nessa loja durante as pausas escolares. Aos 16 anos, surgiu o convite, meio a brincar. “Disseram-me: 'Em vez de ires de férias amanhã, devias era vir ajudar-nos'. Nunca irei esquecer estas palavras e serei eternamente agradecido a quem as proferiu”, recorda. No dia seguinte lá estava e os pais seguiram para férias.

Dois anos depois, foi tomar conta da loja da Levi's no Porto - “abracei o desafio como se da minha sobrevivência se tratasse” - e, já em 2003, ergueu o departamento comercial da Troficolor (que produzia então jeans para marcas como a Salsa e Tiffosi). Em Janeiro de 2005 iniciou a verdadeira ascensão no mundo dos centros comerciais, como director-geral adjunto e director de marketing do The Style Outlets, em Vila do Conde, que em 2006 foi considerado o melhor outlet da Europa. “Ascensão é a palavra certa. Aliás, muito sinceramente acho que define o meu trajecto, sem querer parecer imodesto. Tenho de agradecer a muita gente, mas o trabalho em Vila do Conde marcou a minha carreira”. Este ritmo frenético apenas lhe permitiu finalizar o bacharelato em Gestão de Marketing em 2007 e, para tal, houve um período em que “apenas dormia seis horas por dia”. Agora, frequenta um MBA numa universidade nos Estados Unidos, que o obriga a estar online vários dias por mês. “Não tive nada de mão beijada, apenas agradeci a confiança das empresas em mim, com muita dedicação e esforço”, sublinha. 

Tendo em conta o sucesso em Vila do Conde, foi abordado para encabeçar um projecto dentro do mesmo formato em Espanha (o Outletui, na Galiza). Depois de um ano no grupo E.Leclerc e três no Fórum Viseu, chegou então o duplo desafio no Médio Oriente, em que a estrela é o Mall of Qatar, em Doha, que vai incluir cerca de 420 lojas, quatro department stores, um hotel de cinco estrelas, um estádio destinado ao Mundial de futebol de 2022 (o Education City Stadium, com cerca de 45.000 lugares), dois parques temáticos e um biodomo (uma espécie de oceanário de fauna e flora). “Nem temos estes padrões na Europa! Será o maior no Qatar”, garante. Entretanto, já recusou propostas da “Rússia, Cazaquistão, Egipto e Dubai”.

Saudades de Portugal

Pedro Ribeiro confessa que a adaptação ao Qatar “não existe”; há apenas respeito por uma cultura com muitas “limitações de movimentos e liberdades”. “Ainda é um país muito fechado, com convicções e formas de estar que nós, europeus, consideramos completamente ultrapassadas”, descreve. O Campeonato do Mundo de futebol de 2022 poderá contribuir para uma mudança de mentalidades, dado que há zonas “que estão a ser completamente construídas de raiz” e que os responsáveis locais procuram combater a má reputação do país em “questões dos direitos humanos”: a principal fonte de legislação é a sharia (lei islâmica) e, por isso, a flagelação e a lapidação (morte por apedrejamento) ainda são legais.

O ritmo nesta zona do globo é muito diferente do europeu e os projectos vão-se fazendo - “se não forem inaugurados num ano, serão no próximo”. Portugal ainda é relativamente desconhecido: “Confundem-nos com Espanha. Embora custe dizer isto, é a pura realidade. Apenas quando menciono que é o país do Cristiano Ronaldo é que associam. Contudo, a imagem que têm do profissional europeu é felizmente muito boa”. Além disso, Portugal tem “uma grande tradição” de pioneirismo na área dos centros comerciais, graças “a um senhor e a uma empresa”: Belmiro de Azevedo e a Sonae Sierra, à qual “as maiores potências mundiais” recrutam quadros.

Pedro Ribeiro não esconde as dificuldades de adaptação por que passou nos primeiros meses no Qatar - “chorei muito e muitas vezes” -, mas o “empenho e dedicação aos projectos” permitiram-lhe ter liberdade para viajar uma vez por mês para Portugal, momentos em que reúne família e amigos no Porto. “Não fazem ideia da sensação de ansiedade que tenho quando o avião faz a curva e começo a ver a cidade. Se vou a dormir acordo logo, nem sei descrever”. No entanto, o desejo de regressar está, actualmente, bloqueado: “As empresas em Portugal não têm por hábito reconhecer os portugueses que alcançam sucesso fora de portas. É uma pena. Recebo telefonemas dos Estados Unidos e de Inglaterra, de colegas de profissão ou do sector, a dar-me os parabéns e a quererem falar comigo. Sabe quantas pessoas me ligaram de Portugal? Nenhuma”.