Opiniao

O vinho das Ilhas de Bruma

“É que nas veias corre-me basalto negro/ No coração a ardência das caldeiras/ O mar imenso me enche a alma/ E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança”. Com letra e música de Manuel Medeiros Ferreira, ‘Ilhas de Bruma’ (1987) tem sido, um pouco por todo o mundo, um autêntico hino à açorianidade, contando um pouco da luta deste povo quase ‘perdido’ em pleno Atlântico Norte, a cerca de 1.500 km da costa ocidental do continente europeu e a 3.900 km dos EUA. A este ‘isolamento’, os Açores respondem com uma vontade férrea de vencer os naturais obstáculos que a sua composição geográfica, formada por nove ilhas de origem vulcânica, oferece. E vão mostrando ao mundo, o que conseguem fazer. E é muito.

Agora, e pelo sexto ano consecutivo, foi o evento Wine in Azores, realizado em São Miguel e organizado por Joaquim Coutinho Costa, da empresa Gorgeous Azores, que mostrou vinhos e sabores vindos não só da região como do continente, para uma ‘plateia’ com mais de 12.000 visitantes.

A minha maior curiosidade, admito, centrou-se nos célebres vinhos licorosos do Pico, onde se vai recuperando uma secular tradição com o típico Verdelho. Para conseguir que as plantas vingassem, o homem foi rasgando fendas na lava ardida e abrigou as vinhas dos efeitos do vento em pequenos espaços delimitados por muros de pedra solta. É este rendilhado que nos oferece uma paisagem única classificada como Património Mundial da Unesco. E é também daqui que saem licorosos como o Néctar dos Currais, da Curral Atlantis, que ficou em 2.º lugar no Concurso das Ilhas realizado nas Canárias, O Lajido (doce e seco), da Cooperativa Civipico, e o Czar, de Fortunato Garcia, para só nomear alguns.

Para a história fica a conquista destes licorosos pelo mundo fora, mas a sua grande coroa vem da importância que todos eles adquiriram entre os czares da Rússia.

Entretanto, os vinhos brancos vão também fazendo a sua aparição com algum êxito e prometo vir aqui falar sobre eles. Os vinhos dos Açores estão a ‘acordar’ devido à grande luta deste povo que, orgulhoso, continua a cantar: “Por isso é que eu sou das ilhas de bruma/ onde as gaivotas vão beijar a terra”.

jmoroso@netcabo.pt