Cultura

Miguel Guedes: 'Sou um músico que gosta muito de silêncio'

Em 1994, juntava-se com um grupo de amigos numa garagem no Porto e dali viria a sair Trigger, o primeiro álbum dos Blind Zero, que este ano celebram duas décadas. O vocalista, Miguel Guedes, nunca soube bem o que queria fazer na vida. A música esteve sempre presente, apesar de se ter formado em Direito - curso que agora usa na Gestão dos Direitos dos Artistas. Natural do Porto e apaixonado pelo clube azul e branco, desde 2010 que defende estas cores no programa Trio d'Ataque. 


Mais recentemente, abraçou outro desafio televisivo: o Factor X. Reservado e tímido, mas sem medo de assumir posições fracturantes, aos 42 anos Miguel Guedes continua a sentir-se em casa quando sobe ao palco. Tal como quando se atira de um avião em queda livre.

Os Blind Zero celebram, este ano, duas décadas. Além disso, desde 2010 que integra o programa Trio d'Ataque, na RTP Informação. Ainda assim, sente que foi necessário participar no Factor X, na SIC, para receber outro tipo de reacções do público?

A mega explosão dos Blind Zero, quando tinha menos de 20 anos, deu-me logo uma relação escorreita com as pessoas e com o que elas pensam. Mas claro que o Factor X tem uma transversalidade tão grande que me põe em contacto com gente surpreendente. De repente começaram a querer tirar selfies comigo.

E tem reparado que há gente que nem sabe quem são os Blind Zero?

Acho que a esmagadora maioria sabe, mas já me aconteceu ter pessoas a perguntarem há quanto tempo é que os Blind Zero não fazem nada. De alguma forma, o facto de, nos últimos tempos, eu estar mais ligado à área da defesa dos direitos dos artistas e ao comentário desportivo, criou um afastamento, mas que não foi real. Sempre estivemos a gravar discos: o último foi o 'Kill Drama' (2013) e antes disso tivemos o 'Luna Park' (2010). Foram dois discos com êxito, que tocaram bastante nas rádios.

Então porque acha que, na cabeça das pessoas, os Blind Zero andavam desaparecidos?

Há uma nova geração de bibliotecários e arquivadores de música. Este fantasma da gratuitidade da arte e o facto de a música ser facilmente transmissível, desconvoca as pessoas de quererem saber o que estão a ouvir. Às vezes sabem a letra de cor, mas nem sabem de quem é.

Também tem esse lado de arquivador? O que costuma ouvir?

Não consigo comunicar muito com música clássica que sempre me pareceu uma música de super homens. Mais facilmente comunico com uma guitarra acústica e uma voz. No meu leitor de CD toca muita coisa, sobretudo Nick Cave, The National, Bowie, Tom Waits, Suzanne Vega, Bruce Springsteen, Bob Dylan... E muita música nova, também. Não gosto muito de música divertida, da mesma forma que, no cinema, não gosto de comédias. A música tem de me tocar, tem de se aproximar da alma. Ligo-me mais à música um bocadinho depressiva. Da mesma forma que tenho mais facilidade em escrever sobre coisas tristes, do que sobre um dia de sol. Nunca consegui escrever uma canção sobre um dia de sol.

Há mais beleza na tristeza?

Há mais profundidade. Para a maioria dos artistas é mais excitante falar sobre o lado sombrio, sobre o lado desfeito. Não é que a felicidade não deixe marcas. Aliás, as marcas que queremos, são de felicidade. Mas não é sobre isso que me apetece escrever. Digamos que muitos artistas poderiam ter uma avença no psiquiatra. Mas não sou assim só na música, também sou no cinema.

Por norma, os filmes que mais marcam são dramas. Raramente nos lembramos de comédias.

Pois. Os filmes mais marcantes da minha vida são o 'Paris,Texas', 'As Asas do Desejo', o 'Blue Velvet'… Adoro o ambiente quase feérico do David Lynch. E gosto de filmes com silêncio, como os do Lars Von Trier. Detesto melodramas, que por norma acho over the top, mas 'Ondas de Paixão' está nos meus filmes favoritos de sempre, porque tem silêncio, porque respira…

É um músico que gosta de silêncio?

Sim, sim. Gosto muito de silêncio. E tenho muito pouco silêncio na minha música, é uma coisa que nunca explorámos verdadeiramente. O nosso ideário é o de uma banda rock e há pouco espaço para o silêncio. Mas gosto de música em que as palavras respirem. Por isso gosto de cantautores.

Então como lida com o papel de ser mentor de um grupo de raparigas que canta Katy Perry e Rihanna?

A Rihanna é muito intensa! (risos) Tenho de ter a noção de que estou a ser mentor de raparigas entre os 16 e 20 anos e não posso, nem devo, entregar-lhes presentes envenenados. Não estou no Factor X para satisfazer o meu ego. Estou ali para as ajudar a mostrarem o que são e elas não são aquilo que eu sou, são aquilo que são. Tenho de ter o maior respeito por isso e tenho de procurar, dentro daquilo que elas são, ensinar-lhes algo. O 'Stay', da Rihanna, que a Isabela cantou na primeira gala, é uma letra muitíssima intensa. Podia ter sido cantada pelo Nick Cave ou pelo James Blake. O 'Roar', da Katy Perry é uma excelente canção pop e eu não tenho nada contra a pop.

Não perde o sono com essas canções?

Não perco o sono por isso, mas não durmo porque acordo a meio da noite a cantar essas canções.

Isso é algo estranho de imaginar: o Miguel Guedes acordar a meio da noite a cantar a Katy Perry…

Juro que me aconteceu… Vivo intensamente o que estou a fazer.

Como tem lidado com a frustração de, semana após semana, mandar jovens talentos para casa?

Tem sido mais difícil a partir do momento em que começaram as galas. A verdadeira relação pessoal, foi quando cheguei às minhas quatro concorrentes. Mas eu não me furtei à criação de vínculos. Uma das coisas que pensei logo foi que, a categoria que ficasse comigo, iria fazer um salto de queda livre, que é algo que faço regularmente e que é uma excelente terapia e desafio. Ao fazer isto, que é algo que tem uma certa dose de pânico, permiti que a minha figura acabasse por ser algo paternalista. Mas prefiro assim. Custou-me imenso a primeira gala. Na primeira semana, por exemplo, saí dilacerado da gala por ter de mandar a Marta Carvalho para casa. Fui chorão para o hotel.

Há vários programas de talentos em Portugal. É realista vender a estas pessoas uma possibilidade de futuro?

É realista embora seja pouco provável. E não devemos criar a ilusão da facilidade. Seria uma falsa procissão de fé se disséssemos que quem ganhar tem futuro. Mas também há cantores que não ganharam, como o D8, que têm imenso sucesso. Há um interesse genuíno por parte do Factor X de fazer com que as pessoas continuem. E isso é um factor de credibilização do programa.

Foi isso que o fez aceitar participar?

Isso e a companhia. Já fui convidado para este tipo de programas e rejeitei. Tem muito a ver com as pessoas com quem estamos. Conheço a Sónia [Tavares], o Paulo Ventura, conhecia menos bem o Paulo Junqueiro porque esteve 20 anos no Brasil… São boas pessoas que considero muito capazes.

O Miguel do Factor X é muito diferente do Miguel do Trio d'Ataque?

Sou completamente genuíno nos dois. No Trio d'Ataque estou em debate com alguém que tem uma paixão diferente da minha. Muitas vezes pegamo-nos pelo gozo de nos pegarmos. Faz parte da paixão. Discutimos até ao limite do absurdo. Sou verdadeiro em ambos os programas, mas enquanto no Trio estou a debater, no Factor X espero gostar de tudo, não quero que ninguém me desiluda. Isso faz com que mostre uma faceta mais descontraída e simpática, que é algo que as pessoas não conheciam, porque os Blind Zero pertencem ao imaginário mais agressivo de uma banda rock. De repente descobriram que tenho um sorriso.

Já sente saudades do Trio d'Ataque?

Estar fora do Trio é um problema. É um programa que faço desde 2010 e que faço com gozo porque gosto muito de futebol e do Porto. Sinto vontade de o voltar a fazer e lá estarei em Janeiro. Hoje em dia, quando vejo os jogos, apetece-me dizer alguma coisa e só posso nos Grandes Adeptos, que é o outro programa onde participo, há dez anos, mas na Antena 1. Sofro mais assim, a ver do banco, porque sou um bocadinho obsessivo. Vejo os jogos sempre com um caderninho para tirar notas.

Lembra-se do primeiro jogo do Porto que viu?

Não me lembro com quem foi, mas lembro-me de ver o Porto. Era miúdo. O Porto é um legado familiar, do meu avô e do meu pai, que me levavam pela mão, a subir a rua Fernão Magalhães, até chegar ao Estádio das Antas, com uma bandeirinha de pau, felpuda. Sou sócio desde miúdo. E sofro profundamente pelo Porto.

E chora?

De alegria. A Taça dos Campeões Europeus, em 1987, quando o Porto ganhou em Viena ao Bayern de Munique, está no top 5 das minhas alegrias. Tinha 15 anos e estava na sala com o meu pai, a assistir ao jogo, e estava incrédulo com o que estava a acontecer. Tinha visto a meia-final contra o Dínamo de Kiev e já não estava a acreditar que o Porto era capaz de ganhar, mas ganhou. Estávamos na final, sem o Gomes, e eu só pensava como é que íamos ganhar. Mas toda aquela equipa maravilhosa, conseguiu. Dei por mim a beber champanhe, de joelhos, aos gritos e a chorar copiosamente. Não se explica isto. Choro com as alegrias do Porto, as tristezas não me fazem chorar, mas deixam-me revoltado. Fico profundamente revoltado quando o Porto merece ganhar e perde.

E fica revoltado quando o Porto é acusado de corrupção?

Não. Já me revoltou. Hoje em dia acho piada. Qualquer pessoa que pense o futebol, sabe que, o que existe, existe para todos. Faz parte da força do Porto perceber que a realidade que é de todos só é demonstrada para uns. Isso é mais um sinal da grandeza que existe num clube que obviamente não tem do seu lado a grande parte dos órgãos de comunicação social, dos jornalistas ou da massa adepta. Mas é um clube que, depois do 25 de Abril, foi ganhador. Antes não era. Isso diz mais sobre o Porto do que o Apito Dourado.

Há Porto sem Pinto da Costa?

Para mim, o presidente Pinto da Costa é indissociável do Porto da modernidade, do Porto que ultrapassou o complexo da ponte 25 de Abril. Pinto da Costa é um dos revolucionários do futebol português. Não consigo dissociá-lo da grandeza do Porto. Tenho um enorme respeito por ele, inclusivamente pela sua vida pessoal. Acho extraordinário que as pessoas não hipotequem a sua vida pessoal e queiram ser felizes, independentemente disso provocar mini terramotos em pessoas que não conseguem perceber que a moral não são falsos costumes.

Nunca foi convidado para assumir um cargo na estrutura do Porto?

Não.

Mas imagina-se a aceitar um cargo?

Não, de todo.

Fala regularmente com Pinto da Costa? A propósito do Trio d'Ataque, por exemplo.

Não. Represento-me a mim próprio no Trio. É evidente que, se quiser recolher informações, tenho canais para isso. Como qualquer dos meus colegas no painel. Às vezes tento recolher informações, mas a triagem é minha. Quanto ao presidente Pinto da Costa, a maior prova do seu carácter, foi justamente num dos poucos contactos que tivemos, numa gala dos Dragões de Ouro, em Espinho. No fim do jantar disse ao presidente que, no dia seguinte, ia estar com 50 crianças da Cáritas no Museu do Porto e que eles teriam uma felicidade enorme se ele aparecesse lá. No dia seguinte, o presidente estava à minha espera e das crianças e fez toda a visita guiada connosco. Foram duas horas. Isto diz alguma coisa sobre a dimensão humana do Jorge Nuno.

É mais tripeiro ou é mais dragão?

As coisas correm em paralelo. Gosto muito dos clubes da minha cidade, como o Boavista, o Salgueiros e, claro, o Porto. Vivo em Gaia, mas nasci no Porto, e tenho uma relação com a cidade muito forte. Não conseguiria viver longe do Porto.

Sente-se como uma espécie de embaixador do Porto, como clube e cidade?

Não me sinto embaixador de coisa nenhuma. Em relação ao FCP há muito portista que se revê nas minhas opiniões, mas mal seria se assim não fosse porque a paixão é comum. Em relação à cidade, reconheço características que são minhas, nomeadamente tomar partido. No Porto há uma noção muito pouco cínica da vida, há frontalidade.

Tem passado mais tempo em Lisboa. Está sempre a pensar quando regressa ao Porto?

Não. Gosto muito de Lisboa e sinto-me bem na cidade. Tenho imensos amigos aqui. Só me sentiria mal num sítio onde me fizessem sentir mal.

Isso nunca aconteceu em Lisboa?

Tanto quanto no Porto. Os dois casos que me aconteceram, em dez anos de comentário desportivo, foram com benfiquistas, mas no Porto.

Que situações foram essas?

Uma espécie de agressividade latente, um protótipo de ameaça. Mas eu percebo. Admito que, às vezes, ao defender o Porto, também faço esse papel. É difícil controlar a paixonite quando estamos a ser vítimas de tratamento desigual. Mas isso é no futebol e em tudo na vida. O tratamento desigual dá-me cabo dos nervos.

Como é que esse Miguel ponderado lida com o fenómeno das claques? O que pensa quando vê nas notícias que a carrinha da claque do Porto destruiu não sei quantas estações de serviço?

Todas as claques já fizeram o seu varrimento de estações de serviço em determinada altura da sua vida. Há pouco tempo estive no meio dos Super Dragões, a seu convite, a ver um jogo. O que senti foi que o que ali está não é mais do que o espelho do que vemos na rua. Há inclusivamente um lado muito matriarcal nas claques. São os homens que dão os gritos de comando e parece uma coisa muito máscula, mas há imensas mulheres. A dimensão familiar das claques é muito mais forte do que a dimensão da violência de que se fala.

Mas essa dimensão da violência é real…

Mas não é no Porto em particular. Há um empolamento enorme. Nenhuma claque é uma escola de virtudes, mas nenhuma claque é uma escola de crime. Os acidentes acontecem com as claques do Benfica, do Sporting, do Porto, do Guimarães… Há pessoas más em todo o lado. Há outros fenómenos associados, como o caso dos Casuals do Sporting. Do meu ponto de vista, o grande problema é quando a ideologia política ou rácica entra nas claques. Não é um problema exclusivamente português. Agora, o que senti na claque do Porto, foi a enorme abnegação que existe pela equipa.

Nasceu e cresceu no Porto. As suas primeiras recordações já estão marcadas pela música?

Sim. Os meus pais não eram melómanos, mas lembro-me de todos os gira-discos que houve lá em casa. A música sempre esteve presente, apesar de a minha primeira grande paixão ter sido o cinema. A música surgiu de uma maneira quase infantil, com os Queijinhos Frescos e com o Festival da Canção. Mas rapidamente comecei a ter bandas e apaixonei-me pelos cantautores, aí já ligado à mensagem política porque a política apareceu-me muito cedo.

Por influência dos seus pais?

Os meus pais sempre foram de esquerda e falavam de política. Mas eu descobri quase tudo por mim próprio. O grande legado dos meus pais foi nunca me terem dito 'Não vás descobrir aquilo' e sempre me terem dado possibilidade, nomeadamente económica, de ter algumas coisas. Os meus pais são pessoas de um enorme bom senso e de um coração gigantesco e sempre confiaram muito no seu querubim. Mas também perceberam desde cedo que as minhas opiniões eram fracturantes: a primeira opção que tive foi o PSR, conotado com tudo o que não era a moral vigente. Para eles não foi estranho porque era sustentado.

O que o levou a juntar-se ao PSR?

Costumes e posições muito claras sobre a vida em sociedade e que têm a ver com o respeito pela liberdade e diferença do outro. Fui bater à porta da sede e fui muito bem recebido, mas entretanto o partido tornou-se algo que me tomava muito tempo. À medida que a música foi entrando cada vez mais na minha vida, fui-me afastando, embora mantendo uma relação com as pessoas, tanto que depois o percurso me levou para o Bloco de Esquerda.

Depois de anos fulgurantes, o Bloco está agora a viver um momento mais negro. Acha que continua a fazer sentido?

É evidente que é um período agoniante para mim e para muita gente de esquerda. O que existe - dois grandes partidos à esquerda do PS - tem de conseguir, no espaço de cinco a dez anos, ser uma alternativa antes que tudo o resto caia por ruínas. Sou muito agregacionista, defendo um grande partido à esquerda do PS. Mas o grande drama da esquerda é a cobardia em não querer ser poder devido a questiúnculas que não fazem jus à grandeza das pessoas. Acho patético que pessoas que têm tanto em comum encontrem tantas razões para se dividirem. Estar num grande partido à esquerda do PS, que teria de envolver o Bloco e o PCP, seria das coisas que mais motivaria na vida.

Mas assumindo um cargo?

Envolvendo-me ainda mais, mas não assumindo um cargo.

O Livre pode ser um passo nesse sentido de uma grande força à esquerda?

Não. O Livre nasce dessas questiúnculas. Tenho muito respeito por algumas das pessoas que o compõem, mas não sei o que é. E se o caminho é ser uma muleta do poder, como o PP tem sido, não serve. O meu caminho, se calhar, é uma grande utopia, mas é que os grandes partidos de esquerda se entendam. Sinto que há cada vez mais gente a defender isto.

O PS está arredado dessa sua lista de partidos de esquerda?

Tenho sempre a esperança que o PS volte a ser um desses partidos da esquerda. Mas estou sempre a desiludir-me.

Tem um cenário para as legislativas?

Parece-me evidente que vai haver uma mudança partidária em Portugal. Mas tenho dúvidas que haja uma mudança política.

A sua aproximação ao PSR dá-se durante os estudos de Direito. O que o levou a este curso?

A verdade é que nunca quis ser nada na vida, tirando a fase do veterinário aos seis ou sete anos. O facto de ter começado a ter a música no meu percurso afastou-me de ter uma opção exacta de vida. Fui sempre tendo bandas. Tinha a noção que gostava de áreas relacionadas com pessoas, daí que a minha primeira opção tenha sido Relações Internacionais. Como não entrei acabei por ir para Direito, em Coimbra, porque achava que era um curso que me podia dar uma abrangência grande da vida. Mas o direito rapidamente me desiludiu.

Porquê?

O direito e as leis são muito importantes e eu sou absolutamente legalista no que diz respeito à síntese que as leis têm de fazer do que nós somos em sociedade. Admito que há coisas que não gosto nas leis e que mudaria, mas há outras com as quais não concordo, mas que não mudaria em nome do que é viver em civilização. Mas o ter de julgar ou defender costumes contrários aos meus, o exercício da advocacia, para mim, não faz sentido. Nunca poderia ser bem-sucedido nessa tarefa.

Apesar dessa desilusão, imagino que os anos passados em Coimbra o tenham marcado.

Essa era a parte boa: a vida de Coimbra, o ter saído de casa dos meus pais, o viver sozinho pela primeira vez. Fui viver para uma casa com um amigo de infância e Coimbra era, e é, um mundo efervescente. Tive muita actividade associativa: estive na associação académica, fui locutor e programador na RUC… A minha actividade extracurricular era enorme.

Os Blind Zero nascem nessa altura?

Sim. Nascem aos fins-de-semana quando vou a casa. Tinha outras bandas que me davam gozo, mas com os Blind Zero senti uma química que nunca tinha acontecido antes.

Mas já conhecia os restantes elementos da banda?

Eu e o Mário [Benvindo], que foi o primeiro guitarrista mas que entretanto saiu, vínhamos dos O.P.Visions, uma banda de homenagem ao Porto e à PJ Harvey. O Nuxo [Espinheira], o Vasco [Espinheira] e o Pedro [Guedes], tinham uma banda chamada Sunscreen. Juntámo-nos porque o Mário estava a estudar com eles na Universidade Fernando Pessoa. Fizemos um ensaio, por puro gozo. E saímos dali com vontade de nos voltarmos a juntar, não dali a umas semanas, mas logo no dia a seguir. Num instante estávamos a fazer uma tournée por cinco bares no Porto. De seguida éramos capa de jornal como a next big thing e tínhamos três editoras atrás de nós. De repente estávamos a gravar um disco, o Trigger, com um produtor estrangeiro [Ronnie S. Champagne], e a tocar para 30 mil pessoas. Quando olhámos para trás, tinha passado um ano e nós éramos aqueles cinco gajos que se tinham encontrado por mero acaso e que só queriam ensaiar. Não estávamos preparados para o que aconteceu.

Desde o início que foi visto como um animal de palco. Sentia-se confortável naquele espaço?

Agora sim, mas no início o palco era um sítio onde sofria imenso. Ao fim de um ano de Blind Zero já estávamos a tocar para milhares de pessoas e isso cria problemas de identidade, de fragilidade e de dificuldade em lidar com as opiniões dos outros. Ainda mais porque nós dividíamos imenso as opiniões. Éramos conotados com um movimento grunge que existia nos EUA e havia quem nos adorasse e quem nos detestasse. Além do mais, quem surgia a cantar em inglês estava a cometer um crime.

Essa questão da língua foi das vossas primeiras, e maiores, batalhas?

Sim. Mas tenho direito a expressar-me na língua que quiser. Apesar de amar e odiar em português, musicalmente a minha escolha foi o inglês. Fomos a primeira banda com um produtor estrangeiro e que teve um disco de ouro a cantar em inglês. Isso foi um problema para a burguesia nacional cantante.

Disse que não estavam preparados para o que aconteceu. Sentiu-se atirado às feras?

Os mega arranques são convites a mega quedas. Sentimos que tínhamos de ser muito fiéis àquilo que estávamos a fazer e que tínhamos de saber lidar com tudo o que estava a acontecer à nossa volta: ser amados e odiados, ser capa de um jornal e nota de rodapé de outro… Isso construiu-nos a identidade. Tivemos sempre o sentido de percurso, de sabermos que não queríamos ser uma banda de um hit.

Como se tem essa noção aos 20 anos?

Não sei. Acho que tinha a ver com a música que ouvíamos e a educação que tínhamos. Não quer dizer que não tenhamos tido fogachos de loucura. Faz parte. Era o rock & roll.

Como lidou com esses fogachos?

É Fellini e já nessa altura eu gostava de Fellini. Mas o sexo, drogas e rock & roll, à dimensão portuguesa, ganha um carácter bem mais pequenino…

Mesmo com essa dimensão portuguesa, de um momento para o outro, havia miúdas, drogas e álcool à disposição… Como se lida com isso?

Fazendo escolhas. Asneiras fazemos todos, mas temos de as fazer convictamente. Fui director da primeira revista sobre substâncias psicotrópicas em Portugal, a Cânhamo. Durante um ano editámos esta revista a falar sobre drogas de uma maneira responsável, nunca apologética. E deu-me um gozo enorme fazê-lo. Era uma adaptação da Cânhamo espanhola, tínhamos 60% de conteúdos traduzidos por mim no meu espanhol arrevesado.

Como surgiu a ideia?

Fui eu, o Ricardo Silva e o Nelson Patriarca. Achámos que era altura de falar sobre drogas sem atirar areia para os olhos das pessoas. O grande problema da heroína em Portugal foi o facto de as pessoas não saberem o que era. A geração agarrada à heroína que existiu em Portugal é fruto da inconsciência. O desconhecimento é inimigo da boa escolha. Podemos preferir estar inconscientes se o escolhermos conscientemente. A Cânhamo ainda hoje é um dos meus maiores orgulhos na vida.

Os Blind Zero estão a celebrar os 20 anos com uma nova versão do último álbum, Kill Drama, mas em duetos, com músicos como a Sandra Nasik, o Fernando Ribeiro ou o Rui Veloso. Olhando para trás, aquilo que foi a razão do nascimento da banda continua a fazer sentido?

Os Blind Zero nasceram de um fenómeno de urgência. Tínhamos coisas para dizer. A razão continua a ser a mesma. Juntámo-nos numa sala de ensaios e, de repente, tínhamos duas ou três canções, que acabaram por ir para o primeiro disco que ainda hoje dizem que é um disco importante.

 

Trabalhar na Gestão dos Direitos dos Artistas (GDA) é uma forma de achar que o seu curso de Direito não foi um desperdício?

Sim. O curso não foi um desperdício, mas podia ter-me servido para pouca coisa do ponto de vista profissional. A GDA, desde cerca de 1995, tem-me permitido aliar a vertente jurídica, com o lado de gestão de direitos. O que fazemos na GDA é cobrar e gerir para distribuir direitos aos artistas, mas há um lado jurídico que subjaz a essa remuneração que é devida aos artistas. A propriedade intelectual foi uma oportunidade que tive de aliar a música ao direito. E sinto-me verdadeiramente feliz por ter conseguido essa sinergia.

Como vê o facto de os partidos à esquerda terem votado contra a Lei da Cópia Privada?

Fiquei muito triste. Houve uma evolução negativa, por parte da esquerda, que não percebeu, ou não quis perceber, o que estava em causa. E o que estava verdadeiramente em causa é o direito dos artistas serem remunerados pelo trabalho que fizeram. A cópia privada existe em quase todo o mundo e já existia em Portugal, não se inventou agora. Simplesmente taxava o analógico e havia necessidade de a adaptar para o digital. Ninguém se incomodou antes. A esquerda não perceber isto foi um rude golpe para mim.

Quando defende esta Lei receia ser acusado de estar a julgar em causa própria?

Tenho muita confiança na inteligência das pessoas e por isso confio sempre que são capazes de discernir que, pelo facto de eu ter uma banda, não devo nem quero, demitir-me de dizer o que penso. Mesmo que seja fracturante, como normalmente é.

Até que ponto é que a música continua a ser o parente pobre da cultura portuguesa, no sentido em que é a única área que continua a não ser subsidiada?

Há aí uma falsa questão… A música portuguesa foi subsidiada indirectamente por todo o espectro de contratações camarárias. Não havia uma subvenção estatal, mas o estado comprava concertos. A subsidiodependência que se associa às chamadas artes caras, como o teatro, também existia na música, que vivia muito do circuito de concertos das câmaras. Quando passam a existir menos concertos, a música ressentiu-se. Mas acho que o teatro, a dança, as artes de palco, devem ser mais subsidiadas pelo simples facto de terem menos público, serem menos perenes e gerarem menos retribuição financeira. E não há nenhuma vergonha em admitir que a arte deve ser subsidiada. Mas com um critério de liberdade e diversidade. O que o estado tem feito com a cultura em Portugal é que é uma contínua degradação. No Porto, por exemplo, o desastre que foi o Rui Rio na cultura só teve uma vantagem: permitiu que florescessem flores no deserto, porque o que aconteceu foi a desertificação, à mão armada, da cultura. Mas houve uma cultura de resistência, as pessoas uniram-se, tornaram-se mais lutadoras, amarraram-se ao Coliseu, invadiram o Rivoli. O Rio nunca se vai limpar do mal que fez à cultura no Porto. E agora, a forma como a nova gestão camarária está a devolver a cultura à cidade, é muito bonita.

É possível viver como artista em Portugal? Se não tivesse o trabalho na GDA, conseguiria viver dos Blind Zero?

Conseguiria sobreviver, não conseguiria viver da forma que entendo que devo viver. Quem quer ser 'só' artista em Portugal vai viver muito mal e vai acabar por pôr a sua independência em causa. E isso é o que me incomoda. Os artistas com piscina, os Cristianos Ronaldos da música em Portugal, não são os exemplos. Os exemplos são os que têm de fazer outras coisas não querendo. Eu faço outras coisas porque quero, mas gostaria que aqueles que só querem fazer música e que têm valor, conseguissem. Portugal tem uma burguesia engordurada de músicos, uns com muito valor, outros com menos, que conseguem viver esplendorosamente da música. Mas estamos a falar do topo da pirâmide. De resto, não há classe média na música em Portugal, há sobreviventes.

Foi para tentar garantir a independência que os Blind Zero se afastaram das editoras e começaram a fazer edições de autor?

Não. Foi uma questão de falta de interesse mútuo: da Universal, em nós; e nosso, na Universal. Nunca fizemos nada que não quiséssemos, e no início vendemos muitos discos, mas depois o nosso caminho deixou de ser interessante para uma editora multinacional. Foi um divórcio por mútuo acordo.

Diz sempre que é tímido, mas por vezes fica no ar se é uma timidez real ou se é charme de artista…

(risos) Sou tímido. Já fui mais, acho que evoluí da timidez para a reserva. Sou uma pessoa reservada e prezo muito a esfera da vida privada. Continuo a não lidar muito bem com fenómenos de massas.

E com o título de quarentão, lida bem?

Lido. Quando vejo o Tom Waits ou o Springsteen a cantar, acho que posso morrer assim. Velho, mas a cantar. Perder a voz ou a audição é que seria um dos maiores sustos da minha vida.

Foi por esse medo que deixou de fazer mergulho?

Foi. E é das minhas grandes tristezas. Mergulhar era poder sair daqui e estar só comigo, em silêncio.

raquel.carrilho@sol.pt

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