Politica

Houve uma despedida íntima na Quadratura do Círculo

O próximo líder do PS e candidato a primeiro-ministro ouviu com bonomia os conselhos de Pacheco Pereira e Lobo Xavier, e riu-se do vídeo de si próprio, de há seis anos, quando chegou ao programa que há décadas acolhe comentadores e políticos em ascensão. No final, já com o genérico a correr, Pacheco e Xavier esticaram-se para dar a mão a Costa, num gesto final de despedida. Foi afectuosa e íntima a última 'Quadratura' com António Costa, esta quinta-feira. 

Pacheco Pereira confessou que teme que o até agora parceiro de debate passe a fazer de "múmia" ou de "morto", pondo já uma "pose de primeiro-ministro". Aconselhou-o ao invés a procurar o "contraditório claro", atacando o Governo do PSD/CDS, fugindo de unanimismos e meias-tintas. Pacheco percebe sinais preocupantes na atitude das últimas semanas de Costa, adivinhando já o socialista "hesitante", e notando que começa a refrear as promessas de aumentos de salários e baixas de impostos. Até Paulo Portas elogiou Costa, o que é mau sinal, argumentou.  

Na resposta, o socialista justificou a sua moderação no discurso com o período longo de transição no calendário eleitoral, levando Pacheco Pereira a quase zangar-se: "Em que é que isso o impede de falar?"

Lobo Xavier, ao contrário do social-democrata, elogiou a moderação no discurso de Costa. Porque, com a crise, "o tempo em que os portugueses estavam disponíveis para mentiras esgotou-se". Depois, ambos os comentadores de direita atacaram a linha oficial dos seus próprios partidos por acusarem Costa de querer voltar ao passado de Sócrates. É demagogia, consideram. Ainda que Costa quisesse, "o passado acabou, não é mais possível", justificou Xavier. Muito embora, riu-se, "a sombra de Sócrates" paire sobre este PS.

Para a semana Jorge Coelho ocupa a cadeira de Costa e este sabe que passará a ser objecto das críticas "com liberdade" dos até agora colegas. Elogiou a "boa-fé" e "inteligência" de Pacheco e Xavier mas avisou que terá "fúrias" de vez em quando e, com ironia, disse "eu conheço a vossa agenda". 

Quanto ao "fazer de morto", protestou, referindo-se ao período em que foi comentador da Quadratura do Círculo, na SIC: "Não alimento o mito urbano que estive calado seis anos". Neste derradeiro programa, Costa disse querer manter "a regra de não se comentar a si próprio", mas admitiu que o formato era um "híbrido", e assumiu, a espaços, um discurso de líder de oposição. "A herança que este Governo vai deixar ao país é o medo às reformas", rematou. 

Elogio a Macedo e defesa em causa própria nos vistos Gold

A meio caminho entre o comentador e o líder da oposição, Costa foi táctico no elogio que fez à demissão de Miguel Macedo. O ex-ministro da Administração Interna "estabeleceu um novo paradigma neste Governo", considerou. Ao sair pelo seu pé "fez o que tinha a fazer", assumindo a necessária responsabilidade funcional no caso dos vistos Gold. E "deixou os outros todos mal colocados", num "Governo de inimputabilidade política", atacou depois, referindo o caso de Nuno Crato, que "não conseguiu abrir o ano lectivo", e de Teixeira da Cruz, que não assume responsabilidade por um "sistema informático que entrou em colapso".

O elogio a Macedo seria corroborado por Pacheco Pereira (o ex-ministro "tem respeito por si próprio") e por Lobo Xavier ("O Governo perdeu um dos seus melhores políticos"). 

Ainda sobre a questão dos vistos, o moderador Carlos Andrade confrontou António Costa com as buscas à câmara de Lisboa, um notícia da noite na SIC. "Teve algum sobressalto quando a PJ foi à câmara fazer buscas?", perguntou. "Não, não fiquei. Porque a busca não foi à câmara mas ao posto de trabalho de um senhor que é funcionário", respondeu Costa, isolando o caso, na linha do comunicado que emitira a CML.

Já em tom de brincadeira, Costa disse que estes seis anos o tinham mudado. "Aprendi a gostar de bacalhau", riu-se. No início do programa, um vídeo do programa de 17 de Abril de 2008, mostrava o recém-chegado socialista a fazer uma declaração de interesses, que incluía a aversão ao bacalhau e algumas simpatias, que, essas, não mudaram: "Sou benfiquista, sou socialista, sou amigo do primeiro-ministro", declarava, assumindo a relação próxima com José Sócrates, cujo Governo abandonara meses antes. E avisava ainda: "Não venho aqui fingir que sou um comentador imparcial".

manuel.a.magalhaes@sol.pt