Internacional

Abe dispara arma eleitoral

“Luzes de alerta estão a acender-se no painel de instrumentos da economia global”. A tirada foi do primeiro-ministro David Cameron em artigo publicado no Guardian, após a cimeira do G20, em Brisbane (ver texto abaixo). Preocupado com o clima de incerteza e de instabilidade, o britânico assestou baterias à zona euro, “à beira de uma possível terceira recessão, com desemprego elevado, crescimento em queda e, também, o risco real de descida nos preços”. Mas as más notícias vieram do outro lado do mundo. Em Tóquio, dados preliminares do terceiro trimestre apontavam para uma contracção do PIB em 0,4%, após a quebra de 1,9% entre Abril e Junho. Ou seja, a terceira maior economia do globo entrou em recessão técnica – a quarta desde o início da crise financeira, em 2008.

Shinzo Abe é o grande favorito à vitória nas eleições que o próprio provocou FRANCK ROBICHON/epa

Estes dados põem em causa a política do Governo (Abenomics, como ficou crismada), uma mistura de estímulos fiscais, quantitative easing (impressão de dinheiro) e de reformas estruturais para que o Japão saia do marasmo de duas décadas.

 A nova caiu como um pequeno abalo sísmico e teve como primeiras consequências a queda do iene (para o valor mais baixo em sete anos) e da bolsa de valores de Tóquio. No plano político, como já circulava na capital nipónica, o primeiro-ministro Shinzo Abe decidiu dissolver a Câmara Baixa e convocar eleições.

Os analistas culpam a subida da taxa do consumo (o equivalente ao IVA) de 5% para 8%, uma medida que entrou em vigor em Abril com o objectivo de tentar controlar a dívida pública (uns estratosféricos 240% do PIB) e financiar as prestações sociais de um país cada vez mais envelhecido.

Era intenção do Governo voltar a subir essa taxa em Outubro de 2015 de 8% para 10%, uma medida que deverá ficar congelada até à Primavera de 2017, uma vez que o fantasma da deflação assusta mais do que os da dívida e do défice.
Este é um dos pontos que fizeram Shinzo Abe antecipar as eleições em dois anos: deseja que a ideia de adiar o aumento de impostos seja plebiscitada pelos japoneses.

Apesar da confortável maioria na Câmara Baixa do Partido Liberal Democrata, Abe preferiu devolver a palavra aos concidadãos. Enfraquecido pela demissão das ministras da Economia e da Justiça, há um mês, num caso de desvio de fundos, o chefe do Governo demissionário é, no entanto, o grande favorito à vitória das eleições que devem realizar-se ainda este ano. Com 36,6% dos japoneses a declarar-se simpatizante do PLD de Abe, e apenas 7,9% do Partido Democrático, as eleições aparentam ter sentido único.

Para o futuro Executivo ficam ainda dois temas muito quentes: a alteração da lei para permitir ao exército (as forças de autodefesa) intervir num âmbito mais alargado do que até agora e o regresso em toda a força da energia nuclear.

cesar.avo@sol.pt