Vida

Gonzo entre amigos, bastidores de um concerto

O telefone não pára. Do outro lado da linha ora lhe desejam boa sorte para essa noite ora lhe pedem bilhetes de última hora para o concerto duplo ‘Duetos ao Vivo’ (Meo Arena, Lisboa, no passado dia 14, e Pavilhão Multiusos, Guimarães, a 15). Estamos à conversa com Paulo Gonzo no seu camarim, a um par de horas de subir ao palco da maior sala de espectáculos lisboeta. ‘Nervoso?’, perguntamos. “Não... O que acham se eu oferecer rosas brancas a cada uma das convidadas? É giro, não é?”... Anuímos. Mais uma chamada, desta vez para a florista. As rosas chegam dentro de uma hora, prometem-lhe...

Paulo Gonzo fez da Meo Arena, em Lisboa, a sua sala de estar Raquel Wise
Raquel Wise
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O copo de whisky vai a meio – “relaxa-me” – e os cigarros mascaram a ansiedade que o momento pode trazer. Não se lhe notam tiques nervosos, antes um ‘jogo de cintura’ de quem já sabe de cor ao que vai. As folhas do alinhamento do concerto estão sobre a bancada, em frente ao espelho. Mira-as uma vez mais e olha depois de relance para a imagem que vê reflectida de si. “Sou uma pessoa excepcional, não sou?”. Ri-se de si próprio, numa gargalhada sonora, como quem faz questão de se ‘desmascarar’. Meteram-se os ensaios finais pelo meio, mas ainda houve tempo para contar histórias idas, de tempos passados, e contar a história destes ‘Duetos ao Vivo’ (inspirado no álbum homónimo) no entretanto...

“Esta é uma festa privada com dez amigos que vieram de fora que eu quis apresentar aos meus milhares amigos de dentro”. Há-de repetir a frase em palco, horas depois, na altura em que começou o espectáculo propriamente dito. Passava pouco das 22h de sexta-feira passada.

‘Prazer em conhecer-vos’ parece ter sido a resposta do público português em relação aos convidados. Portugal, além do anfitrião, mostrou-se através de Jorge Palma e Rui Reininho; de Itália chegou Mario Biondi; de Angola vieram Matias Damásio e Anselmo Ralph; o Brasil fez-se representar por Fafá de Belém e Ana Carolina; do México esteve Carlos Rivera; Inglaterra respondeu com Tammy Payne e Cabo Verde com Tito Paris. 

“São todos muito diferentes, reuni gente de várias partes do mundo. E eu tenho de ser uma espécie de cordão umbilical entre eles”, confessava ainda o artista português a algumas horas de embarcar na odisseia multicultural que foi o seu concerto. Só a espanhola India Martinez não fez o check-in para esta viagem, uma ausência explicada pela própria em vídeo a toda a plateia da sala de espectáculos de Lisboa. Aliás, todos os convidados gravaram uma mensagem de afecto em relação à sua parceria com o artista português, mostrada antes de cada uma das actuações nos ecrãs gigantes que ladeavam o palco. 

Um dos primeiros ‘tripulantes’, a quem Gonzo apresentou como o “James Brown angolano”, foi Matias Damásio, um nome incontornável do semba no seu país. Juntos cantaram ‘A Outra’ e puseram a plateia lisboeta a dançar. Foi dos duetos mais ‘alegres’, brindado com o ritmo frenético do público. “É uma honra subir ao palco com Paulo Gonzo. É um cantor de quem sou fã, que sempre admirei. Ao som das suas músicas muitos angolanos já namoraram, casaram e até fizeram filhos. É um colosso”, atirou Matias Damásio em cima do palco. Também o angolano Anselmo Ralph reforçou a ideia de ter crescido a ouvir as músicas de “um artista maior de Portugal” e que ficou impressionado com o convite. “A minha primeira reacção foi: ‘não acredito...’. Já refeito, perguntei-me ‘por que não?’. Começámos a gravar o ano passado e hoje aqui estamos. É um prazer participar neste concerto, além de que a música também tem este poder, de quebrar fronteiras e unir povos”, contou um Anselmo u  Ralph já bem conhecido da ‘audiência’ portuguesa ainda nos bastidores do concerto. ‘Ela É’ foi a música que levaram ao palco, acolhida entusiasticamente e de pé pelo público de um Meo Arena bem composto. 

Interacção foi a palavra de ordem. Gonzo soube como seduzir a plateia, fez do palco a sua sala de estar, com mesa e cadeiras para sentar, num ambiente cosy, em que serviu Vinho do Porto aos senhores e ofereceu rosas brancas às senhoras. Dividiu (o protagonismo com os restantes convidados) e reinou. Foi sem dúvida a ‘sua’ noite, num espectáculo em que quis apresentar ou dar a conhecer melhor outras vozes aos portugueses. Foram os casos do italiano Mario Biondi, de quem disse ser um grande fã – “é uma lenda a quem me vergo, e só o faço em relação a mais outros dois nomes: James Brown e Eusébio” –, ou da inglesa Tammy Payne, que quase num ‘sussurro’ melodioso cantou ‘Talk to me Instead’. Com o português Rui Reininho encontrou-se com o seu estilo de origem – “tenho um formato muito soul, muito blues de raiz” – e com Palma cantou ‘Só’ muito bem acompanhado... ‘Negra’ foi a ‘viagem’ que o músico português fez a Cabo Verde com Tito Paris. Carlos Rivera trouxe uma ‘Fascinación’ especial do México, que o diga o público feminino, e Fafá de Belém granjeou aplausos com ‘Vai Entender’, rematado com estas palavras: “Portugal tem grandes cantores, mas o Paulo é um forte candidato a uma conta no coração do Brasil”. 

Ana Carolina foi a última convidada a cantar com o anfitrião ‘Quem de Nós Dois’ e como quem ri por último, ri melhor, a brasileira acabou por ser das mais presenteadas pela plateia. As previsões de Gonzo – “de espectáculo único e irrepetível” – viriam a confirmar-se. Os duetos – “engendrados por mim e por Paulo Junqueiro, director da Sony” – souberam cativar a audiência. Claro que não faltaram os ‘Jardins Proibidos’ e o ‘Sei-te de Cor’, cantados, desta vez, em dueto com o público. Para fechar, o ‘Dei-te Quase Tudo’. E deu mesmo... Tanto que a audiência pediu mais... 

filipa.moroso@sol.pt