Internacional

Na favela, a escola não tem muros

Heliópolis é a maior favela de São Paulo. “Só perde para a Rocinha, no Rio de Janeiro”, diz-nos um motorista de táxi, à entrada de um aglomerado de barracas e de construções de baixo custo, muitas delas inacabadas. Nesta comunidade da zona Sul da capital paulista, vivem cerca de 120 mil pessoas, numa área de um milhão de metros quadrados. O povoamento começou no final da década de 70, em plena crise económica e da ditadura militar. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de Dezembro de 2011, 6% da população brasileira (11,42 milhões) vive numa das 6.329 favelas de 323 municípios do país. Mas Heliópolis não é uma favela igual às outras.

Desde o início dos anos 2000 tem sido uma presença assídua nos jornais e noticiários, não por causa da criminalidade e das disputas pelo controlo dos pontos de tráfico, mas porque aqui há uma escola que 'importou' de Portugal uma política educativa para acabar com o medo e com os crimes dentro dos muros.

Outrora rotulada como a 'escola dos favelados', a Escola Campos Salles, fundada em 1957, vive um dos momentos mais auspiciosos da sua história. É considerada uma instituição-modelo, tendo até recebido a visita do presidente do Conselho Norte-Americano de Educação, Terry Peterson, em 2000.

A transformação começou em 1995, com a entrada de Braz Nogueira para a direcção da Campos Salles.

Nogueira inspirou-se na portuguesa Escola da Ponte, em Santo Tirso, para adoptar uma nova metodologia de ensino e chamar a comunidade a participar no processo educativo, estabelecendo uma relação íntima com a favela. “Ele trouxe duas ideias: tudo passa pela educação e a escola deve ser um centro de liderança na comunidade. A isso, juntou-lhe três princípios da Ponte: autonomia, responsabilidade e solidariedade”, explica Amélia Fernandez, coordenadora pedagógica, que está a substituir Braz Nogueira na gestão diária da escola. É que por estes dias a favela chora a morte de Arlete Persoli, esposa do director e gestora do Bairro Educativo, um projecto que coloca do mesmo lado a escola e os habitantes na luta pelo desenvolvimento da comunidade, com a educação no centro. 

Um assalto à escola esteve na origem da 'revolução'. Braz saiu pelos becos e ruelas da favela e foi de porta em porta dizer que o roubo dos computadores era antes de tudo um roubo da comunidade aos próprios filhos. Os equipamentos acabaram por ser devolvidos e o director decidiu derrubar literalmente os muros da escola.

“Todas as escolas aqui da região têm muros muito altos, com gradeamento. Parecem prisões. Quando ele decide tirar os muros, toda a gente ficou apavorada, prevendo assaltos diários. Mas isso não aconteceu e, tal como prevíamos, a comunidade passou a sentir que a escola também é dela. 'Não podemos invadir porque é nosso'“, recorda Amélia, sentada numa das secretárias do seu gabinete partilhado com outros coordenadores.

A criminalidade dentro de portas, garante, é praticamente inexistente. Mas na memória recente está a morte de uma aluna, em 1999, abatida a tiro à saída da escola. A aluna estaria envolvida no tráfico de drogas. Braz, depois disso, organizou uma 'Marcha pela Paz', pelas ruas da favela. Desde então, todos os anos, participam cerca de 15 mil pessoas num pedido por moradia digna, cultura, escola e saúde de qualidade e justiça social. 

Primeiro a mudança, depois o aviso 

Jefferson fez na sexta-feira 11 anos. Conhece Portugal e Cristiano Ronaldo (“Vocês gostam dele?”, pergunta-nos) mas sonha viver nos EUA ou na Alemanha quando for grande. Por ora, a favela é a sua morada. “É aqui que estão os meus amigos, a minha mãe e a escola”. Vive com a mãe, empregada doméstica em “casas de família”. A renda média familiar nesta favela é de 147 euros. O pai amanheceu morto há quatro anos. Os três irmãos, mais velhos, vivem na Bahia. Jefferson pergunta orgulhoso se já vimos a piscina que está a ser construída na escola. Promete lá passar o Verão.

As aulas terminaram ao meio-dia. De manhã, estudam os alunos da idade de Jefferson, à tarde os mais pequenos e à noite os alunos maiores de 17 anos e adultos. Em 2007, as salas de aula deram lugar a salões. Os alunos trabalham em roteiros inter-disciplinares, por mesas de quatro. São 105 alunos por salão. Não existem turmas e cada aluno, dos 1.100 que frequentam a escola, escolhe o roteiro que quer trabalhar sob o olhar de quatro a cinco professores. São 90 professores, nem todos adeptos dos métodos humanistas da Campos Salles.

“Dentro de cada salão temos um roteiro de alfabetização, um intermediário, um integrado, um temático, uma oficina de Língua Portuguesa, uma de Matemática e uma de Arte. 70% do nosso currículo é baseado nas expectativas de aprendizagem da Secretaria da Educação e os outros 30% é o que nós chamamos de 'currículo vivo', embora todo o currículo devesse ser vivo”, explica Amélia, que fez o curso na Escola da Ponte, com o seu mentor, José Pacheco. A Campos Salles integra a rede municipal mas não tem autorização formal nem autonomia para escolher os programas e os professores. “Nós simplesmente fazemos. Partimos as paredes das salas e só depois comunicámos à tutela. A nossa autonomia é legitimada pela comunidade. Tanto que nunca tivemos um único secretário da Educação contra o projecto porque todos sabem que este é um projecto inovador e virado para os desafios da educação do século XXI, onde a sala de aula é o planeta Terra. A relação de construção de conhecimento não pode ficar centrada na figura do professor, que continua a  ser o mediador. O trabalho de equipa é uma das competência deste século e nós trabalhamos isso”.

Antes do arranque dos trabalhos diários num dos cinco salões da escola, professores e alunos sentam-se para conversar, definir os roteiros e olhar para as dificuldades na execução das tarefas. Em cada salão há uma comissão mediadora de estudantes, composta por 10 alunos. Jefferson integra uma destas comissões e é chamado a avaliar os colegas, a pensar roteiros com os professores e a resolver casos mais bicudos, como os chegam da rua e se repercutem dentro da escola. “Sempre que há um problema com os alunos nós tentamos ir a casa deles, falar com os familiares. Não dizemos pais nem mães porque muitos deles não têm pai nem mãe vivo. Quando os familiares vêm à escola, aí juntamos professores e a comissão. A presença das crianças evita o confronto entre os adultos e, além disso, cultiva-se o sentido de responsabilidade”, explica Amélia.

Na portaria, entre o passado e o presente 

Marisete, 45 anos, nasceu e cresceu na favela e andou pela Campos Salles. Aos 12 anos, suspendeu os estudos porque chegava à escola cansada, depois de carregar água desde manhã cedo, tarefa à qual voltava no fim das aulas, às 17 horas. “Eu vivia a carregar água. Descíamos um morro, onde tinha uma mina, com baldes. Quando ia para a escola adormecia por causa do cansaço”, recorda. Regressou à escola mas viria a sair outra vez para entrar na vida adulta: aos 14 anos, engravidou. O objectivo era sair de casa da mãe, onde vivia num ambiente de violência doméstica.

Hoje, e depois de trabalhos vários no sector do plástico e como camareira num motel, trabalha na portaria da Campos Salles, que dá para a favela que Marisete e a família ajudaram a “construir” quando ainda lá viviam apenas 3.000 pessoas e havia toque de recolher obrigatório às 18 horas. “Passavam os carros pretos e nós recolhíamos. Ninguém mais saía de casa. Eram os justiceiros que saíam a disparar nas pessoas que usavam droga e que roubavam. Ninguém lhes conhecia a cara”, conta.

Foi a tentativa de suicídio do filho, Tiago, que a levou de novo à escola. “Quando cheguei ao hospital com o meu filho nos braços e nenhum segurança se aproximou para me ajudar a carregá-lo, fiquei tão indignada que pensei: 'Vou fazer o curso e trabalhar como segurança para ajudar as pessoas'“. Arlete Persoli fez o resto, ao assinar um protocolo com empresas de limpeza e de segurança para garantir emprego para os moradores da favela. A 9 de Abril de 2010 Marisete regressou à escola onde haviam sido mortos a tiro um irmão e duas primas. Desta vez para trabalhar.

Aqui a vida real confunde-se com a ficção. Ainda ontem a polícia abateu a tiro um adolescente de 17 anos que circulava na favela com um carro roubado. “Quem mais mata é a polícia”, diz Marisete. A porteira da Campos Salles, por estes dias, tem andado a gravar cenas para um filme brasileiro que conta a história de um traficante morto e cujo o corpo é negado aos familiares pelos homicidas. Faz de mãe do morto.

No casting para a personagem, o realizador não terá ficado indiferente à história de Marisete, que além do irmão e das primas perdeu uma irmã, assassinada com cinco tiros em casa por um namorado; o padrasto, assassinado à porta de casa; um cunhado, assassinado numa favela vizinha; uma neta de seis anos, Vitória, por insuficiência respiratória. Acresce a batalha que está por vencer com Tiago, hoje com 26 anos, o filho que Marisete foi reencontrar nas ruas da Cracolândia, no centro de São Paulo, depois de dois anos sem saber do seu único filho homem, dos seis que teve. “A pior coisa na vida de uma família é lidar com a droga. Podemos passar fome, dormir na rua, mas lidar com um drogado é a pior coisa na vida”, admite.

Na portaria, Marisete está entre o passado e o presente. Sem saber bem o que vai ser o futuro, o seu e o da escola. “Vejo alguns alunos desinteressados. O Braz é um excelente director. Ele mudou esta escola e a relação da favela com a Campos Salles. Quem faz a escola é o aluno. Só espero que esta mudança de postura torne a favela num lugar ainda mais agradável de se viver. Aos poucos vamos conseguindo as nossas mudanças”.

ricardo.rego@sol.pt