Politica

Sócrates e Mandela, a mesma luta?

António Costa pediu aos socialistas para separarem a política dos sentimentos, mas os mais próximos de José Sócrates já começaram a exprimir a dor que sentem pela prisão preventiva do ex-primeiro-ministro. O deputado socialista Fernando Serrasqueiro foi o primeiro a fazê-lo, no Facebook, evocando, de forma subliminar, o exemplo de resistência de Nelson Mandela, o mais famoso prisioneiro político do último século.

Serrasqueiro, ex-secretário de Estado e amigo pessoal de Sócrates, manifestou a sua solidariedade através de um poema, intitulado Invictus, famoso por ter servido de apoio ao activista político Mandela, nos anos que passou na prisão-ilha de Robben Island. E reproduziu-o, sem comentários, duas horas depois do despacho do juiz Carlos Alexandre que enviou o ex-primeiro-ministro do PS para uma prisão em Évora.

Haverá pontos de contacto entre Mandela, prisioneiro político do regime racista sul-africano durante 27 anos, e Sócrates, detido por corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal? Há pelo menos um exemplo de resistência na adversidade, que Serrasqueiro quer transmitir ao amigo e camarada de partido. 

Mandela disse que lia o poema Invictus (traduzindo: jamais derrotado) para encontrar força e apaziguar o sofrimento, superando momentos de dúvida. "Sob as garras cruéis das circunstâncias / eu não tremo e nem me desespero / Sob os duros golpes do acaso / Minha cabeça sangra, mas continua erguida", lê-se na segunda estrofe do poema vitoriano.


"Não importa quão estreito o portão / Quão repleta de castigo a sentença, / Eu sou o senhor de meu destino / Eu sou o capitão de minha alma", são os quatro últimos versos do inglês William Ernest Henley, no poema que escreveu em 1875.

A ligação do poema Invictus a Mandela é também referida pelo filme do mesmo nome, com Morgan Freeman e Matt Damon, realizado por Clint Eastwood, em 2009.

João Soares reforça apoio a Sócrates

Também no Facebook e também poucas hora depois da prisão de Sócrates, outro socialista exprimiu de forma mais directa o seu apoio ao ex-secretário-geral do PS.

"Considero injusta a medida de coacção de prisão preventiva aplicada hoje a José Sócrates. Conheço há muito e confio, como cidadão e advogado, em João Araújo, advogado de José Sócrates. Portanto quero crer que essa medida é, como João Araújo disse, injustificada", escreveu Soares.

O deputado socialista, que apoiou António José Seguro nas eleições primárias, lembra o seu primeiro post de apoio a Sócrates, na sexta-feira à noite, depois da detenção. E conta que recebeu "um chorrilho imenso de insultos e ataques descabelados" na caixa de comentários, que resolveu não apagar "para que se visse de que se fazem os argumentos dos "justiceiros" das redes sociais".

João Soares qualificou de "tentativa de humilhação" as condições em que Sócrates foi detido, no aeroporto, depois de aterrar em Lisboa. Agora cita um camarada socialista para criticar os magistrados: "a prisão preventiva decretada a José Sócrates estava escrita nas estrelas. Desde o momento da sua detenção, e durante 3 dias, a investigação foi "libertando" para a comunicação social os "factos" que considerou necessários divulgar para "fundamentar", junto da opinião pública, a medida de coacção mais gravosa".

manuel.a.magalhaes@sol.pt