Cultura

Não há casa como esta para o fado

A partir de meados de Dezembro quem visitar o Museu do Fado já vai poder ver nas vitrinas do espaço o Grammy Latino de Carreira atribuído a Carlos do Carmo há pouco mais de uma semana. Quando recebeu o troféu, o fadista fez questão de dedicar a distinção “a todos os portugueses” e deixou duas recomendações à assistência: “Visitem Lisboa, porque é das cidades mais bonitas da Europa” e “visitem o Museu do Fado”.

Esta relação umbilical do fadista com o Museu do Fado – localizado em frente às portas de Alfama, onde a canção lisboeta prosperou –, começou logo em 1998, quando o espaço inaugurou. E consolidou-se durante a preparação do processo de candidatura do fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, da UNESCO. Ao lado de Mariza, Carlos do Carmo foi um dos embaixadores da iniciativa e a sua “capacidade de entrega a uma causa colectiva” impressionou Sara Pereira, directora do museu. É por isso com orgulho que a responsável revela que o Grammy vai ficar exposto ao lado do Goya que o fadista recebeu em 2008 e do troféu da BBC Radio 3 atribuído a Mariza em 2001. 

“Temos a honra enorme de albergar estes prémios todos”, diz a directora.

Mas têm também, reforça Sara Pereira, uma responsabilidade acrescida na divulgação, promoção e, sobretudo, preservação deste património. Quando, a 27 de Novembro de 2011, a Unesco reconheceu o fado, ficou definido um plano de salvaguarda, assente em cinco eixos: criar uma rede de arquivos, reunindo o catálogo dos museus nacionais com acervo relevante para o fado; disponibilizar em formato digital os discos que ainda só existem em vinil; desenvolver um programa editorial com um número alargado de edições; fomentar um programa educativo, com vários protocolos com instituições do ensino superior, onde hoje o fado já existe como conteúdo formativo; e, por fim, divulgar roteiros com programação fora de portas, onde se incluem visitas cantadas aos bairros históricos da Mouraria e de Alfama.

De acordo com a directora do museu, estes propósitos têm sido fáceis de concretizar devido ao “diálogo muito estreito com a comunidade artística” e à participação das “estrelas” – como chama a todos os músicos de fado – na programação organizada pela sua equipa. Desde a abertura, há 16 anos, “foi um pressuposto central da nossa actividade incluir os fadistas e os músicos na programação e na salvaguarda do fado”.

Esse contributo tem dado vários frutos, entre eles a formação. “Temos uma escola de guitarra portuguesa e vários ateliers de canto e um fenómeno curiosíssimo, que até a nós surpreendeu, foi quando começámos a receber pedidos de estrangeiros para aprenderem a cantar fado e a tocar guitarra portuguesa”, conta Sara Pereira. E destaca um caso: “Tivemos um aluno japonês, que esteve aqui uns meses, voltou para o seu país e já editou discos de guitarra portuguesa. É impressionante a dimensão universal que o fado ganhou”.

O alcance além-fronteiras que se conquistou depois da elevação a Património Imaterial é evidente, mas a directora também aponta o acréscimo de visitantes nacionais desde 2011. “Até 2010 tínhamos uma fatia maior de visitantes estrangeiros. Com a consagração junto da UNESCO, o público nacional também passou a vir mais”, diz, realçando que o facto reflecte o “fenómeno tardio” do fado na nossa sociedade. “Os estudos académicos sobre o fado só surgem nos anos 80. Durante todo o século XX, a historiografia do fado é extremamente apologética ou, por outro lado, altamente crítica. Não há meio-termo”.

Na década de 1990, porém, desponta uma nova geração de fadistas (entre eles, Mariza, Cristina Branco, Katia Guerreiro, Ana Moura e Ricardo Ribeiro) e a inaguração do Museu do Fado ajuda a que o género conquiste, definitivamente, “legitimidade científica”. 

A par disso, nota Sara Pereira, há outro acontecimento fundamental na afirmação da canção nacional: a trasladação, em 2001, de Amália Rodrigues para o Panteão Nacional. “Amália, com a sua dimensão gigantesca, foi uma embaixadora da nossa cultura e com esse reconhecimento que o país lhe presta encerrou-se definitivamente o debate estéril à volta da legitimidade do fado como património central da nossa identidade”.

É por isso que a responsável não hesita em concluir que “o fado tem vivido um período extraordinário nos últimos dez, 15  anos”. E o Grammy a Carlos do Carmo reforça essa afirmação, permitindo sonhar-se com um prémio anual para o fado. Pelo menos, revela Sara Pereira, estão a decorrer conversações com a Academia Latina de Artes e Ciências Discográficas para que, todos os anos, o fado seja reconhecido entre o leque das categorias premiadas nos Grammys Latinos. Enquanto esse sonho não se torna realidade, o terceiro aniversário da inscrição do fado na UNESCO vai ser assinalado com duas iniciativas: a BD Tudo Isto É Fado, com textos e desenhos de Nuno Saraiva, incluída na Tabu durante as próximas semanas, e A Maior Casa de Fados do Mundo, no Mercado da Ribeira, que ontem recebeu um concerto de António Zambujo e hoje acolhe o de Mariza (30 euros), às 21h30.

alexandra.ho@sol.pt