Desporto

Fórmula 1 em luta de classes

Ocolapso da Marussia e da Caterham, equipas que em 2010 entraram na Fórmula 1 com a já desaparecida HTR e estão agora em risco para 2015, reacendeu a guerra dos pequenos contra os grandes por uma distribuição mais equitativa das receitas.

“Vamos perder mais equipas se as coisas continuarem como estão”, avisa Bob Fernley, da Force India, outra das escuderias, a par da Sauber e da Lotus, que vivem esmagadas pelo poderio da Mercedes, Red Bull, Ferrari, McLaren e Williams. 

Para Max Mosley, antigo presidente da FIA (Federação Internacional do Automóvel), a Fórmula 1 “já não é uma competição justa” e a única forma de a salvar passa pela “distribuição equitativa” dos 900 milhões de dólares que Bernie Ecclestone, o patrão do ‘grande circo’, reparte de forma desigual.  

“A Ferrari pode ficar em 10.º lugar que ganha sempre quatro ou cinco mais vezes do que a Caterham mesmo que esta conquiste o campeonato”, explica ao SOL Luís Vasconcelos, jornalista português que acompanha os Grandes Prémios ao vivo desde os anos 80. “Só a Red Bull e a Ferrari levam 45% dos 900 milhões de dólares. Force India, Sauber, Toro Rosso, Caterham e Marussia ficam com as migalhas”, acrescenta, em tom crítico.

Em 2014, a campeã Mercedes, que no último fim-de-semana, em Abu Dhabi, viu Lewis Hamilton carimbar o seu segundo título à frente do companheiro de equipa Nico Rosberg, terá investido para cima de 250 milhões de euros, uma verba que só a Ferrari e a Red Bull têm capacidade para acompanhar neste momento.

“O problema é que as grandes equipas têm muito mais dinheiro para gastar do que outras como a Marussia e a Caterham. Por isso as receitas deviam ser distribuídas por igual e depois cada uma arranjava os seus patrocinadores. Uma equipa como a Ferrari terá sempre mais patrocínios do que a Marussia”, sustenta Max Mosley, que no seu tempo à frente da FIA lançou a ideia de impor um tecto orçamental, tendo em vista um maior equilíbrio nas corridas.

Antes do arranque da temporada de 2014, o seu sucessor no cargo, Jean Todt, repescou essa intenção, mas voltou a esbarrar na intransigência não só das principais escuderias como de Bernie Ecclestone. Agora, perante o agudizar da crise, a entidade máxima do automobilismo reforça a necessidade de a Fórmula 1 “baixar custos para garantir a sobrevivência das actuais equipas e atrair novas”.

Ecclestone contra esmolas

Tudo isto parece entrar à velocidade de um Red Bull por um ouvido de Bernie Ecclestone e sair pelo outro como um Mercedes. “Todas as equipas querem ganhar e as que têm mais dinheiro gastam-no. Mas há algumas que parecem não perceber que alguém terá de ficar em último”, declarou há dias, arrasando a estratégia de crowdfunding (angariação de fundos online) da Caterham para se manter no activo: “É um desastre. Não precisamos de tigelas de esmola. Se vou jogar poker e não tenho dinheiro, tenho de sair”.

Nem a hipótese de a grelha de partida ficar reduzida a 18 carros ou até menos na próxima época – o que não acontece desde os anos 70 – coloca um freio na língua do octogenário. Mas as intervenções públicas de Ecclestone nem sempre reflectem as manobras que realiza nos bastidores.

“Ele dá uma no cravo e outra na ferradura, porque entretanto vai tentando encontrar soluções para essas equipas. Todas lhe devem dinheiro. Sempre foi assim”, salienta Luís Vasconcelos.

O jornalista acredita que em 2015 haverá 10 equipas e 20 carros em pista – ou seja, apenas se confirmará a desistência da Marussia –, mas traça um cenário preocupante da actual na F1. 

“Lá por haver 20 carros a situação não deixa de ser negra. A melhor demonstração das dificuldades para arranjar patrocínios é que a McLaren, pela primeira vez desde 1971, correu este ano sem patrocinador principal e ainda não o tem para 2015”, destaca o correspondente de várias publicações internacionais, antes de enumerar outros casos problemáticos: “A Lotus vive com o dinheiro do [piloto Pastor] Maldonado. Amanhã há uma revolução na Venezuela, os senhores deixam de pagar, ele sai da equipa e ficam sem dinheiro para pagar ordenados. A Force India vive do dinheiro de dois investidores indianos. Um está na cadeia há 10 meses, o outro está a perder todos os dias partes do seu império. E na Sauber o departamento comercial é uma desgraça desde que passou a ser gerido pelo filho do senhor Sauber”.

Céptico quanto à introdução de um tecto orçamental, por ser impossível fiscalizar todos os gastos das equipas no desenvolvimento dos carros, Vasconcelos defende a redução do custo dos motores como forma de amenizar as despesas de um desporto que tem vindo a perder audiência. Nos últimos anos, o número médio de telespectadores por Grande Prémio baixou dos 500 para os 350 milhões em todo o mundo, o que constitui mais um motivo de apreensão. 
Não chega, ainda assim, para Bernie Ecclestone apostar nas redes sociais como forma de atrair público jovem. “A maioria desses miúdos não tem dinheiro. Prefiro ter alguém de 70 anos com muito dinheiro a ver”, declarou recentemente, sugerindo o canal Disney para os publicitários que têm nos mais novos o público alvo. A F1 já teve dias mais animados.

rui.antunes@sol.pt