Opiniao

O descaramento pornográfico de José Magalhães e a crise do regime!

1.
O nosso texto de hoje deveria ser sobre o Congresso do PS que decorreu este fim de semana, em Lisboa. Contudo, uma incidência político-mediática de domingo à noite precipitou uma mudança da nossa resolução. Porque tal incidência revela, à exaustão, a virtude, o carácter e a ética de quem nos representa. De quem deveria ter como missão cimeira a defesa da dignidade e do respeito das instituições políticas democráticas. Só é respeitado quem se dá ao respeito – e os nossos deputados (com honrosas excepções) há muito que deixaram de se dar ao respeito. Um exemplo paradigmático da degradação moral da nossa Política foi protagonizado, no domingo, pelo deputado socialista José Magalhães.

O descaramento pornográfico de José Magalhães e a crise do regime!

2.
Após Marcelo Rebelo de Sousa revelar, no seu espaço de comentário semanal na TVI, que uma jovem de 16 anos (a qual visitara a Assembleia da República, em visita de estudo com a sua escola) escreveu uma missiva a Passos Coelho, censurando as actividades muitíssimo relevantes para o bem da Nação desenvolvidas pelos nossos excelentíssimos deputados durante as sessões plenárias. Estas actividades abrangem a consulta do facebook, ver “senhoras avantajadas”, contarem anedotas entre si, a visualização de vídeos do “youtube”, envolvendo cães e gatos em situações particularmente insólitas. Ui, que maçada, este trabalho parlamentar!
3.
Claro está que, face a esta intensa actividade parlamentar, a proposta, pela qual o PSD tem lutado há vários anos a esta parte, de reduzir o número de deputados dos (actuais) 230 para 180 – seria uma gravíssima ameaça ao Estado democrático e ao pluralismo político. O que seria do Parlamento da República Portuguesa se não pudesse contar com tão doutos admiradores de “senhoras avantajadas” e das minudências do facebook? Em outros tempos, o Parlamento – órgão máximo do poder legislativo e câmara de representação dos cidadãos – era o palco de confrontos político-ideológicos tão virulentos quanto intelectualmente sofisticados e argutos. Os grupos parlamentares agrupavam os ilustres cidadãos que mereciam a confiança dos seus pares para, através de procedimentos constitucionalmente consagrados, fazer valer os direitos de todos – corporizando, cada grupo parlamentar, distintas concepções sobre o bem comum.
4.
Actualmente, em virtude da enorme sofisticação desenvergonhada dos nossos deputados, temos, na nossa Assembleia da República, representantes de diferentes concepções sobre…a melhor maneira de levar uma vida hedonística, proferindo um conjunto de clichés políticos ou ideias feitas de vez em quando para receber uns aplausos dos sues camaradas e gritando “muito bem!!!” (como verdadeirascheerleaders avantajadas!) quando os respectivos líderes assim o solicitarem. E assim se é Deputado da Nação. Viva!
5.
Posto isto, dirá o leitor mais céptico: “que exagero! De certeza que os Senhores Deputados dão razão à jovem e tudo farão para que figuras tristes não se voltem a repetir na casa da Democracia” (expressão vulgarizada por Assunção Esteves). Lamento desapontá-lo: tal assomo de consciência e lucidez não atingiu os deputados – pelo menos, não atingiu José Magalhães.
6.
Este nosso Deputado, socialista (embora com uma passagem, relativamente longa, pelo PCP), em vez de dar razão às observações pertinentes e com consciência cívica da jovem, preferiu criticá-la: lança um “anátema sobre o nobre trabalho dos deputados”, alega. Em vez de condenar os seus colegas que, em vez de trabalharem, aproveitam as sessões plenárias para ver as “senhoras avantajadas”, José Magalhães prefere afirmar que “ Marcelo Rebelo de Sousa tem um problema com mulheres avantajadas”! Ui, que classe, que intelectualidade de vanguarda nos saiu este José Magalhães!
7.
Portanto, para José Magalhães,  o problema não é alguns deputados andarem a ver senhoras avantajadas na internet durante os trabalhos parlamentares – o problema é, apenas e só, alguém ter a desfaçatez de o denunciar! A pobre jovem de 16 anos, estupefacta com o que acaba de ver, que reclamar da falta de qualidade e ética de serviço pública de alguns dos senhores Deputados (sim, porque há deputados que trabalham!) é que é a culpada do ataque populista às digníssimas instituições do Estado! Mais: para o brilhantíssimo José Magalhães, os deputados devem gozar, em prol da democracia, do direito a ver senhoras avantajadas no Parlamento! É um novo conceito de prazer no trabalho! Os Deputados são mesmo uns visionários! Deve ser para ver se a inspiração chega aos Senhores Deputados, proveniente de belas fontes, com certeza…
8.
Enfim, José Magalhães é apenas o rosto visível da degradação moral e ética que grassa na política nacional. Com deputados assim, alguém se admira que Portugal tenha estado à beira da bancarrota? Com deputados como José Magalhães, alguém se admira que Portugal tenha tido um Primeiro-Ministro durante seis anos (!) que hoje é acusado de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal agravada?
9.
E para agravar o cenário (já bastante sombrio), há que ter, ainda,  em conta que José Magalhães  não é um jovem inexperiente – é um deputado histórico do PS. Ainda o autor destas linhas não tinha nascido – e já José Magalhães ocupava um lugarzinho na Assembleia da República de Portugal. Entretanto, muito já mudou, o mundo, a sociedade, a política sofreram mutações significativas – mas José Magalhães conserva a sua cadeira na Assembleia da República de Portugal. Se é verdade que o Mundo é composto de mudança, não o é menos que há algo que nunca muda: José Magalhães ocupa sempre um lugarzinho na Assembleia da República, entre as hostes socialistas.
10.
Terminamos hoje com uma confidência: quando recordamos a nossa feliz e saudosa infância, não podemos deixar de recordar duas figuras de barbas esbranquiçadas (ainda que, num caso, precoces), que resistiram sempre ao tempo. Uma é o Pai Natal; outra é o José Magalhães.

joaolemosesteves@gmail.com

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