Opiniao

Já não basta ganhar

Muita gente que durante a sua vida só tratou de assuntos ‘sérios’ – como a política ou a cultura – de há uns anos para cá começou a falar de futebol. Ao sabor da memória (e não ignorando que alguns já se retiraram) recordo os nomes de Pedro Santana Lopes, Fernando Seara, Rui Gomes da Silva, António-Pedro Vasconcelos, Alfredo e Eduardo Barroso, Telmo Correia, Rui Moreira, Júlio Machado Vaz e Guilherme Aguiar. 

Dá ideia que estas pessoas sempre gostaram de futebol e teriam gosto em discorrer sobre o tema – mas tinham vergonha de o fazer, por ser um ‘assunto menor’. Quando, porém, alguém deu o pontapé de saída, os outros soltaram-se, saíram do armário e passaram a falar do assunto sem complexos. Também fui apanhado nesta onda – e há seis anos o então director do Record, Alexandre Pais, convidou-me a publicar uma crónica semanal, que continuo a escrever com gosto. 

O futebol é um fenómeno poderoso, pois mexe terrivelmente com as emoções. Sofrem-se horrores a ver um desafio da equipa a quem entregámos o coração. E este bate por vezes tão forte que a ocorrência de uma síncope parece iminente. 

Certas pessoas calmas no dia-a-dia tornam-se explosivas num estádio de futebol e intratáveis a discutir as peripécias do jogo. Às vezes, nos debates na TV e na rádio, os intervenientes insultam-se e quase passam a vias de facto. Neste sentido, o futebol para muita gente é uma terapia – pois permite libertar ruidosamente, tempestuosamente, sem freios, emoções reprimidas. 

Este carácter altamente emotivo do futebol confere aos tiffosi (os ‘doentes da bola’) um elevado grau de irracionalidade. Da mesma forma que amam os seus ídolos, os adoram, os endeusam, num ápice passam a odiá-los.

É uma montanha russa. Com grande facilidade, um jogador ou um treinador passa de deus a diabo, de bestial a besta. Homens que num dia eram idolatrados, meia dúzia de dias depois são assobiados e insultados. Para os tiffosi, não há memória – o que conta é o resultado do último jogo. Quando um avançado falha um golo, ninguém se lembra dos golos decisivos que marcou – lembra-se só daquele falhanço; e quando um treinador perde um jogo, ninguém se lembra das noites gloriosas que proporcionou aos sócios. O futebol é assim: excessivo, implacável, sem memória.

Não peçam ao adepto de um clube para ser reflectido, racional e ponderado. 

Só que os responsáveis pelos clubes têm de o ser – e não podem ir atrás das multidões ululantes. A multidão não pensa – é imediatista, vingativa, ingrata. Mas os presidentes dos clubes têm de pensar, caso contrário estão tramados. 

Mais do que nunca, os clubes têm de ser geridos com racionalidade e não com emoção.

Uma prova eloquente disso teve lugar quando o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, aguentou o treinador Jorge Jesus contra a maioria dos adeptos, depois de ter perdido três títulos em 15 dias. E ganhou a aposta: no ano seguinte, o Benfica venceu tudo o que havia para vencer em Portugal. Vieira foi o último a rir. 

Caso diferente do de Jorge Jesus no Benfica foi o de José Mourinho no Real Madrid, que não lhe deu uma nova oportunidade. Mas Mourinho transferiu-se para Londres onde se ‘vingou’, pois lidera hoje o campeonato inglês com grande avanço.

As ideias de Jesus e Mourinho sobre o futebol são muito diferentes. Mourinho joga sobretudo para o resultado, não se importando de praticar um futebol «aborrecido», enquanto Jesus gosta de jogar para a frente, ao ataque, com «nota artística», como ele diz. 

Ambos têm razão. Os adeptos querem ganhar títulos e estão-se nas tintas para a ‘arte’ de saber jogar. Percebendo isto, Mourinho dá-lhes vitórias.

Mas, nos dias de hoje, o futebol tem outra face. As estações de TV, que transmitem os jogos para todo o mundo, querem espectáculos bonitos, jogos abertos, com golos, e não jogos fechados e monótonos. E cada vez mais as televisões serão as maiores clientes do futebol – e o futebol viverá dos milhões pagos pelas televisões. 

Ora, o estilo de jogo defendido por Jesus, podendo não ser tão eficaz, enquadra-se mais nestas exigências dos tempos modernos – apostando em jogar para a frente e marcar golos, em vez de defender e congelar o resultado.

No tempo em que as equipas jogavam apenas para os adeptos e sócios dos clubes, a qualidade do espectáculo era secundária. Mas as equipas já não jogam só para os adeptos – jogam para enormes audiências televisivas, que não torcem por qualquer dos clubes e querem ver bons espectáculos.

Há 50 anos, os grandes jogos de futebol eram vistos no máximo, em directo, por 100 mil pessoas – aquelas que se deslocavam ao estádio – e hoje são vistos por centenas de milhões. Os espectadores multiplicaram-se por mil – e o dinheiro também. E isto vai ter consequências radicais no modo como se encara o futebol. 

Vão ser muito mais valorizadas as equipas que praticam um futebol vistoso, aberto, com bonitas jogadas e golos.
Por que é que o futebol inglês ou o espanhol são hoje tão apreciados – e, inversamente, o futebol italiano é quase desprezado? Porque em Inglaterra e Espanha se joga esse futebol alegre com muitos golos – e em Itália jogou-se durante muitos anos um futebol muito defensivo.

Em Espanha, há duas décadas, o futebol também era assim, feio e fechado – mas depois houve um pacto que envolveu treinadores e presidentes de clubes para as equipas jogarem mais abertas. 

E esse pacto, além de ter conseguido levar mais pessoas aos estádios, foi decisivo noutro plano: a Espanha melhorou o seu futebol, tornou-se campeã europeia e mundial, e o seu campeonato é hoje um dos mais apetecíveis para as televisões de todo o mundo – com as consequentes receitas, que permitem aos clubes contratar grandes estrelas.

jas@sol.pt