Politica

Soares aos 90: Sampaio fala em 'homem essencial na democracia'

“Um amigo, um grande lutador e um homem essencial na democracia portuguesa”: é desta forma que o ex-Presidente da República Jorge Sampaio evocou Mário Soares, que no domingo celebra 90 anos.


Num depoimento à agência Lusa, por ocasião do aniversário do antigo chefe de Estado e cofundador do PS, Jorge Sampaio lembrou as “convergências e as divergências” que caracterizaram a sua relação com Mário Soares, num trajeto comum que começou muito antes do reencontro no partido de que ambos se tornaram figuras históricas.

“O meu trajeto e a minha relação com o doutor Soares vem de há muito tempo, desde os anos 60. Começa na crise académica e na revista ´O tempo e o modo´. Depois, foi ele com outro colega que organizaram a defesa dos réus implicados no assalto ao quartel de Beja. Eu tinha acabado de me tornar advogado e fiz parte dessa equipa que misturava grandes figuras da advocacia portuguesa e uns jovens advogados”, recordou.

É também nessa altura – de visitas assíduas ao escritório de Soares, na Rua do Ouro - que se começou a cimentar entre os dois “uma relação política intensa”. Também nessa altura, “deu-se uma separação de perspetivas quando foram as chamadas eleições na época do Marcelo Caetano em 1969” – que haveria de caracterizar a relação entre os dois nos anos seguintes.

“Eu fazia parte do grupo que designo por socialistas independentes (… ) em Lisboa houve esse rompimento das relações para as eleições de 1969, esse grupo já não concorreu em 1973 (…) Depois temos o 25 de Abril, a sua vinda para Portugal, o exílio em Paris e depois todas as matérias até eu entrar no PS em 1978 (…) numa conversa que eu chamo negociação entre o grupo intervenção socialista – assim chamado – e ele, entrámos grande parte das pessoas, cada um foi para as suas secções”, relatou.

“Foi em casa dele essa negociação, aquando do Governo PS-CDS de que nós discordámos e que ele levou para a frente”, acrescentou.

A convergência entre os dois históricos socialistas foi ganhando expressão e acabaria por levar a uma “ativa colaboração” na campanha para a Presidência da República, ganha por Mário Soares à segunda volta em 1986.

“Tenho muita honra disso, desde o primeiro momento acreditei que era possível a sua vitória. Empenhei-me nisso como me empenhei em todas as campanhas eleitorais, quer as que o PS perdeu, quer as que ganhou desde que entrei para o partido em 1978 (…) Lembro-me da campanha eleitoral dele, a primeira, fui com ele sozinho para o Alentejo (eu tinha defendido tantos presos políticos comunistas no tribunal plenário que naturalmente era capaz de ser alguém para mostrar, para algumas vicissitudes que nessa altura continham as campanhas presidenciais para a primeira volta)”, lembrou.

Confessando a “enorme admiração” que tem por Soares, Jorge Sampaio sublinhou a “relação de amizade e respeito” que “sempre existiu” entre ambos.

“Ele sabia que, dentro dos princípios humanos, eu era uma pessoa independente, mas que era obviamente um socialista ativo. E ele sempre respeitou a minha disponibilidade, embora tivéssemos escaramuças várias que o tempo foi sarando até eu o apoiar fortemente, primeiro naqueles momentos difíceis de eleições que o PS perdeu em 1979, 1980 e por aí a fora, e depois obviamente em todas as campanhas posteriores, inclusive a campanha que o levou à Presidência da República. E depois das vicissitudes da candidatura do general Eanes que também agravou algumas desavenças, mas depois tudo acabou por ser sanado”, apontou.

Para Jorge Sampaio, o cofundador do PS é, por isso, “uma figura completamente incontornável” da “criação e consolidação da democracia portuguesa”.

“Os mais sinceros parabéns. Chegar a essa idade com essa determinação de sempre é algo que continua a espantar a todos”, comentou.

Lusa / SOL