Vida

Em busca do iodo perdido

O que faz uma rapariga de 18 anos nos tempos livres? Vai ao matadouro mais próximo e pede tiróides de bois que já foram para abate. A intenção não é malévola, tão-pouco serve um qualquer rito demoníaco. As amostras de tiróide, semelhantes às dos seres humanos, foram levadas para laboratório e observadas com toda a atenção ao microscópio. A pergunta – é sempre por aqui, pelas perguntas certas, que começa o labor científico – era simples: por que será que a população açoriana tem menos aporte de iodo? Ainda por cima, a população das ilhas vive em zonas costeiras, onde se pensa que existe, de facto, mais iodo…

Situemo-nos então: a jovem, Anna Horman, alemã de nascimento e açoriana por ‘adopção’ – foi para lá em criança, com os pais – passou a infância em São Miguel e, no último ano de secundário, surgiu a ideia da turma de querer fazer algo de diferente para projecto de fim de ano, em Biologia. Juntou-se a outros colegas, entre as quais, Cândida Medeiros e Tânia Santos, com as quais participou na Mostra Nacional de Ciência, e tentaram perceber o que os cativava. “A Universidade dos Açores tinha uma série de temas à disposição e escolhemos este”, explica Anna ao SOL durante uma conversa no ISCTE, em Lisboa, onde hoje estuda Psicologia. “A ideia parecia interessante. Tínhamos visto um estudo que demonstrava que os Açores são a região do país com menos aporte de iodo”. 

Por esta altura o leitor comum já se interroga sobre toda a importância que aqui se está a dar ao iodo. Para simplificar, entre outras funções, duas hormonas produzidas na glândula da tiróide contêm iodo. O seu défice, nos seres humanos e noutras espécies, pode levar ao hipotiroidismo, que pode resultar no bócio ou no cancro da tiróide. E pode ser compensado com sal iodado. 

Mas o estudo que serviu de ponto de partida às três estudantes era claro: há um défice de iodo na população açoriana, um contra-senso se pensarmos que nas ilhas não há falta de clima costeiro. Não é assim que se passa neste arquipélago, pelo menos. A culpa é de um fenómeno conhecido como lixiviação dos solos, provocado pela chuva abundante, e que leva a que o iodo seja retirado dos terrenos. Além disso, as ilhas são vulcânicas, o que ajuda à não fixação do iodo.

Para investigarem a questão, as três amigas foram então ao matadouro. Trouxeram as amostras da tiróide de bois da espécie Holstein-Frísia – também conhecida como gado holandês, da qual há muitos exemplares nos Açores – pela sua semelhança às tiróides humanas. Dividiram-nas em dois grupos, um proveniente de estábulos e outro de pastagem. Ao grupo de estábulo é dada a quantidade de iodo normal e o outro é dependente do que o meio lhe oferece. Observaram-nas ao microscópio e verificaram que os bois de estábulo tinham folículos mais pequenos, um indicador de que “a sua tiróide funcionava melhor”, explica Anna. Já nos de pastagem era o inverso que acontecia – os folículos eram maiores e tinham menos iodo.

A utilidade desta descoberta pode levar a opções de nutrição importantes – “Se suplementarmos as vacas, e consequentemente a carne e o leite com iodo, isso seria benéfico para os seres humanos”, em vez de “essa compensação ser feita através de medicamentos”. Mas este trabalho, só por si, não é suficiente para chegarmos a conclusões. “A amostra era pequena, têm de ser feitos mais estudos”, inclusive em seres humanos.

Anna estuda agora algo que não tem muito a ver com este projecto. A Psicologia foi um apelo que sentiu pelo interesse que tem em seguir Educação Especial. De preferência, nos EUA. Esteve num intercâmbio internacional nos tempos de estudante do secundário no Canadá e ficou “a adorar os dois países”. 

ricardo.nabais@sol.pt