Cultura

Cruzeiro Seixas por Mário Cesariny

Dez anos depois da estreia do filme “Autografia – um retrato de Mário Cesariny”, de Miguel Gonçalves Mendes, foi apresentada ontem em Lisboa a reedição do livro “Verso de Autografia”, uma conversa entre o realizador e o poeta e pintor surrealista. A reedição do livro, um exclusivo Fnac à venda desde ontem, tem prefácio de Clara Ferreira Alves e inclui o DVD do filme vencedor do prémio de melhor documentário português na edição 2004 do Doclisboa. As receitas do livro revertem na íntegra para a realização do documentário “Não vivi, mas deixarei documentos desse não viver”, de Cláudia Rita Oliveira, sobre Cruzeiro Seixas.  

A noite na Cinemateca Portuguesa foi de homenagem a dois dos nomes maiores do surrealismo português. Segundo a realizadora, o documentário sobre Cruzeiro Seixas, ainda em fase de produção e que deverá estrear no próximo ano, “pretende resgatar a memória de uma figura incontornável do surrealismo português e do seu eterno desencontro com Mário Cesariny”. Durante a rodagem do documentário a realizadora teve acesso às cartas trocadas entre Cesariny e Cruzeiro Seixas, guardadas na Fundação Cupertino de Miranda, que guarda o espólio de Cesariny. 

“No discurso do Cruzeiro Seixas sentimos um permanente descontentamento, uma ambiguidade entre a doçura e a amargura, que o coloca num conflito interno permanente – com uma história que não pode deixar de ser contada”, nota Cláudia Rita Oliveira, para sublinhar que embora o filme não seja sobre a troca de cartas e a relação amorosa que os dois artistas mantiveram, “a presença de Mário Cesariny na vida de Cruzeiro Seixas é permanente.” 

Miguel Gonçalves Mendes, que está a produzir o documentário “Não vivi, mas deixarei documentos desse não viver”, frisa a importância de se preservar a memória colectiva através de registos únicos de duas personalidades ímpares. “Numa época em que tudo é tão voraz, é necessário triplicar o esforço para que não se perca a memória colectiva”, afirma. “O livro e os filmes são apenas pequenos contributos para resgatar esta memória”, acrescenta. 

sonia.balasteiro@sol.pt