Desporto

Fiéis na vitória e na derrota

Fundaram o Dortmund em 1909, deram-lhe o primeiro nome (Borussia) em homenagem à cerveja servida na taberna local, reconstruíram as instalações da equipa após a Segunda Guerra mundial, resistiram às dificuldades financeiras do clube nos anos 80 e compraram a maioria das acções em 2005. São os 'donos' do Dortmund e não é uma crise de resultados que os afasta do estádio. Nem mesmo quando o clube ocupa os últimos lugares da Bundesliga.

Mais de 80 mil pessoas formam habitualmente uma enorme 'muralha amarela' de adeptos nas bancadas do Westfalenstadion. Não há nada igual em todo o mundo. A comunhão com os jogadores parece total, até quando os pupilos de Jürgen Klopp estão a sentir na pele a lei de Murphy. Ao contrário do que acontece na Liga dos Campeões, está tudo a correr de mal a pior no campeonato.

O Dortmund soma oito derrotas em 14 jornadas, tem mais golos sofridos do que marcados (15-21) e está caído no 14.º lugar, com dois pontos de vantagem sobre o último classificado. Uma posição que já ocupou, após a derrota no reduto do Eintracht Frankfurt (2-0). 

Aquela que era até há bem pouco tempo uma das equipas mais entusiasmantes da Europa, que se sagrou bicampeã alemã em 2011/12 e foi finalista vencida da Champions na época seguinte, hoje luta para fugir aos lugares de despromoção. 

Nada que belisque a relação com os fiéis adeptos do clube. 'E se caíres, eu estou contigo', podia ler-se numa tarja que exibiram recentemente no estádio e que fizeram questão de divulgar nas redes sociais. 

As saídas de jogadores importantes para o Bayern Munique, como Robert Lewandowski e Mario Götze, aliadas a uma recente vaga de lesões, parecem estar na base do falhanço interno. Uma crise profunda que deixou Jürgen Klopp na mira das críticas e de alguns assobios.

“Compreendo a insatisfação. Mas se os adeptos só querem vencer, têm apenas uma escolha: tornar-se adeptos do Bayern Munique”, afirmou o técnico alemão, numa farpa aos rivais. 

O pedido de demissão, garante, não lhe passa pela cabeça. Desistir está fora de causa. “Não tenho pensado em mais nada que não seja trabalhar. Não tenho um buraco onde me possa esconder”, atirou. 

Cerveja para afogar a crise

Jürgen Klopp é por norma um técnico divertido, foi capaz de se rir quando desceu de divisão com o Mainz, o clube onde se estreou como treinador, mas provavelmente não terá achado piada à provocação do Schalke 04.
“Continuem a fazer scroll. Vão encontrá-los em breve”, escreveu o emblema de Gelsenkirchen no Twitter, ao publicar a imagem da tabela classificativa quando o rival passou pelo último lugar. 

Mas, fiel ao seu estilo, Klopp tem tentado dar a volta à situação com momentos de boa disposição. E quem acabou por pagar a factura foi o plantel às suas ordens. Como pedido de desculpa aos adeptos pela humilhante classificação, os jogadores tiveram de trabalhar como empregados de balcão na tradicional festa de Natal promovida pelo clube na semana passada. Além de terem servido cervejas a mais de mil sócios, ainda estiveram durante duas horas e meia e dar autógrafos.

Um castigo - ou terá sido terapia? - que já deu frutos. Na última jornada da Bundesliga, o Dortmund venceu em casa o Hoffenheim (1-0) e passou a lanterna vermelha, de último classificado, ao Estugarda. Uma vitória muito festejada pela direcção na tribuna e pelos jogadores no relvado. A 'muralha amarela' agradeceu com uma música natalícia cantada a plenos pulmões, sob juras de fidelidade eterna. Na vitória e na derrota.

hugo.alegre@sol.pt