Opiniao

Noventa

Mário Soares cumpriu 90 anos há duas semanas e disse numa entrevista a Clara Ferreira Alves o que pensava sobre as críticas aos velhos e à sua incapacidade de perceber o mundo de hoje: “Já reparei nisso. O ataque aos velhos. Estão no seu direito. Um dia também vão ser velhos e não é nada fácil!”. Acrescentaria que com alguma sorte, mas a verdade é que estou de acordo com Soares neste ponto. Raramente será uma sorte. A dificuldade da vida na velhice é pouco falada numa sociedade que se angustia quando cumpre uns meros 50 ou 60 anos. Se vive mal aos 50, como será aos 90? Não sei se me interessa a resposta, mas estou certa de que ser velho implica uma luta constante entre a mente que ainda percebe e o corpo que responde pouco. Uma seca de todo o tamanho, pela qual ainda temos de ser gratos porque pior só mesmo a morte. Gostei do desassombro de Soares e da sua desromantização da velhice. Não é nada giro nem divertido. É uma chatice. Parabéns.

Farage e as mulheres

Tudo começou com uma hóspede no Claridge's, em Londres, a amamentar o bebé no restaurante. A mulher estava sentada quando um empregado do hotel lhe pediu para se tapar com uma toalha. O incidente teria ficado por um pedido de desculpas do hotel depois de ser insultado pelas associações em prol da amamentação se não fosse a opinião expressa por Nigel Farage, líder do UKIP. Farage, que nunca tem graça quando fala de mulheres e imigrantes, declarou numa entrevista que as pessoas de gerações mais velhas se sentem muito incomodadas quando vêem uma mulher a amamentar em público e que o Claridge's até podia mandado a senhora amamentar a criança “num canto da sala”. As críticas não se fizeram esperar com mulheres de todos os cantos do mundo a mandar Farage sentar-se num canto. Para se defender afirmou que tinha dito que era uma prerrogativa do hotel fazê-lo e não a sua opinião. Como se diz em Portugal: perdeu uma óptima ocasião para ficar calado.

Devolvam já

Boris Johnson escreveu no Telegraph sobre o empréstimo da estátua de Ilissos, sem cabeça, que faz parte dos Mármores de Elgin, ao Museu Hermitage, em São Petersburgo. O empréstimo causou um enorme mal estar na Grécia e críticas foram feitas ao governo inglês por estar a fazer um favor a Putin num momento em que há um embargo à Rússia. Johnson argumenta, com razão, que o governo não decide sobre o destino das obras de arte do British Museum, que é autónomo e livre de emprestar o que entender. Se por um lado é de louvar a autonomia do museu em relação ao Governo, é por outro um pouco ingénuo acreditar que o efeito da decisão na opinião pública seria outro. A polémica em torno da devolução dos Mármores à Grécia é já quase tão antiga como aquelas pedras, não parece ter uma solução imediata à vista e fazer sair uma peça importante logo para a Rússia não deixa de ter um significado político só porque a burocracia varia. Os Mármores são gregos.

Os informáticos

O canal FX está a exibir as temporadas da série britânica de humor The IT Crowd, traduzida acertadamente por Os Informáticos. É a terceira série de sucesso de Graham Linehan, co-autor de Father Ted (série de culto, embora um pouco datada, de 1995-8) e de Black Books (que escreveu com o excelente Dylan Moran, em 2000-4). Em exibição de 2006 a 2013, The IT Crowd surge num momento em que os departamentos de informática passam a fazer parte das empresas. Na Reynholm Industries, esse departamento fica depreciativamente na cave, onde trabalham Maurice Moss (Richard Ayoade) e Roy Trenneman (Chris O'Dowd), um geek e um desastrado, os dois informáticos liderados por Jen Barber (Katherine Parkinson), a directora que não percebe nada de computadores. Os episódios são hilariantes e a série consegue até melhorar quando o presidente da empresa, Denholm Reynholm, se suicida e é substituído pelo filho, Douglas (Matt Berry). Absolutamente a não perder.

Deitar cedo

Um novo estudo em terapia cognitiva concluiu aquilo que há muito qualquer pessoa sensata sabe: quanto mais tarde te deitas, mais pensamentos negativos terás. O estudo baseado num inquérito a cem alunos universitários sobre os seus hábitos nocturnos também revelou que a tendência para a preocupação está associada à privação do sono em geral. Os que se deitavam por volta das dez da noite tinham menos queixas sobre pensamentos negativos insistentes. A maioria que se deitava à uma da manhã queixava-se de não se conseguir livrar de pensamentos nefastos. Apesar da sensatez do resultado - isto para quem acredita que os seres humanos têm uma enorme aptidão para fazer mal a si próprios - a verdade é que não é conclusivo. As preocupações podem ser precisamente o motivo por que é tão difícil adormecer e os pensamentos negativos não dão sono a ninguém. Assim, voltamos à estaca zero: quem não tem preocupações, adormece depressa e bem. Assim também eu.