Vida

Um à vez, é a conta que a caixa fez

Chegados a certa idade, todos sabemos o que nos espera – uma lista de problemas causados pelas debilidades do corpo e da alma que, de repente, quase sem aviso, se tornam nos nossos piores inimigos (sem falar no rendimento mensal, tão débil quanto o organismo). Mas há mais um contratempo a juntar à lista. Pouco se fala disso, mas a memória e a organização do mundo também nem sempre correspondem à realidade. A toma regular de medicamentos sofre com isso. Será que já ingerimos o comprimido certo? Não teremos falhado um ou outro a meio do dia?

A pensar nestas situações, um grupo de alunas da Escola Profissional de Rio Maior, sob o impulso de uma ideia de uma profissional de saúde, decidiu aliar a saúde à tecnologia. Nada de muito complicado: afinal, as ideias querem-se simples e úteis. Com tantos sistemas electrónicos de alerta que existem por aí, não seria possível conciliar um deles com uma caixa de medicamentos? Sim, é claro. Neste caso, chama-se SmartKit (a caixa inteligente). “É uma caixa de medicamentos inovadora, com compartimentos para sete dias por semana”, explica Jéssica Marques. Cada um desses compartimentos só se abre uma vez, à hora correcta da toma, e nenhum outro se abre, para não haver enganos desagradáveis. Por isso, continua Jéssica, “o paciente só vai conseguir tomar o medicamento àquela hora”.

É claro que mesmo a electrónica mais sofisticada é falível. Daí que o sistema inclua uma espécie de dispositivo de precaução e, caso aconteça uma abertura forçada de outro compartimento ou uma falha no dispositivo, a SmartKit envia um sinal de alerta ao cuidador da pessoa. O sistema informa ainda da não toma por parte do medicamentado, a fim de se poderem tomar acções relativas a tal acontecimento (nomeadamente ligar ao avôzinho com a hipótese de algo de grave lhe ter acontecido).

Para Anabela Figueiredo, uma das professoras que completam o trio conhecido pelos alunos como ‘dream team’ – juntamente com Maria João Maia e Cristóvão Oliveira – e que está envolvida em todos estes trabalhos premiados, “todos os nossos projectos começam com uma necessidade”. Este compensa várias necessidades, segundo as suas criadoras: “Evita a automedicação e a sobretoma”, atesta Jéssica Marques.

A outra Jéssica do grupo, a Santos, recorda o espanto de quem passou pelos stands do projecto nas diversas mostras científicas pelas quais a SmartKit se passeou. O grupo começou por concorrer ao prémio de ciências médicas lá da escola e, de repente, viu-se numa verdadeira digressão mundial. No ano lectivo passado, começaram pelos pontos nacionais, com a presença (e o 2.º lugar) na Mostra Nacional de Ciência, além de um prémio Inovação na Feira Ilimitada da JuniorAchievement Portugal. Houve ainda tempo para o galardão de Ideia Mais Inovadora na EmpreEscola.

A originalidade do projecto foi ainda reconhecida na 25.ª final europeia do EUCYS em 2013, o Concurso Europeu para Jovens Cientistas. E, já este ano, foram à Holanda para alcançar mais um lugar no pódio, uma medalha de bronze ex-aequo no Concurso de Ciência Mundial. Nada mau para o currículo de quem ainda frequenta o ensino médio e para a perspectiva futura das três alunas – Jéssica Santos quer ir para enfermagem, Jéssica Marques para Serviço Social e Soraia Gaspar para Medicina ou Medicina Dentária. Como quase todos os grupos aqui retratados, confessam ter tempo para tudo. Jéssica Santos é bombeira e toca clarinete na banda filarmónica local; Jéssica Marques dedica-se à natação fora do tempo de estudo e Soraia confessa-se de gostos simples: “Gosto de tudo o que tenha a ver com saúde e também com as compras”.

Por alturas do fecho desta edição, a equipa SmartKit foi convidada, uma vez mais, pelo Ministério da Educação a integrar a mesa do top 6 dos projectos nacionais levados a Braga por ocasião do que melhor se faz de inovação nas escolas nacionais. 

ricardo.nabais@sol.pt