Internacional

A queda do Muro de Havana

Jorge Bergoglio comemorou na quarta-feira 78 anos e soprou as velas de um bolo em plena Praça de São Pedro. Mas o argentino teve uma prenda bem mais doce: o anúncio, quase em simultâneo, do início de conversações para se restabelecer as relações diplomáticas entre Havana e Washington, por parte de Raúl Castro e de Barack Obama, um dia após estes terem falado ao telefone durante uma hora. Foi o coroar da capacidade diplomática e política do Papa Francisco, ao fim de meses de mediação secreta, a qual foi reconhecida pelos dois líderes durante as alocuções que fizeram. 

Sabe-se agora que em Março, durante a visita do Presidente norte-americano ao Vaticano, durante a hora em que estiveram reunidos à porta fechada, este foi um dos temas. Mas não o único: o apaziguamento social da Venezuela, o encerramento da prisão de Guantánamo ou a colaboração da Turquia na luta contra o Estado Islâmico são assuntos em que a Santa Sé e os Estados Unidos coincidem e que têm Bergoglio como mediador.

O sucesso da mediação do pontífice traduziu-se na libertação de três cubanos condenados nos EUA em 2001 (os que ainda cumpriam pena do chamado ‘grupo dos cinco’) por espionagem, conspiração e inclusive por terem contribuído para o derrube de duas avionetas de um grupo anticastrista em 1996. Em troca foi libertado um cubano cuja identidade não foi revelada, mas que estava preso na ilha quase há 20 anos por espionagem. A sua acção permitiu aos serviços secretos norte-americanos identificarem altos quadros que trabalhavam como toupeiras para Havana. E Raúl Castro comprometeu-se a libertar 53 presos políticos. 

Na mesma ocasião, foi também libertado, “por razões humanitárias”, o norte-americano Alan Gross, funcionário da Usaid, agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, detido em 2009 e condenado a 15 anos de prisão por importar tecnologia proibida e tentar estabelecer um serviço clandestino de internet. 

Além da troca de cidadãos presos, prevê-se a reabertura das embaixadas. Obama anunciou ainda que, dentro da sua esfera de poder, irá facilitar as viagens e o comércio para a ilha e que irá fazer por apagar o nome de Cuba da lista negra de países patrocinadores de terrorismo. “Numa das nossas mais significativas mudanças de política em 50 anos, vamos terminar com uma abordagem datada que, durante décadas, falhou em atingir os objectivos”, anunciou Obama, que recordou ter nascido dois anos depois de Fidel Castro ter chegado ao poder. “Nem os norte-americanos nem os cubanos estão bem com esta política restritiva baseada em factos que aconteceram antes de a maioria de nós termos nascido”.

Canadá antes do Vaticano

As negociações entre EUA e Cuba não se iniciaram com a mediação do Papa. Segundo o New York Times, as conversações iniciaram-se há 18 meses, no Canadá. E o encontro fugaz mas simbólico de Obama e de Castro nas cerimónias fúnebres de Nelson Mandela não terá sido uma coincidência. 

Também nada foi deixado ao acaso no discurso em directo na TV de Raúl Castro. De uniforme militar e com os retratos de três heróis da independência cubana (José Martí, Antonio Maceo e Máximo Gómez) em fundo, o irmão de Fidel elogiou Obama (“merece o respeito”) e transmitiu vontade de “conviver na diferença”, mas lembrou: “O principal está por resolver: o bloqueio económico e financeiro, causador de enormes prejuízos económicos ao nosso país, deve cessar”. 

Apesar da abertura revelada pelo regime cubano, Raúl fez questão de afirmar o objectivo de construir um “Estado socialista próspero e sustentável”.

A bola está agora nas mãos da oposição norte-americana (ver texto ao lado).

cesar.avo@sol.pt