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'Cuba não fez o mesmo tipo de exigências que Fidel Castro teria feito'

O dissidente cubano Juan Reinaldo Sanchéz, ex-guarda-costas de Fidel Castro, disse à Lusa que a mudança de relações entre Washington e Havana podem ajudar a "perpetuar" o regime "afectado" pela debilidade económica.

'Cuba não fez o mesmo tipo de exigências que Fidel Castro teria feito'

Para Reinaldo Sanchéz, 65 anos, exilado em Miami, Estados Unidos, desde 2008, o acordo anunciado por Barack Obama sobre o restabelecimento das relações diplomáticas entre Washington e Havana só foi possível porque a economia cubana está cada fez mais degradada mas, sobretudo, porque Fidel Castro está muito debilitado. 

"Fidel ainda não morreu, encontra-se num desses momentos em que o grave estado de saúde não lhe permite sequer mostrar-se em público ou expressar-se", diz Juan Reinaldo Sanchéz, em entrevista por escrito à Lusa.

Para o antigo guarda-costas de Fidel Castro, é preciso considerar que o líder histórico cubano sempre foi "muito intransigente" sobre as relações com os Estados Unidos e que sempre que o assunto era abordado acabava por levantar obstáculos muito difíceis de transpor, como por exemplo a entrega da base naval de Guantánamo ao governo cubano ou o levantamento incondicional do embargo. 

"Agora aceitou, penso que -- de certeza - muito contrariado, este restabelecimento das relações com os Estados Unidos porque não tem outra alternativa. Todos sabemos que a queda do preço do petróleo vai afectar consideravelmente o governo da Venezuela que é o Estado que mais apoio económico concede a Cuba", considera Shanchéz.

Tudo indica, afirma Juan Reinaldo Sanchéz os compromissos entre a Venezuela e Cuba vão ser afectados até porque Havana, neste momento, já não tem onde ir pedir auxílio económico.

"Por isso, Cuba não fez o mesmo tipo de exigências que Fidel Castro teria feito no passado aos Estados Unidos". 

Para o dissidente cubano, o governo da ex-União Soviética abastecia Cuba desde os anos 1960 até à queda do Muro de Berlim (1989) "com tudo o que era preciso" e o governo cubano apenas se dedicou, acusa, a desenvolver planos económicos e sociais que apenas deram benefícios económicos aos altos dirigentes, os mesmos "que acabaram por dar uma imagem distorcida da realidade cubana".

"O povo continuou a sofrer das mesmas carências de que sofre hoje em dia. Os três grandes problemas económicos que o povo cubano enfrenta nunca foram resolvidos: a habitação; a alimentação e o transporte. E, quem pode assegurar que agora com as novas relações entre Cuba e os Estados Unidos não se vai manter tudo igual?" -- questiona o dissidente.

Os Presidentes dos Estados Unidos e de Cuba anunciaram este mês o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países. 

O embargo a Cuba foi imposto pelos Estados Unidos em 1962 depois da fracassada invasão da ilha coordenada pela CIA, os serviços de informações norte-americanos, na Baía dos Porcos em 1961.

Juan Reinaldo Sanchéz é autor do livro "A Face Oculta de Fidel Castro" lançado este ano em Portugal com as memórias do guarda-costas do líder cubano e incluiu além das questões internas de Cuba, relatos do envolvimento de Havana na guerra civil de Angola, desde a "Operação Carlota" em 1975 até à batalha do Cuíto Cuanavale, no final dos anos 1980.

O livro tornou-se polémico porque o antigo guarda-costas de Fidel Castro revela que a cúpula do regímen de Havana promoveu redes de tráfico de droga nos anos 1980 com ligações à Colômbia e ao Panamá como forma de financiamento da revolução.

Lusa/SOL

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