Opiniao

O sexo está mais perto do sonho do que da realidade

O problema é meu, reconheço. Quando conheço um homem de negócios, político ou até jornalista vestido com fatos cortados em alfaiates ou comprados em lojas de quatro dígitos, dou-lhes um desconto. Não os levo a sério porque parecem sempre parecer, levitam de confiança nos espelhos e quase nunca no que eles não mostram. Mas talvez seja mesmo despeito, uma pequena inveja ou um grande preconceito. Ou talvez não.

Ou, alternativa terrível, uma grande dor de cotovelo. Será? Seria terrível se o fosse. A propósito de cotovelos talvez não se recorde de que o elefante é o único animal com quatro joelhos e o único a morrer de pé - como se lhes fosse impossível dobrarem-se perante a própria morte. Desconheço se a tromba lhes anuncia a vinda do mais profundo dos sonos, se os prepara para o fim, dizem-me ser impossível mas não apostaria. Sabemos que com ela, habilidade de circos mais cultos, são capazes de virar as páginas de um livro, um espanto. Os outros mamíferos, com dois cotovelos, deveriam invejar esta capacidade de os elefantes serem o que mais ninguém é, cobiçar a maravilha que é cair de pé e acabar sem qualquer dor de cotovelo.

Atenção, não é um problema de consciência ou de falta dela. Não é como fazer amor, como sonhar ou acordar a meio da noite sem saber exactamente onde estamos. Essas sim, são categorias que raramente se incluem nas coisas de que temos consciência. Não somos necessariamente outros (só às vezes), também não somos necessariamente nós (só quando está a correr mal). Sim, é exactamente isso o que quero dizer: o sexo está mais próximo do sonho do que da realidade. E mais vale dormir quando assim não é.

Como é que dos quatro cotovelos do elefante vim parar aqui? Um psicanalista explicaria bem, pelo menos tão bem como se lhe perguntasse das razões que levam determinadas pessoas a procurar quem as salve, um erro primário, de desesperado principiante. Porque se procurarmos uma pessoa que nos salve, não podemos escolher quem precisa de ser salvo. É uma impossibilidade, um delírio romântico que acabará mal. Dois anjos caídos de asas murchas, alimentarão o outro com as suas sombras e o seu passado. Com a soma de duas sombras nascerá uma sombra ainda maior, ainda mais pesada, ainda mais dolorosa. É matemático, mas talvez alguns de nós não estejam aqui para ser salvos, talvez prefiram caminhar em brasas e escolher caminhos tortuosos. Se não fosse assim procurariam quem lhes oferecesse o que não têm, uma luz contra a sombra.

Pelo menos, tenho essa convicção. Aceitar o que não temos, quisemos ou desejámos é um complexo desafio quando nos somamos a uma outra pessoa. E ao envelhecermos mais difícil se torna a aceitação do que não somos - o que não é um problema quando, jovens e utópicos, somos por dentro um palácio com muitas divisões por ocupar. Depois, por desilusões ou desgaste do tempo, o que era palácio transforma-se no T0 onde nem mais um prego cabe. Deixamos de aceitar o que não nos pertence. Até que alguém, se tivermos sorte, nos convença a fazer uma limpeza geral.

A esta altura uns poucos entre os que se atreveram a chegar aqui (ou tiveram a paciência para o fazer), podem pensar que isto de falar do envelhecimento (ou da morte) não é tema para o Natal. Por acaso, discordamos. Não há altura em que coabitem tão bem as crianças com os ausentes, os risos de futuro com o silêncio da memória do passado. E ainda bem. É bom ouvirmos as conversas e termos uma memória viva.

Um pouco como os cemitérios, não há aliás lugar mais vivo do que esse. Por entre ciprestes de raízes pouco profundas, túmulos, valas e jazigos, sabemos muito dos vivos e nada dos mortos. Nas suas lágrimas ou na ausência delas. Na disposição arquitectónica. Nas flores escolhidas. No revolver da terra, nas conversas, na forma de luto e de caminhar. Os nossos mortos não estão ali, apenas nós no que temos de contradições e pensamentos. Quando ali vamos não é a eles que procuramos, o que procuramos é somente um sinal do que perdemos, do que nos falta, do que em nós é ausência.

É Natal. E acreditem que, depois destes anos de crónicas, seria capaz de oferecer um copo do meu melhor vinho a cada um dos que me têm seguido no SOL. Não vos poderia oferecer um copo de uma garrafeira, mesmo que bebesse nunca a teria. Porque ao somar livros ou filmes penso que os melhores me acompanharão até ao fim - jamais tal seria possível se guardasse garrafas de vinho; esperariam apenas pelo momento de ser bebidas. Invisto então numa garrafeira de uma só garrafa a quem ofereço a responsabilidade de ser única. O que daria para fazer o mesmo com as palavras e o resto. Descobrir uma que abarcasse o mundo, um livro que tudo me dissesse, um filme que tudo me permitisse ver. Poderia então deixar-me ficar. Ou talvez partir. É desse vinho único que vos ofereço, não tenho melhor.