Vida

Réveillon com sabor a Brasil

Ainda faltam alguns dias para a passagem de ano, mas no Rio de Janeiro, Brasil, a folia já fervilha: aquele que se auto-intitula como o maior réveillon do mundo começa muito antes das 12 badaladas.

Nas ruas da cidade carioca, há muito que foram afixados cartazes publicitando as festas pré-réveillon, o 'aquecimento' para a noite do virar do ano.

“As pessoas reúnem-se em qualquer lugar. Na rua, nas discotecas, nas comunidades, nos clubes e bares, ao som do ritmo que mais se gostar. Pode ser samba, pagode, rap”, descreve Sandra Farias, guia turística no Rio de Janeiro há oito anos.

“De 15 de Dezembro a 2 de Janeiro é sempre a celebrar e as festas pré-reveillon são só um motivo para fazer mais festa. Há um clima diferente. As pessoas relaxam mais até pelo espírito natalício e pela esperança de um novo ano”, acrescenta.

Com o Verão à porta, as temperaturas ajudam. Na cidade maravilhosa, a quadra festiva é sinónimo de praia e bronze, de corridas no Calçadão com shorts e barrete de pai Natal, de chinelo no pé, de muito chope geladinho. “É o calor que nos dá mais liberdade, até para ficar na rua a noite toda. Vamos para a praia, à noite saímos, bebemos”, resume Sandra.

Também é por isso que a 31 de Dezembro a praia de Copacabana e a Avenida Atlântica se transformam no grande salão de festas dos brasileiros. Mais de dois milhões rumam aos areais.

“É uma festa das grandes massas. Quando falamos em receber umas Olimpíadas ou mega-eventos desportivos, na verdade já fazemos isso quando concentramos tanta gente numa única festa todos os anos”, realça o Secretário de Estado de Turismo do Rio de Janeiro, Claudio Magnavita.

Este ano, os festejos terão um gostinho especial: assinalam-se os 450 anos da Cidade Maravilhosa e até foi criada uma marca exclusiva para a ocasião. Haverá 16 minutos de fogo-de-artifício à meia-noite e três palcos onde, até às três da manhã, actuarão artistas como Titãs, Seu Jorge, Maria Rita, e várias baterias de escolas de samba. “Vira um Carnaval”, sintetiza Sandra Farias. “São 16 minutos de uma energia fantástica. Naquele tempo, ninguém pensa em coisa ruim. Você sente a vibração”.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Turismo, são esperados 816 mil turistas (mais 6% do que em 2013), que movimentarão 650 milhões de dólares (530 milhões de euros). Além dos visitantes que chegam de outros estados do país, há muitos europeus, chilenos, argentinos. O Brasil também é um dos destinos favoritos dos portugueses para dar as boas-vindas ao ano.

“Réveillon e Carnaval representam 40% da facturação anual na hotelaria, porque são diárias médias mais elevadas. Há uma mobilização total, sobretudo em Copacabana. É uma das maiores festas do planeta”, explica Claudio Magnavita.

Na onda do misticismo

Noutros oito pontos da cidade - como Madureira, Flamengo, Ilha do Governador ou Penha - também haverá animação. Mas aí será uma festa virada para o mar. Por exemplo, há quem vá ao banho para se despedir e deixar a carga negativa do ano que finda. Ou os que optam pelo mergulho no primeiro dia para receber o ano com energia positiva. E alguns não dispensam o hábito de saltar sete ondas para ter bons agoiros.

A influência da cultura afro-brasileira explica os cultos a Iemanjá, a deusa dos mares, que se multiplicam nos últimos dias. Como oferendas, são deixadas na água flores, velas, perfumes.

Nas derradeiras refeições do ano muitos brasileiros comem lentilhas. Diz-se que trazem dinheiro e sorte. Por ser um alimento que cresce, faz as pessoas crescer também, acreditam. Já na festa da passagem de ano propriamente dita, impera a roupa branca para celebrar a paz. Mas a roupa interior deve ser amarela se se quiser atrair riqueza. Ou vermelha, para chamar amor e paixão, mandam as tradições e o misticismo que caracteriza o povo brasileiro. Também é comum, por exemplo, consultar-se o astrólogo para antecipar o que lhes trará o novo ano.

“Vamos ter uma cartomante ou uma taróloga na nossa festa de réveillon”, antecipa o director-geral do hotel Vila Galé Rio de Janeiro, Carlos Maia. Os hóspedes serão maioritariamente brasileiros. Mas vão passar o ano duas vezes. Por ser uma empresa portuguesa, farão um brinde quando Portugal entrar em 2015, duas horas antes da cidade carioca.

Já no Porto Bay Rio Internacional, a festa será na cobertura, com vista para Copacabana e o fogo-de-artíficio nas alturas. “Teremos cerca de 20 nacionalidades no hotel”, prevê o responsável do grupo madeirense no Brasil, Cláudio Santos.

Com as unidades hoteleiras praticamente esgotadas, os cruzeiros são outra opção. Muitos ficam ao largo para ver o espectáculo. Seja onde for, a festa está garantida.

“Temos o costume de dizer que, no Brasil, o ano só começa depois do Carnaval. Assim que passa o réveillon, entramos no pré-Carnaval e a ideia é ir 'aquecendo'. As escolas de samba intensificam os ensaios e, como é Verão, a cidade fica mais iluminada, as pessoas ficam mais expostas. Sendo início de ano, parece que os problemas ficam meio atenuados até passarmos o Carnaval e voltarmos à realidade”, remata Sandra Farias.

ana.serafim@sol.pt