Sociedade

‘Jornalistas são uma arma para os extremistas’

A morte de jornalistas na Síria às mãos do Estado Islâmico (EI) marcou 2014, mas os números divulgados pelo Comité para a Protecção dos Jornalistas mostram que no ano passado morreram menos repórteres em trabalho do que em 2013. Apesar da redução, segundo a organização sediada em Nova Iorque, de 70 (2013) para 60 mortos (2014), o assunto não deixa de preocupar os profissionais da informação.

“Infelizmente continuam a morrer muitos jornalistas. Há locais onde é difícil um repórter entrar e os que conseguem, como os que trabalham em regime freelance, estão desprotegidos perante ataques e situações de violência”, nota Maria João Ruela, pivot da SIC que em 2003 foi atingida a tiro no Iraque, onde estava em reportagem.

No ano passado, cinco jornalistas perderam a vida no Iraque. Três deles cobriam os confrontos entre o Governo iraquiano e aliados contra o EI. Mas cabe à Síria, pelo terceiro ano consecutivo, o estatuto de país mais fatal para jornalistas: só em 2014 morreram 17 profissionais. Desde 2011, ano em que começou o conflito naquele país, 79 repórteres foram assassinados. “Os jornalistas são hoje uma arma ao serviço dos grupos extremistas, porque dá-lhes visibilidade”, frisa Ruela, recordando a morte de James Foley, freelancer norte-americano decapitado pelo EI, em Agosto.

O Comité para a Protecção dos Jornalistas investiga ainda outras 18 mortes para determinar as causas. Alguns destes repórteres mortos não tinham vínculo a qualquer órgão de comunicação.

“É difícil para uma empresa de comunicação enviar repórteres para zonas de conflito porque implica uma logística significativa e tem custos consideráveis, como as despesas com os tradutores e a segurança dos jornalistas”, explica a jornalista da SIC. “O que o mundo acaba por ver é o trabalho destes repórteres locais que vendem os seus trabalhos às agências depois de os conseguirem por sua conta e risco”, frisa.

Cândida Pinto, jornalista da SIC/Expresso, já passou por várias zonas de conflito. No ano passado, esteve em Gaziantep, na Turquia, junto à fronteira com a Síria, região frequentada pelos jihadistas e por sírios fugidos da guerra. A quantidade de jornalistas mortos em trabalho deve obrigar a uma reflexão, alerta. Mas é categórica: “Nada substitui o jornalista no local”.

ricardo.rego@sol.pt