Internacional

Europa vacila nas sanções à Rússia

O Presidente francês defendeu no domingo o fim das sanções ocidentais à Rússia, juntando-se assim ao vice-primeiro ministro alemão que já mostrara o receio de ver a crise financeira de Moscovo a alastrar-se para a Europa: “Não sou adepto da política de atingir objectivos tornando as situações mais difíceis, defendo que as sanções devem terminar de imediato”, disse Hollande em entrevista à rádio France Inter.


“Queremos ajudar a resolver o conflito na Ucrânia, não deixar a Rússia de joelhos”, comentara horas antes Sigmar Gabriel. O líder dos socialistas alemães e número dois do Governo de coligação de Angela Merkel avisou que a degradação da economia russa pode gerar “uma situação ainda mais perigosa para todo o Mundo”.

França e Alemanha suavizam assim a retórica europeia na antecâmera de nova ronda negocial entre Rússia e Ucrânia, que decorrerá na próxima semana em Minsk, Bielorrússia. Conversas que deverão ter como representante da União Europeia a chanceler alemã, que terá como missão demonstrar a independência europeia face aos Estados Unidos, depois de Moscovo ter reagido à última ronda de sanções com o ministro dos Negócios Estrangeiros a confessar ter “sobrevalorizado a independência da UE em matéria de Política Externa”. 

“Putin não quer anexar o Leste da Ucrânia. Tenho a certeza, ele disse-me”, afirmou François Hollande na entrevista de domingo. Hollande mostrou-se solidário com o que diz ser a principal preocupação do seu homólogo russo – “a ideia de Putin é não ter um exército junto às suas fronteiras”, disse referindo-se ao desejo ucraniano de se juntar às fileiras da NATO. “Putin quer permanecer influente e garantir que a Ucrânia não se torna um membro da NATO”, disse o francês.

Paris tem em risco um negócio bilionário com Moscovo na venda de dois navios de guerra, cuja entrega foi suspensa em Novembro pelo Governo de Hollande. Pressionado pelos parceiros europeus e norte-americanos para cancelar a venda, Hollande tem resistido pelo impacto que o negócio pode vir a ter nas contas já apertadas do seu Governo: além da potencial receita perdida, o contrato de venda prevê uma penalização de vários mil milhões de dólares caso não seja concretizado e o próprio adiamento já está a ser pago pelos contribuintes franceses.

O dinheiro está também no centro dos receios europeus em torno da crise russa, cuja moeda desvalorizou em níveis recorde durante 2014, o que, aliado à redução drástica do preço do petróleo, já levou o Banco Central da Rússia a prever uma recessão superior a 4% para o ano que agora se inicia. 

O maior sindicato de agricultores franceses já demonstrou a sua preocupação face às sanções russas que atingem a importação de alimentos da UE (e outros países que se juntaram às sanções a Moscovo, como EUA, Canadá ou Austrália). E, principalmente, os Governos europeus temem as consequências que os bancos do Velho Continente sofreriam em caso de colapso do sistema bancário russo.

nuno.e.lima@sol.pt

 

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