Politica

Joana Amaral Dias: ‘As pessoas não vão comer melhor com a união da esquerda’

Saiu do BE em ruptura e integra o ‘Juntos Podemos’, movimento que recolhe assinaturas para se transformar em partido. Sócrates, diz, é problema do PS e não da esquerda. 

Joana Amaral Dias pertenceu ao BE Miguel Silva

O ‘Juntos Podemos’ recolhe assinaturas para se transformar em partido, mas a decisão será tomada mais tarde. O que vos pode impedir de ir às urnas?

Nós somos um movimento e em condições nenhumas funcionaremos como partido. Existe a possibilidade de concorrermos às eleições. Mas mesmo com as assinaturas, podemos chegar à conclusão que não temos enraizamento popular. A partir de agora vamos estar concentrados em alargar a nossa base social. 

Recusam admitir que são de esquerda ou de direita. Onde estão?

Esta linguagem da esquerda e da direita é insuficiente para explicar o que se passa neste momento, caso contrário não tínhamos em Espanha as ruas cheias no 15 de Março e semanas depois a urnas cheias de boletins de voto na direita, nas eleições europeias. 

O Livre vai tentar puxar o PS mais para a esquerda. Vê uma solução de esquerda sem o PS?

Não somos tão crédulos como o Livre. Não acreditamos que o mundo vai mudar e que podemos fazer outra política com este Tratado Orçamental. Mas acho o discurso da união à esquerda completamente escaganifobético. Não sei exactamente o que se pretende unir. Onde está a esquerda? Estão a falar do PS? O PS é de esquerda? O ‘Podemos’ espanhol não se uniu ao PSOE. As pessoas não vão comer melhor ou criar melhor os seus filhos com a união de esquerda. As pessoas estão a viver muito abaixo das suas possibilidades e os partidos muito abaixo das suas responsabilidades. É para isso que precisamos de respostas. 

Não poderiam ter mais força eleitoral ao lado do PCP ou do BE?

Não queremos casar. Tanto o PCP como o BE estão concentrados na sua vertente eleitoralista e não em fazer regressar a questão ao social e em perguntar às pessoas como é que elas se podem organizar para se imporem na escolha do modelo económico em que vivemos, na luta contra a corrupção e por mais democracia.

Esta desunião à esquerda não pode ser útil a António Costa para justificar uma aliança com o PSD? 

Se o PS não tiver maioria absoluta é da sua inteira responsabilidade, pelo lastro de destruição que deixou no país. O PS falhou na oposição à escalada e ao galope do capital e da especulação financeira. Se o PS falhar a maioria, a culpa é de quem luta contra isso?

O PS de Costa é diferente do PS de António José Seguro?

Há uma coisa que eu sei: António Costa não é diferente daquilo que o PS tem sido até agora. Além disso, prefiro alguém que fala com frontalidade das suas propostas, como Seguro, e não quem se resguarda de uma forma que não acho de democrata. Costa não apresentou as suas ideias e não as trouxe para terreiro, quando faltam poucos meses para eleições.

Costa irá travar o ‘menino’ Passos Coelho, como a Joana pediu no Novo Rumo do PS, no tempo de Seguro? 

Alguém que aventa a possibilidade de se unir ao PSD – nem sequer é preciso concretizar – obviamente que não vai travar nada. Só vai pôr achas na fogueira. 

A prisão preventiva de José Sócrates afecta toda a esquerda?

Afecta sobretudo o PS, que não pode ficar nem na via de Costa, que faz um Congresso e não fala do assunto; nem na via de Sócrates, que quer transformar um caso de Justiça num caso político, lavando roupa suja na praça pública. O PS tem de fazer uma reflexão sobre os seus problemas.

Foi a primeira notável a sair do BE. Teve razão antes do tempo?

O BE, que apareceu como partido/movimento, tornou-se num projecto com pouca democracia interna, com pouco debate interno e com pouca possibilidade de enraizamento popular. Esgotou esta possibilidade no meio de quezílias cristalizadas. O BE é hoje uma sombra do que foi.

‘Líder aparecerá a seu tempo’

Joana Amaral Dias é uma das fundadoras do ‘Juntos Podemos’. Na entrevista ao SOL, a ex-deputada do BE surgiu acompanhada por Carlos Antunes, outro dos fundadores, por decisão da comissão dinamizadora do movimento inspirado no ‘Podemos’ espanhol, de Pablo Iglesias.

 A questão da liderança não se coloca para já. “Somos um colectivo de trabalho”, asseguram. Mas a pergunta impõe-se: Acreditam que um movimento pode ter força eleitoral sem um líder? “O líder aparecerá a seu tempo”, explica Amaral Dias. “O líder vai emergir e será tão extraordinário quanto mais jovem for”, acrescenta o co-fundador. 

Carlos Antunes – ex-PCP e fundador, com Isabel do Carmo (que apoia agora o Livre), das Brigadas Revolucionárias para a luta armada contra o fascismo, em 1970, e depois do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado) –, afasta-se à partida do comando do movimento que pode vir a ser partido. Amaral Dias é mais cautelosa: “Não afasto a possibilidade de ser líder, mas a liderança vai emergir naturalmente”.

ricardo.rego@sol.pt