Opiniao

A ferramenta no centro das nossas vidas

No ano de 1989 ou 1990, os meus pais visitaram o Japão, à data um dos países mais avançados do mundo. No álbum que documenta essa viagem, há uma fotografia tirada nas instalações da Toyota que mostra um super-computador. Parece uma geringonça digna de um filme de ficção científica: tem o tamanho do cockpit de um avião e uma quantidade de botões comparável.

 

A ferramenta no centro das nossas vidas

Na altura os computadores eram tão complexos e dispendiosos que ninguém imaginava que poderiam vir a tornar-se objectos triviais. Além disso, desempenhavam tarefas muito específicas, como cálculos ultra-complexos, e só um técnico altamente especializado se podia aventurar a operá-los.

Mas aos poucos estes aparelhos foram-se tornando mais baratos, mais pequenos, fáceis de usar e úteis para as pequenas tarefas do quotidiano. Paulatinamente, começaram a substituir as máquinas de escrever e de calcular nos locais de trabalho.

Se de início só os chefes tinham direito a computador pessoal (mesmo que não o usassem), aos poucos o privilégio foi alastrando a outros escalões da hierarquia. Hoje, em muitas profissões há um computador em cada posto de trabalho. Nos hospitais, nas lojas, nas fábricas, nos centros de investigação e nas repartições públicas eles ocupam um lugar central. Se o 'sistema' falha ou avaria, os serviços ficam paralisados e viram um pandemónio.

Mas não é só nos locais de trabalho que os computadores se tornaram indispensáveis. Também o são em casa, como instrumento de lazer. Seja para ouvir música, para ver filmes ou séries, para fazer compras, para comunicar com os amigos, para jogar ou até para pedir comida. Já se pode viver sem sair de frente do ecrã - e há quem o faça. Além disso, os computadores servem ainda de arquivo fotográfico, de biblioteca, de centro de estudos, de central de informação e de pólo de comunicações. São a verdadeira ferramenta multifunções dos tempos modernos e tocam quase todas as esferas da vida.

Nos primórdios da revolução tecnológica, muitos autores previram a revolta dos robôs contra os humanos, tornando-se aqueles os novos senhores. Esse cenário felizmente nunca se concretizou, nem se prevê que venha a acontecer. Mas, numa época em que muitos de nós passam tantas horas por dia a olhar para um monitor como a dormir, talvez corramos outro risco. Damos por garantido que somos nós que dominamos as máquinas, mas será mesmo assim? Talvez não. De facto, tornámo-nos tão dependentes destes aparelhos que, na relação entre o homem e o computador pessoal, já não é muito claro quem é o escravo e quem é o senhor.

jose.c.saraiva@sol.pt

 

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