Sociedade

Sócrates: Dinheiro saiu da mesma conta

O dinheiro da conta do BES titulada por Carlos Santos Silva que está no centro da Operação Marquês foi usado exclusivamente para suportar despesas relativas a José Sócrates, segundo se depreende da análise feita pelos investigadores aos movimentos bancários daquele empresário, amigo do ex-líder socialista.

Segundo uma fonte conhecedora da investigação, Santos Silva possui outras 15 contas em diferentes bancos. Mas a do BES – para onde Santos Silva transferiu cerca de 20 milhões de euros, em 2010, que estavam no UBS da Suíça e que se suspeita serem de Sócrates – foi movimentada exclusivamente para satisfazer as entregas de dinheiro em numerário ao ex-primeiro-ministro (cerca de um milhão de euros em três anos) e comprar o apartamento em Paris e as casas da sua mãe.

Segundo o SOL apurou, estas conclusões terão sido obtidas por levantamento do sigilo bancário ainda antes da detenção de Santos Silva e de Sócrates, há cerca de um mês e meio, ambos sob suspeita de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Vendas simuladas

Como o SOL então revelou, as autoridades judiciais suspeitam que o empresário serviu de testa-de-ferro a Sócrates, permitindo-lhe ocultar ‘luvas’ que terá recebido nos dois mandatos em que esteve à frente do Executivo. Esses rendimentos ilícitos rondarão os 20 milhões de euros, que os inquiridores suspeitam terem sido colocados a partir de 2005 na Suíça, numa offshore em nome de Santos Silva, com o intuito de encobrir Sócrates, cujos rendimentos oficiais não justificavam semelhante fortuna. Em 2010, esses 20 milhões foram transferidos para o BES, em Portugal, graças ao perdão fiscal então decretado pelo próprio Governo de Sócrates (que implicou um pagamento ao Fisco de apenas 5% daquele valor).

Segundo a mesma fonte, com os elementos recolhidos em diversas buscas, articulados com os que foram acumulados durante um ano e meio de investigação, o Ministério Público está já na posse de provas que considera satisfatórias para deduzir acusação contra os dois amigos, por evasão fiscal e branqueamento de capitais, cujas molduras penais são superiores a cinco anos de prisão.

Terá sido a partir da conta do BES que, logo a seguir à derrota de Sócrates nas legislativas de 2011, Santos Silva investiu no património imobiliário pertencente à mãe de Sócrates, Maria Adelaide Monteiro. Suspeita-se que terão sido vendas simuladas, para branquear a origem de parte do dinheiro que o ex-primeiro-ministro tinha em nome do amigo.

Da referida conta no BES saiu, a 6 de Junho de 2011, uma verba de 100 mil euros para comprar a Maria Adelaide um apartamento no Cacém, que se encontrava devoluto. Um mês depois, Santos Silva, utilizando a mesma conta, fez um negócio ainda menos atractivo com outro apartamento (este arrendado) da mãe do amigo na mesma zona, por 75 mil euros. Em ambos os casos, Maria Adelaide e Santos Silva foram representados pelo advogado Gonçalo Ferreira, funcionário do empresário e igualmente arguido neste processo. Entretanto, Maria Adelaide foi colocando em tranches, na única conta oficial do filho, na CGD, o dinheiro proveniente do negócio.

Apenas alguns dias após a venda do segundo apartamento do Cacém, morreu o outro herdeiro de Maria Adelaide, António Pinto de Sousa. Foi também da referida conta no BES que foram levantados 10 mil euros em notas, depois depositados na conta de João Perna, motorista de Sócrates, que pagou o funeral. João Perna, aliás, alternava com Santos Silva e Gonçalo Ferreira as entregas em dinheiro vivo ao patrão. Ao ser confrontado com a documentação apreendida, no interrogatório, confirmou que a sua conta também era utilizada para o esquema de branqueamento de capital, assumindo que guardara facturas das despesas, nomeadamente essa, da agência funerária.

‘Empréstimos’

Da mesma conta no BES saiu o capital para Santos Silva comprar por 600 mil euros o único bem de grande valor que restava a Maria Adelaide: o apartamento no edifício Heron Castilho, vizinho ao de Sócrates. E, em 2012, a ex-mulher de Sócrates, Sofia Fava, sem rendimentos, obteve do BES a totalidade do capital necessário para comprar uma herdade no Alentejo, por 760 mil euros: teve como avalista Carlos Santos Silva, que deu como garantia a conta por si titulada no mesmo banco.

Quase em simultâneo, e utilizando o mesmo método, Santos Silva fez novo investimento: comprou o apartamento em Paris, à beira do Sena, por 2,8 milhões de euros. Ou seja, num ano, só em imobiliário – incluindo as obras no apartamento de Paris, que Sócrates dirigiu, escolhendo ele próprio os materiais –, foram 3,5 milhões de euros.  Tanto Santos Silva como o ex-primeiro-ministro admitiram nos interrogatórios que o total que saiu da conta do BES serviu para “empréstimos” ao último.

Em 2013, perante o ‘fantasma’ da bancarrota do BES, Santos Silva retirou 10 milhões e pô-los  noutro, que passaram a servir para os mesmos fins. O dinheiro era levantado em notas e estas eram entregues a Sócrates num simples sobrescrito. Desde o início da Operação Marquês (pouco mais de um ano), os investigadores interceptaram telefonemas em que pedia dinheiro ao amigo e assistiram a mais de 40 entregas, totalizando 400 mil euros.

Foi do mesmo ‘bolo’, aliás, que saiu a verba para os amigos de Sócrates comprarem 10 mil exemplares do seu livro (A Confiança no Mundo - Sobre a Tortura em Democracia), após o lançamento deste, em Outubro de 2013.

Sócrates continuou a gastar dinheiro dessa conta mesmo depois de passar a receber 12 mil euros mensais da multinacional farmacêutica Octapharma. Uma offshore em Londres de Joaquim Lalanda de Castro, representante da farmacêutica em Portugal, pagava-lhe outros 12 mil euros, suspeitando os investigadores que se trataria de outra forma de o antigo líder do PS conseguir ter mais dinheiro na sua conta oficial.

felicia.cabrita@sol.pt