Opiniao

Os bustos de FMR

A exposição presente até 12 de Abril no Museu Nacional de Arte Antiga merece ser vista por vários motivos, um deles tem que ver com o seu carácter de excepção. A colecção de Franco Maria Ricci, uma figura importante da década de 80, designer e editor, apesar de ter começado por estudar Geologia, sai de Itália pela primeira vez. Portugal tem a oportunidade de ver em primeira mão cem obras de pintura e escultura dos séculos XVI a XX da colecção privada deste excelente coleccionador italiano, também conhecido por ser o editor da famosa revista FMR, na qual muitos catálogos de antiquários e revistas de marcas de luxo se terão inspirado. Das várias obras expostas, destacam-se os bustos em mármore e em terracota, como um busto de mulher de inícios do século XIX, atribuído a A. Riffard, que ganha vida renovada em cima de um cubo azul celeste, e o busto da mulher do escultor Jean-Antoine Houdon. Não me lembro de ter visto uma mulher sorrir em mármore.

Excesso de luz

A semana foi má para os que gostam de ir para a cama com os seus electrodomésticos atrás, nomeadamente o smartphone e o tablet. A luz azul concentrada dos ecrãs permite uma leitura agradável antes de adormecer. Mas segundo um estudo realizado no Brigham and Women's Hospital, em Boston, é precisamente esta luz que emana dos aparelhos um dos principais responsáveis pela dificuldade em adormecer e por um acordar pouco enérgico. O estudo concluiu que a luz suprime a melatonina, a hormona que regula o sono, e tem um impacto negativo no ritmo circadiano. Na verdade, esta informação não é nova. Já um estudo em 2012 indicava que os utilizadores destes aparelhos com a luz azul segregavam menos melatonina após duas horas de utilização dos aparelhos. As boas notícias vão para os fabricantes do Kindle e para as editoras que publicam livros em papel. Quem diria que o argumento do 'faz mal à saúde' salvaria uma indústria que tantos davam como extinta?

Saudades da Guerra Fria

O Fox Crime é um canal de televisão por cabo capaz de nos oferecer o pior e mais velho do que é produzido nos Estados Unidos, mas que por distracção ou algum conceito perverso de programação de vez em quando também nos oferece séries extraordinárias. The Americans é uma dessas maravilhas viciantes de qualidade superior. Neste tipo de séries é raro vermos complôs originais e de resolução imprevista. Mas, nesta série, isso acontece em todos os episódios. Os espiões e assassinos russos que vivem como se fossem americanos e combatem o FBI e a CIA, que por sua vez não são anjos nenhuns, continuam a sua rotina nesta segunda temporada. Keri Russell e Matthew Rhys interpretam os papéis do casal de espiões brilhantes e pais preocupados. Noah Emmerich, um agente do FBI eficaz, continua o seu romance extraconjugal com a espertíssima agente dupla soviética, Nina Sergeevna, interpretada pela inescrutável Annet Mahendru. É aos domingos, não percam.

O cancro não joga aos dados

Na semana passada vários jornais nacionais e internacionais anunciaram na primeira página a notícia de que o cancro é afinal uma questão de 'má sorte' pela simples razão de dois terços dos casos não terem uma causa detectável. A conclusão precipitada disto foi a de que fumar não causa cancro. O Guardian denunciou esta irresponsabilidade jornalística. O artigo científico, esse sim um artigo sério, referia as variações de risco de ter cancro mas não ao risco absoluto de padecer da doença. Os fumadores continuam a ter mais 18 vezes de possibilidades de terem cancro do que os não fumadores. Isto significa que 75% dos doentes com cancro no pulmão são fumadores. Embora não tenha números seguros, o mesmo acontece com a cirrose e os alcoólicos. Dito isto, um consumidor regular de tabaco ou álcool, no caso de lhe ser dada a péssima notícia de que lhe foi diagnosticado um cancro, não terá o direito de perguntar surpreendido: 'Eu? Mas porquê eu?'.

Talibã no LinkedIn

Uma das dificuldades dos dias de hoje parece estar em saber como exactamente e onde são recrutados os terroristas. As mesquitas dizem que não é nada com elas e o Facebook apaga tudo o que lhe parece suspeito, a começar por imagens de mulheres a amamentar. Uma notícia no Telegraph deu o alerta sobre outra rede social com que nos devemos preocupar: a rede profissional LinkedIn. Ehsanullah Ehsan, líder talibã procurado pela tentativa de assassínio de Malala Yousafzai, tem um perfil com cerca de 70 ligações, o que revela alguma actividade. Como será a descrição profissional no seu currículo? 'Especialista em Malala'? Ou talvez 'Tentativa de assassínio de uma rapariga de 15 anos em Outubro de 2012'? Talvez não fosse má ideia mudar o discurso para um mais positivo 'Fazedor do Nobel da Paz de 2014'. Mas será uma linguagem compreensível para os outros talibãs que por ali andam? Há uma recompensa pela captura de Ehsanullah Ehsan. Qual é o contacto?