Opiniao

Um Alentejo diferente

Em Montargil, a escassos 800 metros da barragem, vamos encontrar os terrenos do Monte da Raposinha, propriedade que está nas mãos da família Sousa desde os finais do século XVIII. Ladeadas pela ribeira do Sôr, estas terras são férteis e a sua constituição foge um pouco à regra do comum ‘terroir’ alentejano. Vamos aí encontrar zonas calcárias, outras onde predomina uma mistura argilo-xistosa e ainda partes de calhau rolado denunciando terras de aluvião.

 

Quem lidera hoje a exploração é a família Ataíde. Maria do Rosário, filha de Pedro Sousa a quem este, em criança, chamava de ‘raposinha’ (daí o nome da propriedade) e o seu marido Nuno, um juiz apaixonado pelos vinhos, pela gastronomia e pela música, entregaram-se de alma e coração ao projecto, ajudados pelo seu filho João e pela enóloga Susana Esteban.

Dos 14 ha do Monte da Raposinha saem sobretudo tintos (a produção de brancos é de 20%) e chegam ao mercado 100 mil garrafas, com 60% a seguirem o caminho da exportação. 

Feitas as apresentações, partamos então para as provas acompanhadas por um almoço de caça da autoria do juiz Ataíde, que se mostrou também douto nesta matéria. Chegou-nos ao copo o Monte da Raposinha 2013 que assume a gama de entrada. De aroma frutado, frescura e equilíbrio, estagiou em barricas usadas de 3.º e 4.º anos. Um vinho muito apelativo que apetece ir repetindo. Seguiu-se o Athayde Grande Escolha 2011 que evidenciou complexidade e manifestou frescura, elegância e uma grande boca. Estagiou em barricas de 1.º e 2.º anos (especialmente nestas últimas). 

Finalmente, a jóia da coroa, o Furtiva Lágrima de 2010 e que assume o nome de uma ária de Donizetti. Com estágio de 18 meses em barricas novas, distingue-se pela sua complexidade, boca longa e persistente, com notas de fruta e taninos suaves. Nota máxima dada aos tintos, mas não podíamos deixar passar em claro um branco que alegrou as entradas: o Athayde Reserva 2013. Os oito meses em barricas usadas estão presentes e revela também equilíbrio, frescura e elegância. É um vinho muito gastronómico.

Resumindo: vale bem a pena beber e saborear estes vinhos do Monte da Raposinha em terras de Montargil. 

jmoroso@netcabo.pt