Opiniao

A cegonha

Parece que as cegonhas que fazem o trajecto Paris-Lisboa estiveram atarefadas no último trimestre do ano que passou. Contra todo o tipo de adversidades ao nível do tráfego aéreo português, noticia-se já em 2015 que em 2014 houve mais entregas – perdão! nascimentos – que em 2013. Não terá sido, certamente, pelas excelentes condições de trabalho oferecidas às cegonhas, pelo reconhecimento do seu papel fundamental para a natalidade ou pela facilidade de utilização da rede de transportes públicos para conseguir aceder aos lares de quem encomenda bebés às cegonhas. Um mistério. 

Se ter um bebé fosse tão simples como pedir a uma cegonha que nos entregasse um vindo de Paris (já nascido e de preferência registado para ter outra nacionalidade e evitar o processo burocrático), talvez fosse muito mais fácil do que de facto é, decidir levar avante uma gravidez em Portugal. Mas como somos católicos e nos nossos ensinamentos está subjacente a ideia de que a graça divina chega de igual forma quer aos últimos, quer aos primeiros, resta-nos aprender a dançar a valsa de mil tempos que é o ‘sistema’ e manter o bom humor. E fazer tudo com um sorriso nos lábios. 

Sem querer alargar-me muito, posso garantir que parir em Portugal é muito mais que uma tarefa hercúlea, é uma espécie de martírio voluntário por um Bem Maior. Entre o SNS e a SS (que sigla divertida, hein?!), a maternidade reserva-nos experiências inesquecíveis!...

Cantou a Simone que ‘(...) Quem faz um filho, fá-lo por gosto (...)’ e eu pergunto: então e quem o tem?

A assistência proporcionada pelo SNS, que insistimos em dizer que é óptima só porque é gratuita, e porque o pessoal gosta do que é de graça, é na verdade vergonhosa, insuficiente, incompleta (especialmente no capítulo dedicado à amamentação) ineficaz e muito, mas muito estilo ‘mínimos olímpicos’; depende inteiramente do brio dos profissionais de saúde que ainda estão interessados em honrar o Juramento de Hipócrates e é tão estável como um castelo de cartas. Uma das coisas que mais me impressionou ao utilizar o SNS foi perceber que o aburguesamento generalizado do português (aquilo do ‘viver acima da média’ que está na origem da crise) e a sua consequente demissão da cidadania activa, em muito contribuíram para a degradação dos serviços, uma vez que a transferência da dependência passou do serviço público para o privado. Percebi isso de cada vez que entrei em qualquer serviço para consultas, exames ou urgências, embora tenha tido a sorte de, ao longo de toda a minha experiência pelos caminhos do SNS, sempre me ter cruzado com gente maravilhosa, que na medida do possível me tratou bem e procurou certificar-se que estaria sempre tudo como deve estar: bem. 

Portugal trata as suas mães – que afinal são muito poucas, mas para as quais não há recursos – abaixo de cão. Não se lhes disponibiliza a oportunidade de ter filhos de mente tranquila. Conheci demasiadas mulheres que assumiram que a maternidade lhes iria arrasar a vida profissional e que escolheram deliberadamente abdicar de um processo laboral evolutivo em prole da única carreira verdadeiramente duradoura, com admissão imediata e progressão garantidas: a Maternidade. Um cliché demasiado real para ser só um mau exercício de estilo.

Durante o 2014 atarefado das cegonhas, percebi que engravidar é sobretudo um acto social na medida em que uma barriga chega sempre primeiro que nós aos sítios e que isso incomoda mais do que faz rejubilar, pelo que também fui forçada a perceber que a ausência de políticas responsáveis relativamente a este assunto começa a repercutir-se na população em geral e na forma como se tratam as tontas que ainda querem ser mães neste país. Passei a associar como consequência directa o efeito visão em túnel da população às políticas governamentais pró (que mais parecem anti) natalidade, que na prática são tal e qual uma ‘bad trip’. 

No país onde outrora uma Natália (ironia do destino, o nome?) exaltou o poder matricial da mulher, há quem olhe para este ligeiro aumento do número de nascimentos como a hipótese de se inverter o movimento ‘ribanceira abaixo’ da nossa taxa de natalidade.  

É aguardar. 

Com isto tudo, resta agradecer a quem inventou que os bebés vêm de Paris e que quem os traz é uma cegonha. Imaginemos que os bebés vinham de fora do espaço Schengen e que ainda tínhamos de pagar os custos de desalfandegamento à Autoridade Tributária e Aduaneira, que ainda por cima abre as nossas encomendas antes de nós!... Era o que faltava!

trashedia.com