Opiniao

Um alemão

Assisti na passada segunda-feira à conferência organizada pelo Diário Económico com Klaus Regling, presidente do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MES). O MES é o mecanismo permanente de resolução de crises da Zona Euro, que entrou em actividade em Outubro de 2012. Basicamente o MES emite dívida a custo baixo (com spreads apenas ligeiramente superiores aos da Alemanha) para poder fornecer empréstimos e outro tipo de ajuda financeira aos estados da Zona Euro. Trata-se pois de um instrumento destinado fortalecer a estabilidade financeira na Zona Euro como um todo. Klaus Regling é, assim, um actor muito importante ocupando, se quisermos, o segundo lugar na 'hierarquia financeira' da Zona, a seguir ao presidente do BCE. O seu balanço sobre as lições da crise era pois aguardado com interessante.

Um alemão

Para mim, contudo, foi sobretudo interessante verificar como Regling é um exemplar acabado daquela que parece cultura económica dominante na Alemanha, que tem um acentuado carácter normativo. Foi como se tivesse a escutar Schauble ou Weidmann. Licenciado por Hamburgo, mestre por Ratisbona (coincidentemente a mesma universidade onde o Cardeal Ratzinger, depois Papa Bento XVI, leccionou durante anos), desenvolveu o grosso da sua carreira no ministério da finanças alemão (se bem que com interregnos no FMI).

Manifestou-se muito reticente à ideia lançada no debate por Vítor Bento de que a Zona necessitaria de mais gestão macroeconómica agregada e não tanto (ou apenas) de gestão financeira país a país. Foi também céptico relativamente à necessidade de os ajustamentos na Zona serem simétricos, combinando a austeridade dos devedores com a expansão dos credores. Finalmente, revelou-se insensível ao chamado 'paradoxo da poupança' ou da agregação ou seja, à ideia de que aquilo que é virtuoso para cada Estado-membro per se pode revelar-se perverso colectivamente. Restou-me a convicção de que com estes protagonistas a Zona Euro só muito lentamente se reformará.

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