Internacional

Islão crítico

“Pas d'amalgame” (sem confusões) foi uma das frases de ordem das manifestações em França. Em alturas como esta nunca é demais destrinçar muçulmanos (ou maometanos ou islamitas) dos islamistas (isto é, de quem se revê no Islão político) e entre estes da minoria extremista que pode abraçar o jihadismo ou o terrorismo. Da mesma forma há que identificar e separar as personalidades e movimentos críticos do Islão ou do islamismo.


A tarefa não é fácil quando se fala do movimento Patriotas Europeus Contra a Islamização do Ocidente, Pegida. Por um lado afirma-se contra o fanatismo religioso, mas por outro o próprio nome denuncia que só se mostra contra um tipo de fanatismo. Surgiu há três meses em Dresden, uma cidade da Saxónia, no Leste alemão, com um número baixo de muçulmanos. Também eram poucos, umas duas centenas, os manifestantes do primeiro encontro. Na última segunda-feira reuniram-se 25 mil pessoas, e em desafio à chanceler. É que na mensagem de Ano Novo, Angela Merkel apelou para que os compatriotas não seguissem “quem convoca as manifestações, uma vez que os seus corações estão cheios de preconceitos, frieza e ódio”.

Num país marcado pelos totalitarismos nazi e comunista, o extremismo anti-islamista foi recebido com alarme por parte da classe dirigente. O jornal mais popular, o Bild, fez uma petição que recolheu dezenas de assinaturas de personalidades contra o Pegida. Mas as sondagens demonstram que as ideias defendidas pelo movimento - fim à actual política de asilo e de imigração e preservação da sociedade na matriz judaico-cristã - recolhem o apoio de cerca de um terço dos alemães. E mesmo o secretário-geral da CDU, o partido de Merkel, já reconheceu que a política de imigração deve ser revista.

Quem tenta aproveitar a onda é o pequeno partido eurocéptico Alternativa para a Alemanha, AfD. Já se mostrou do lado do Pegida e pronto para lançar pontes ao movimento. “Para sermos honestos temos de dizer que o Islão é estranho à Alemanha”, afirmou o líder do AfD, Bernd Lucke, em resposta à frase de Merkel - “O Islão faz parte da Alemanha”.

Além de Dresden, o movimento espalhou-se para outras cidades alemãs, e para fora do país, em mais dez Estados europeus, de Espanha à Finlândia. Na Alemanha, o perfil do líder do Pegida, Lutz Bachmann (condenado por furto e tráfico de droga) e alguma simbologia usada nas manifestações atiram o grupo para as correntes xenófobas ou islamófobas. E do outro lado temos os contramanifestantes, que saíram à rua nas principais cidades alemãs, nalguns casos em maior número.

Islão como inimigo

Se é na Alemanha que o movimento anti-islâmico ganha adeptos, foi na vizinha Holanda que surgiram os primeiros homens a insurgirem-se contra o Islão. Alguns, como o político Pym Fortuin ou o realizador Theo Van Gogh foram assassinados por terem dito o que pensavam. A refugiada de origem somali Ayaan Hirsi Ali, que colaborou com Van Gogh, trocou o Islão pelo ateísmo e comparou a religião do profeta Maomé a um “violento culto de morte”.

Já o populista Geert Wilders elegeu o próprio Alcorão como alvo. Ao comparar o livro sagrado dos maometanos ao Mein Kampf, e ao exigir a sua proibição, por considerá-lo “fascista”, Wilders acabou em tribunal por incitação ao ódio, mas foi absolvido. Irá de novo responder perante o juiz pelo mesmo crime, mas por ter perguntado num comício: “Querem mais ou menos marroquinos na vossa cidade e na Holanda?”.

Outro populista em ascensão é Nigel Farage. Já em pré-campanha eleitoral (em Maio há eleições gerais no Reino Unido), o líder do UKIP não perde ocasião. À Fox, o eurodeputado afirmou na terça-feira que é devido à “cobardia moral” que se formaram enormes guetos na Europa, nos quais se adoptou a lei islâmica e onde se pratica a poligamia, a mutilação genital feminina e o casamento com menores de idade. Noutra ocasião, Farage culpou os muçulmanos pelo crescimento do anti-semitismo em Inglaterra.

Entre os muçulmanos, nota para o recente discurso do Presidente do Egipto. El-Sisi dirigiu-se aos estudiosos e guias religiosos da Universidade de al-Azhar, o maior centro teológico do islamismo sunita, e apelou para estes iniciarem uma “revolução religiosa” que extermine o fanatismo e o substitua por uma “visão mais iluminada do mundo”, sob pena de serem responsabilizados pela “destruição da comunidade islâmica”.

cesar.avo@sol.pt