Opiniao

Je suis Charlie?

Muitas vezes encontro-me na incómoda situação de pensar o contrário da esmagadora maioria das pessoas. Aquando da vigília por Timor, por exemplo, em que se formaram cordões humanos em várias cidades do país e as pessoas puseram velas às janelas, achei tudo aquilo gratuito e piegas. Mas senti-me só. - Então, não vem à vigília? - perguntavam-me, como se fizessem uma pergunta desnecessária. Claro que iria, pensavam, pois toda a gente ia. Ora, não só não fui como achei aquelas manifestações uma tonteria. Bem-intencionadas, mas uma tonteria.
 

Hoje, quase 15 anos passados, muitos dos que estiveram nessas vigílias perceberão melhor as minhas reservas. Para um grande número deles, Timor foi uma cruel desilusão. Os políticos timorenses, com Xanana à cabeça, foram uma cruel desilusão. Os próprios timorenses foram uma cruel desilusão. Mas se a história se repetisse, e houvesse um outro Timor, essas pessoas iriam outra vez.

Porquê?

Porque nos dias que correm há uma grande necessidade de 'causas'. À deriva nesta sociedade onde a religião perdeu terreno mas não foi substituída por nada, muitas pessoas agarram-se a momentos para darem um sentido à vida. Só que esses momentos revelam-se muitas vezes ilusórios. 

Vem isto a propósito das manifestações por todo o país - e em boa parte do mundo - de solidariedade com o Charlie Hebdo. «Je suis Charlie» - disseram indivíduos de todas as condições, empunhando papéis onde se lia esta frase. 

À porta da Câmara de Lisboa, António Costa juntou socialistas e não socialistas, como Adriano Moreira, com o mesmo objectivo. Nas redacções dos jornais, das rádios e das televisões, os profissionais reuniram-se para tirar fotografias onde exibiam essas três palavras impressas: «Je suis Charlie». E eu olhava para alguns deles e pensava: estarão convictos do que estão a fazer? Jornalistas que eu conheço, e que não revelam verticalidade nem coragem no seu trabalho, estão ali a fazer o quê com folhas de A4 na mão a dizer «Je suis Charlie»?

Quantos daqueles jornalistas resistiriam às ameaças e pressões que alguns elementos do Charlie Hebdo sofreram? Quantos deles não meteriam o rabo entre as pernas ao primeiro aviso? Je suis Charlie? Tenhamos pudor! Muitos tiraram aquela fotografia porque 'ficava bem' fazê-lo. Porque outros também o fizeram. Porque são uns macaquinhos de imitação, umas 'maria vai com as outras'. Ora, era isso exactamente o que os jornalistas do Charlie Hebdo não eram. Eram mesmo o contrário.

Mas vamos ao Charlie Hebdo. Quem proclamava solenemente «Je suis Charlie» mostrava identificação com aquele projecto, com aquela postura, com aquela forma de fazer jornalismo, com aqueles princípios editoriais.

Ora, eu não me identifico. Não me identifico com muitos dos cartoons que o Charlie Hebdo publicou - de um humor ofensivo, insultuoso, por vezes grosseiro. De um humor que eu seria incapaz de subscrever. Por isso, nunca me sentiria bem a empunhar um papel dizendo «Je suis Charlie». Muito menos a meter-me, com esse papel na mão, no meio de um grupo, para tirar uma fotografia para inglês ver…

Mas - e esse é o fulcro da questão - apesar de não me identificar com o Charlie Hebdo, defendo a sua existência e o seu direito a publicar o que quiser, pela simples razão de que defendo a liberdade de expressão.
E defender a liberdade de expressão é exactamente isso: defender a liberdade daqueles com quem não concordamos. Porque é fácil defender a liberdade dos que pensam como nós. O que é difícil é defender a liberdade de quem não pensa como nós - ou até pensa contra nós.
É em nome deste princípio que defendo o Charlie Hebdo. Em nome da liberdade de pensamento e do direito a publicitá-lo. Se alguém se sentir ofendido, deve recorrer aos tribunais e tentar fazer valer aí os seus direitos. É para isso que os tribunais servem.

A meu ver, nestas manifestações de solidariedade para com o Charlie Hebdo, o papelinho com a frase «Je suis Charlie» era um equívoco. Aquilo que verdadeiramente unia toda a gente não era o apoio às caricaturas do Charlie Hebdo - era o repúdio da violência bruta de que o jornal foi alvo. O repúdio da violência e do terrorismo sob qualquer pretexto. Aí não há equívocos e estamos todos juntos.
Foi isso que aconteceu, de resto, na gigantesca manifestação que juntou em Paris mais de um milhão de pessoas e dezenas de chefes de Estado e de Governo. Aí, ouviu-se um clamor genuíno contra o terrorismo e a favor da liberdade.

Entretanto, há quem estranhe que se cometam atrocidades como a do Charlie em nome da religião. Estranha-se que o fanatismo religioso leve ao assassínio impiedoso de seres humanos - bem expresso naquelas terríveis imagens televisivas da execução de um agente da polícia caído no chão que pedia misericórdia.

Mas é bom lembrar que algumas das mais sangrentas guerras da história da humanidade foram confrontos de religiões. A luta contra a heresia, contra os 'infiéis', está no ADN de qualquer religião. Matar um 'infiel' é eliminar mais um símbolo do mal, um mensageiro do diabo. E, por isso, é um serviço a Deus.

Esta guerra entre cristãos e muçulmanos, que não é de hoje nem de ontem, prosseguirá pois sem fim à vista. Sobre isso ninguém tenha quaisquer ilusões. Até porque a globalização, de mãos dadas com a evolução tecnológica, só irá facilitar este tipo de acções terroristas.

Mas atenção: enquanto o Cristianismo - que também atravessou tempos de enorme intolerância e violência - se foi adaptando no Ocidente aos ideais democráticos, acabando mesmo em certas situações por lutar por eles, com o Islamismo não se passou o mesmo. O Islão manteve sempre no seu seio grupos radicais dispostos a tudo - até a usarem crianças como bombas-humanas!

Enquanto o Cristianismo condena hoje sem tibiezas a violência e prega a paz, o Islamismo é professado por gente pacífica mas também por grupos radicais que nunca se converteram à tolerância e matam barbaramente em nome de Alá e do profeta Maomé.

E esta é uma enorme diferença. O Cristianismo já foi fundamentalista mas evoluiu - o Islamismo convive com grupos extremistas que nalguns Estados árabes encontram protecção oficial. Assim, é ilegítimo dizer hoje que as religiões 'são todas iguais'.

Do mesmo modo, os jornalistas não são todos iguais. Eu, por exemplo, digo que não sou Charlie. Mas defendo a liberdade dos seus redactores para dizerem o que pensam. E repudio todas as formas de censura prévia - e, claro, essa forma extrema e hedionda que é pegar em armas para matar a expressão do pensamento. São homens a quem o fanatismo religioso desumanizou, transformando-os em monstros ignóbeis. 

jas@sol.pt