Economia

Os efeitos das medidas do BCE em Portugal

O Banco Central Europeu (BCE) anunciou ontem um programa inédito de compra de dívida pública. Através de uma injecção sem precedentes de dinheiro na economia, a organização de Mario Draghi pretende evitar o risco de deflação e animar a actividade económica. Num país como Portugal, são esperados efeitos diferenciados, segundo as previsões do economista Filipe Garcia, da consultora financeira IMF.

Taxas de juro Euribor

Nas taxas de curto prazo, espera-se que os indexantes continuem perto de 0% ou mesmo negativos. "Para os aforradores é uma má notícia. Para os devedores com contratos antigos, é o continuar de uma evolução favorável, mas os novos contratos já deverão proteger mais os bancos – que não tinham previsto esta eventualidade no passado”, considera o economista.

Crédito

É provável que se possa a assistir a uma redução dos spreads a praticar, mas não para níveis anteriores à crise financeira. “Estas medidas são um convite à concessão de mais crédito, mas para tal é preciso que haja procura, o que não tem acontecido. Em todo o caso, é de esperar um aumento da concessão de crédito a partir do 2.º trimestre”, antecipa.

Contas públicas

Filipe Garcia considera que o efeito da medida do BCE é “particularmente importante” para o Estado. Com a compra de dívida pública, as taxas de juros com que Portugal se financia devem descer: “O Estado ganha uma folga importante em termos de factura de juros e de espaço para reestruturar as maturidades da divida”.

Exportações e importações

O aumento de moeda na economia deve levar a uma descida da cotação do euro face a outras divisas, o que deverá favorecer os exportadores portugueses. Do lado das importações, as desvalorizações cambiais tendem a encarecer os produtos comprados ao exterior, mas desta vez isso poderá não acontecer. “Com a descida do preço do petróleo não se assiste ao habitual aumento da factura energética associada a uma desvalorização cambial, o que é positivo”, sustenta Filipe Garcia, que acrescenta: “Naturalmente, o poder de compra dos agentes económicos diminui face ao exterior”.

joao.madeira@sol.pt