Internacional

A sina das contas gregas

Ninguém sabe se as eleições gregas e as negociações entre a Europa e um provável Governo Syriza vão evoluir para uma catarse ou originar um pathos de sofrimento com as agruras do destino. Mas, por mais que se romanceie, uma coisa é certa: é impossível a Grécia pagar toda a dívida pública que contraiu e não haverá soluções sem dor para resolver esse problema. Resta saber se serão os gregos ou os países europeus a sofrer.

A dívida grega atinge hoje 177% do PIB e, embora já tenha havido um perdão de dívida negociada com investidores privados em 2012, o peso dos juros continua a subir. “Não pode ser evitada uma nova reestruturação da dívida soberana da Grécia, que está insolvente”, diz ao SOL Eric Dor, um investigador da escola de gestão francesa IESEG que estudou os impactos da crise grega. E pormenoriza: “Se calcular o rácio do excedente primário (superávit orçamental, sem contabilizar juros) que a Grécia deve manter por décadas apenas para estabilizar o rácio da dívida, segundo previsões de crescimento nominal plausíveis, percebe que não é realista”. Se o objectivo for reduzir a dívida e não apenas estabilizá-la, então seria “completamente irrealista” o nível de austeridade orçamental. “Não se consegue manter esse esforço por um tempo longo, social e politicamente”.

O problema é que uma reestruturação da dívida grega, embora pareça inevitável do ponto de vista contabilístico, traz problemas. Renegociar junto de investidores privados de pouco serviria, já que os principais credores de Atenas são hoje Estados-membros e organismos oficiais internacionais: FMI e BCE.

Os estatutos do FMI não permitem perdões de dívida e impor perdas ao BCE é algo que, ainda antes de sair do papel, tornaria de imediato o clima em Berlim ainda mais frio. Quanto aos países que canalizaram dinheiro para Atenas, seja por empréstimos directos seja por garantias aos fundos de resgate europeus, eventuais perdas teriam de ser contabilizadas nos défices públicos. Numa Europa onde a flexibilidade orçamental é um debate ainda imberbe, uma derrapagem orçamental à escala comunitária, a começar na Alemanha, é um sapo difícil de engolir no Norte do Velho Continente.

Eric Dor fez os cálculos. Entre empréstimos directos ou garantias prestadas aos fundos de resgate, a Alemanha é o país com a maior exposição total, de 56,5 mil milhões de euros. Em termos de PIB, são quase 2% da riqueza anual produzida no país. “Certamente um incumprimento da Grécia seria muito difícil de gerir. As exposições são muito elevadas em percentagem do PIB dos diferentes países”, considera Eric.

Raoul Ruparel, director do Departamento de Estudos Económicos do Instituto Open Europe, tem uma opinião semelhante: “Implicaria transferências orçamentais dentro da zona euro – um enorme Rubicão para atravessar”.

Então o que pode ser feito? Uma solução algures no meio. “O cenário mais plausível é que os países europeus, incluindo a Alemanha, tenham de negociar e aceitar uma reestruturação da dívida grega, para evitar uma saída do euro. Pelo menos uma forma leve de reestruturação, através do alargamento da maturidade dos empréstimos bilaterais e do EFSF (um dos fundos de resgate europeus), deve ser aceite”, considera Eric Dor.

Se a Grécia não conseguir chegar a acordo para alguma forma de reestruturação, então o caminho pode mesmo ser a saída do euro, em que as consequências seriam mais imprevisíveis. “O impacto poderia ser financeiramente gerível, mas seria politicamente desastroso. Quebrar o tabu de sair do euro pode levantar problemas no futuro. Sempre que surgir um problema os mercados vão questionar se vai ser tratado dentro do euro ou se o país acabará por sair”, conclui Raoul Ruparel.

joao.madeira@sol.pt