Cultura

Uma editora com um toque de escândalo

Um livro “irrepetível”. É assim que o editor Manuel S. Fonseca define 'As Flores do Mal' de Fernando Pessoa - absinto, ópio, tabaco e outros fumos, do qual foram feitos apenas 1.500 exemplares numerados. O que tem de especial este livro? A capa e a contracapa, que são feitas de uma única folha de madeira. E a lombada flexível, só possível graças a uma avançada tecnologia laser. Nunca antes tinha sido feito em Portugal um livro com estas características.

Para Manuel Fonseca, a obra exemplifica bem os valores da Guerra & Paz, a editora que fundou em 2006. “É uma espécie de coroa na cabeça da editora”. Colocado nas livrarias em Novembro de 2014, a tempo do Natal, 'As Flores do Mal' de Fernando Pessoa teve entrada directa para o top de poesia da Fnac. A ideia de fazer um livro de madeira, explica o editor, surgiu “por causa da questão da proibição”. Os vícios a que alude o título são “qualquer coisa que está dentro do armário. Que se mete na gaveta, às escondidas”.

A obra tem ainda outra particularidade: os textos de Pessoa e seus heterónimos são acompanhados por fotografias de Pedro Norton, o sucessor de Francisco Pinto Balsemão como CEO do grupo Impresa (que inclui a SIC, o Expresso e a Visão), criadas expressamente para este projecto. “Ele leu os poemas e teve toda a liberdade. Aquilo que o motivou foi estabelecer laços a partir da realidade contemporânea que não fossem uma ilustração dos poemas. São um retrato da realidade decadente ou inocente que pode ser fotografada hoje em dia”.

Onde tudo começou

A Cinemateca Portuguesa, onde trabalhou como programador com João Bénard da Costa, foi um dos locais centrais na vida de Manuel Fonseca. Conheceu o director da instituição e historiador de cinema por “uma coincidência”, proporcionada pelo seu professor José Gabriel Trindade dos Santos. Pelo estilo de escrita que Manuel Fonseca colocava nos trabalhos universitários, Trindade dos Santos entendeu apresentar o seu aluno a Bénard da Costa, de quem era amigo. Acabariam por viver momentos marcantes, como assistirem juntos ao primeiro ensaio da canção 'FMI', de José Mário Branco. Ao consolidarem a relação de amizade, Bénard da Costa convidou-o a integrar a equipa de programadores da Cinemateca Portuguesa. Isso obrigou Manuel Fonseca, nas suas próprias palavras, “a ver os filmes num contexto histórico e perceber de onde eles vinham. Não se tratava apenas da relação em primeiro grau de estar a ver um filme e ter emoções. No fundo, o que se fazia na Cinemateca era História do Cinema”. A experiência ali adquirida reflectiu-se no seu percurso posterior: aprender a fazer livros foi um resultado lateral da edição de um catálogo que reunia os textos sobre os ciclos que organizavam.

O facto de Bénard da Costa o estimular a desenvolver a escrita foi outro ponto importante da sua experiência na Cinemateca. Hoje, Manuel Fonseca é colunista do Expresso e publica textos de crítica literária e de cinema no seu blogue pessoal 'Escrever é Triste'. O editor justifica o nome do blogue com a teoria de Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é triste porque é um acto muito solitário. Escrever significa abdicar de viver para estarmos sozinhos diante de uma folha de papel em branco, angustiados e a tentar que aconteça qualquer coisa”. Inversamente, considera que “ler é feliz, é uma atitude de substituição. Há também alguma tristeza na leitura, porque ler significa também não ir viver, mas é acreditar que se encontra numa página de papel tanto mundo e tanta emoção como as emoções que encontramos no mundo real, se é que não são até maiores”.

O emprego na Cinemateca foi a “primeira experiência profissional sistemática em Portugal”. Antes disso já trabalhara em Angola, onde passou a maior parte da infância. “Era menino e moço” quando aos cinco anos foi com os pais para a então colónia portuguesa. Durante os 18 anos que viveu em Luanda, foi professor de Literatura e trabalhou na Rádio Ecclesia, Emissora Católica. Participou na rubrica 'O Rei morreu, viva o Rei' e, após o 25 de Abril, nas 'Crónicas do Aracnídeo', ambos de crítica política e social. E ainda criou o seu próprio programa, 'Água Viva'. Recorda este período como “os anos essenciais de formação, sobretudo de personalidade, emotiva. Tenho uma grande dívida para com Angola. Foi um período de grande abertura espiritual e sentimental, que eu julgo ainda conservar um bocadinho”.

De programador a produtor

O permanente contacto com os produtores, para a realização de retrospectivas na Cinemateca, vai aproximá-lo da televisão. Durante um ano e meio faz a programação de cinema da RTP 2, que hoje considera “muito sofisticada. Era quase a própria Cinemateca. Nessa altura passei O Império dos Sentidos do Oshima, um filme em que há cenas de sexo explícito, o que gerou uma grande polémica e escândalo. Decidimos programar porque achávamos que a obra tinha um mérito que ultrapassava essas circunstâncias habituais de reserva, pelo seu lado artístico”.

Pouco tempo depois, quando surgem os canais privados, Manuel Fonseca passa a integrar a equipa de programação da SIC. As funções no canal privado levaram-no a contactar com as áreas da produção, em que se aventura nos anos 2008 e 2009. Dessa incursão nascem dois sucessos: Amália - O filme e A Vida Privada de Salazar, que surgem como biografias ficcionadas, transformadas em mini-séries transmitidas pela RTP e SIC, respectivamente.

A editora mais pequena do mundo

“Estava quase a acabar o século XX, já eu levava sete anos de ganhar a vida na SIC, deu-me o que Billy Wilder e Marilyn Monroe imortalizaram como o 'seven year itch'. Uma comichão do caraças: o doutor Balsemão que me desculpe, mas a SIC já não me bastava”, lê-se no blogue 'Escrever é triste'. Manuel Fonseca pegou nas suas economias e fundou, com dois amigos, a Três Sinais, que definiu como “a editora mais pequena do mundo” (entretanto extinta). Outros sete anos volvidos, em 2006, fundaria a Guerra & Paz, “uma editora mais canónica, generalista”. Cumprindo o slogan 'Inventamos os nossos livros', a Guerra & Paz caracteriza-se por lançar desafios a autores, que acabam por resultar em objectos únicos. Mas não abandonou por completo o conceito da Três Sinais, baptizando assim uma das colecções da actual editora - precisamente aquela onde As Flores do Mal se insere.

Esta foi já a terceira vez que a Guerra & Paz editou textos de Fernando Pessoa. Estreara-se com Tabacaria, que juntou cinco versões do poema em diferentes línguas, e posteriormente editou Livro de Viagem, à semelhança do livro de madeira, uma antologia de poemas. Todos foram bem recebidos pelo público português. “Há um Pessoa que está na leitura do cidadão comum. É um lugar escasso na literatura portuguesa do século XX que criou imaginário nas pessoas porque é lido. Só há imaginário quando os livros são lidos. Um livro que não é lido não cria imaginário”, afirma o editor.

Novembro de 2014 revelou-se um mês especialmente fértil para a Guerra & Paz, que publicou também O Bordel das Musas ou As Nove Donzelas Putas, de Claude le Petit, um poeta maldito do século XVII, queimado vivo na Place de Grève, em Paris, com apenas 23 anos. Trata-se de uma edição bilingue, que conserva os poemas originais de Petit, traduzidos pela poetisa Eugénia Vasconcelos e com ilustrações do escultor João Cutileiro, que reflectem a sensualidade dos poemas. Devido às suas características especiais, também este volume se insere na colecção Três Sinais. O papel texturado, a parte exterior do miolo pintada de bordeaux e a tela que reveste a capa oferecem “um toque simultaneamente de escândalo e de delicadeza”.

Por considerar fundamental “que a leitura seja uma experiência”, a Guerra & Paz continuará a apostar em edições cuidadas e singulares. O mesmo será dizer, a 'inventar os seus próprios livros'.