Sociedade

Companhia até à última morada

António Balcão Reis segura as flores na mão enquanto o carro funerário avança lentamente pelo Cemitério de Benfica. «Prefiro levá-las na mão. Dá um cunho menos administrativo e mais pessoal a esta missão», desabafa o voluntário da Irmandade de São Roque, acrescentando: «É a única coisa que podemos fazer por eles. Estar aqui. Além da oração, claro».

Sentado a seu lado, segue António Gomes Nunes, outro voluntário da irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que leva à prática uma das chamadas sete obras de misericórdia: enterrar os mortos. Neste caso, os que morreram sós e não têm quem os acompanhe até à última morada. No ano passado, esta cena repetiu-se 107 vezes, só em Lisboa, com as exéquias de  62 homens, 31 mulheres e nove bebés. Mas se recuarmos dez anos, os números impressionam: 1.729 cadáveres não reclamados acompanhados ao cemitério pelos voluntários da irmandade. Foram remetidos pela Medicina Legal ou  pelos hospitais, que articulam com a agência funerária que presta o serviço.

Muitas vezes, é no percurso que separa a porta do cemitério da sepultura que se escolhe o nome para o indigente que vai a enterrar, numa conversa que envolve os voluntários, o motorista da funerária e o sacerdote que faz o acompanhamento religioso. Isto porque muitas vezes não é possível identificar o cadáver. «Entre nós, trocamos opiniões, damos sugestões e acordamos um nome», explica o padre Cecílio, sacerdote que dirige o funeral. «Como posso relacionar-me com ele, enviá-lo para Deus, sem um nome para o chamar?», acrescenta o padre que já desempenha esta missão há 12 anos e não deixa de se espantar «com esta pobreza». Aqui é impossível evitar comoções ou não se deixar levar por especulações sobre a vida que terminou: «Pensamos: o que faz uma pessoa chegar ao fim da vida sem ninguém? Dói, claro que dói», diz o padre. 

Famílias abandonam bebés ou fetos que nascem mortos

Os casos que pesam mais são os dos bebés, reconhecem de forma unânime os voluntários e o padre. São quase sempre fetos que não chegam ao final do tempo de gestação, ou que morreram nas primeiras horas de vida, mas a quem a lei impõe a realização de um funeral. Alguns são encontrados em lixeiras ou deixados no hospital pela família. «Vieram ao mundo, têm mãe e pai. Onde é que eles estão?» - questiona o padre Cecílio, certo de que, mesmo não tendo sido baptizados, «vão para o Céu».

Ao fim de tantos enterros -  que já chegaram a ser quatro num só dia ou nove numa semana -, António Gomes Nunes já aprendeu a proteger-se da dor e a não levar «os casos para casa». Mas nem sempre é fácil, acrescenta o irmão mais velho, António Balcão Reis, que é também segundo vice-provedor da irmandade que faz desta missão um serviço de caridade cristã aos mais desfavorecidos. 

Ambos relembram um caso que os marcou profundamente: «Estávamos no enterro de um bebé e de repente reparámos que, ao longe, estava um casal jovem. Não se aproximaram, mas ficámos com a sensação de que estavam a acompanhar de longe». Vergonha, incapacidade financeira, imaturidade, depressão. São muitas as causas que podem explicar a ausência da família. «Às vezes, as pessoas até podem ter amigos e conhecidos, mas isolam-se e os outros nem sabem do seu falecimento», comenta o irmão Balcão Reis que há dias viveu uma situação pessoal semelhante: «Soube de um colega que faleceu em casa e só foi descoberto após uma semana. Quando soube, já tinha sido o funeral, nem consegui ir».

Neste dia, a missão dos voluntários é enterrar um homem de meia idade. Dele apenas se sabe que é português e veio de um hospital da cidade. O cortejo fúnebre chega ao local da sepultura e, na hora das últimas orações, o céu parece desabar sobre os irmãos que se abrigam debaixo do mesmo guarda-chuva. Recitam o Pai Nosso, ouvem as preces do padre Cecílio e, inabaláveis, assistem ao descer da urna, crentes de que a alma do falecido segue agora para o Céu.

rita.carvalho@sol.pt